Dois episódios para Heckmaníaco nenhum botar defeito.

Ufa! Finalmente minha má impressão sobre essa sexta temporada de The Middle começou a passar. Se por um lado já estava bastante empolgado com as possibilidades que a comédia abriu, tanto de plots quanto de evolução de personagens, tinha a latente impressão de que o fator “graça” estava deixando a desejar neste sexto ano. Pois bem, depois de ‘The Table’ e ‘Halloween V’, a nuvem de desconfiança começou a se dissipar e a temporada de The Middle parece que está engrenando.

Comecemos falando de Brick porque tenho pegado bastante em seu pé nas últimas reviews. Em ‘The Table’ (6×04), o personagem se viu em uma daquelas situações bastante comuns, em que os demais membros da família estão envolvidos em outros plots e Brick precisou correr por fora, praticamente sozinho, vez ou outra se inserindo no contexto familiar, fazendo digressões sobre seu Fontcast. Como eu adoro brincar de podcast no Podmaníacos com Michel, Camis, Warley e Zuil, foi impossível não me reconhecer um pouco ao ver sua preocupação em gerar conteúdo para agradar seu único fã. É claro, eu não esperava que esse único fã seria Jimmy Kimmel, em mais um cameo realizado pela série. Isso foi muito legal, não só pela surpresa que conseguiu causar, mas também por mostrar que a produção consegue atrair boas participações especiais. Claro, não é nada assim que se diga nossa, que participação maravilhoooosa, mas já quebra bem um galho. Aliás, conheço uma outra pessoa, de sobrenome Cooper, que adoraria escutar o Fontcast, assim como Brick certamente seria um espectador assíduo de Fun with Flags.

Porém, foi no episódio seguinte, ‘Halloween V’ (6×05), que Brick finalmente voltou a me fazer sorrir. Explorar sua puberdade é uma opção natural, mas não havia garantias de que os roteiristas seguiriam por esse caminho. Por tudo o que conhecemos de Brick, seria plausível imaginar que, em 20 anos, sua linha do tempo acabaria transformando-o em Sheldon Cooper. Assim, a chegada da Bricka – a menina que se não tiver camarão, prefere ficar sem comer – é uma decisão que me enche de alegria, não só porque seu nível de esquisitice pode deixar Frankie em situações constrangedoras – como tentar dar ‘cobertura’ para Brick, enquanto este pedia doces no halloween, sem sua convidada -, mas por mostrar que o corpo de Brick não negará uma coisa inerente à grande maioria dos seres humanos: os hormônios. Não vejo Brick passando horas trancado no banheiro, mas seu interesse pelo sexo oposto já é um claro indicativo de que ele não será tratado como um modelo antigo de Cylon.

Já que falamos de Frankie, é preciso destacar ainda que neste sexto ano, o roteiro tem dado mais espaço para situações amorosas com Mike. Tradicionalmente, os patriarcas dos Heck sempre estiveram ligados à suas profissões, falta de dinheiro, dificuldades de criar os filhos, competições com os vizinhos, entre outros. Entretanto, apesar de termos visto bons momentos românticos do casal, como em ‘Twenty Years’ (4×10) e ‘The Kiss’ (5×08), estamos na primeira temporada em que praticamente todos os episódios possuem pelo menos uma cena romântica de Frike. Em ‘The Table’, foi aquela maravilha de cena dos dois, tendo um jantar a luz de velas em sua nova mesa de jantar. Estamos tão acostumados a ver Frankie se dando mal, que era óbvio que a mesa viria com algum problema. Por US$ 52, ela conseguiu uma elegante mesa de jantar para casa de bonecas. Além de todo humor proporcionado, ainda é importante frisar cenas como a da imagem que abre essa review. Mesmo a situação financeira dos Heck não sendo nenhuma novidade, este belo enquadramento mostra que a série também pode se preocupar um pouco com a forma, ao mesmo tempo em que transmite as mensagens.

Sue, por sua vez, recebeu o destaque que merece em ambos os episódios. Em ‘The Table’, tivemos o primeiro vislumbre na temporada de como é sua relação com Darrin. E posso falar? Foi exatamente do jeito que eu imaginei que seria: sobrando caramelo, açúcar, piña colada ou qualquer outra coisa doce que você consiga pensar. Tudo isso, envolto num universo colorido de fofura, mas muita fofura, o suficiente para incomodar todos a sua volta. Isso é o “amor novo”, como bem lembrado por Frankie. Só que esse amor não pode cometer o equívoco de ficar brincando de reata e desata o tempo todo e ferindo nossos corações. Darrin é o boy magya que eu sempre sonhei para Sue e vou achar de uma preguiça criativa muito grande se investirem apenas em términos passageiros, como se fosse a 1ª temporada de ‘Mike & Molly’. Sue é uma garota jovem, com muito para viver e material para mostrar não falta.

No episódio seguinte, ‘Halloween V’, a série retomou o assunto da ida de Sue para a faculdade e a necessidade de juntar dinheiro para que isso aconteça. Eis que ela teve a ideia genial de fazer uma Sessão de Cinema ao ar livre para aumentar o seu Fundo Universitário. O problema é que sua originalidade, aliada a armação de Deb e Court – que estão morando juntas e, aparentemente, começam a não se suportar -, acabou jogando contra. Se as pessoas preferem o clichê de assistir um filme de terror no halloween, ao invés de um filme com a turma de Charlie Brown, não é problema seu. Mesmo assim, como um absoluto apaixonado por ‘Grease‘, foi impossível não vibrar e invejar Brad por sua fantasia metade Danny, metade Sandy. Ao que me lembre, essa foi a segunda citação que ‘The Middle’ fez para Grease, e dessa vez foi ainda mais bem encaixada que a primeira, em ‘The 100’ (5×04), quando Brad e Sue cantaram ‘Summer Nights‘. Grease tem uma cena no drive in e a lembrança não poderia ter sido mais propícia.

Durante toda a execução de sua estratégia para arrecadar fundos, uma ideia me passava o tempo todo pela cabeça: por que a Sue ainda tenta? A resposta para essa pergunta é digna de um aparecimento de Marcelo Tas em Castelo Rá-tim-bum: porque sim! Só que neste caso é resposta porque como a própria Sue diz, “eu sempre vou continuar tentando”. Foi quando retornei ao meu juízo perfeito e pensei sobre mim: que burro! Aquele senhor que apareceu e contribuiu com US$ 50 dólares, me deixou com uma pulga atrás da orelha. Pode ser apenas esperança de quem assistiu “Vovô e Eu” quando criança, mas seria lindo e providencial se ele aparecesse mais para frente e pudesse contribuir, de fato, com a faculdade de Sue. Eles se deram bem e, quem sabe o que sua história poderia nos reservar?

Deixei o melhor para o final e fico muito feliz por não se tratar de Frankie ou Sue, para variar. Sim, falta mencionar a trajetória de Axl, que vem sendo irrepreensível neste sexto ano e digna de todas as notas. E os elogios não faltam. Primeiro porque a série não está apostando que o desenvolvimento do personagem é o simples fato de ele estar na faculdade. The Middle está indo além, sem focar apenas no mesmo adolescente babacão em um ambiente diferente. A série está se aprofundando e mostrando os efeitos que o ambiente em que está inserido causam num adolescente babacão.

Em ‘Major Anxiety’, já tínhamos visto um pouco sobre o período nebuloso de dúvidas pelo qual está passando o filho mais velho. Naquela ocasião, ficou bem claro a influência que o meio pode exercer sobre o indivíduo. Frankie e Mike ajudaram no que foi possível para que Axl definisse a carreira que pretende seguir. Entretanto, até pelas limitações que enfrentaram em suas próprias vidas, são falhos em orientar seu primogênito a tomar decisões que eles jamais tiveram que fazer. Em ‘The Table’, esse assunto não foi continuado de forma direta. Entretanto, lidar com as contas e descobrir que o wifi não é grátis, não deixa de ser uma descoberta e um amadurecimento. É claro que Axl e Hutch lidaram com a situação da forma que sabem: deram uma festa e juntaram gatinhas, achando que essa seria a resolução para seus problemas. Obviamente não foi, mas não deixa de ser um indicativo dessa tecla sobre evolução dos personagens que eu venho batendo há pelo menos duas temporadas.

A solução encontrada por Axl foi trazer de volta Kenny, o ex-colega de quarto que vivia de costas enfurnado em jogos de computador. É o tipo de pessoa que Axl tem familiaridade, afinal Kenny é a versão gamer de Brick. Fico feliz com o retorno do personagem porque posso voltar a sonhar com o que a série pode fazer com ele. Vou compartilhar: se eu fosse o showrunner de ‘The Middle’, convidaria um ator pica grossa do cinema ou da televisão e convidaria para fazer uma participação especial como Kenny. Em um episódio, ele apareceria de frente, por alguma justificativa ligada ao plot, e até interagiria com Axl e Hutch. Nos seguintes, o personagem continuaria aparecendo de costas, como de costume, e o público poderia guardar essa imagem como se o astro estivesse sempre participando de The Middle.

Bom, eu não sou o showrunner, mas posso, como telespectador, comemorar os rumos pensados para Axl. O passo seguinte, após decidir o que fazer da vida, é pensar em como transformar sua formação em forma de ganhar a vida. Esse foi o dilema enfrentado por Axl. Em suas cenas preso na biblioteca, Charlie McDermott trabalhou com eficiência as cenas de humor, mas também demonstrou sua força cênica nos momentos em que o roteiro exigiu uma composição mais densa – pelo menos o mais denso que uma comédia pode se propor a ser, o que a maioria das produções do gênero não é, mas ‘The Middle’ vem fazendo com maestria. Sua cena em frente a estátua na biblioteca, em que fez um desabafo sobre seu futuro, foi um daqueles momentos em que a gente precisa apertar o Pause e se questionar: essa série não era uma comédia? E é. Só que também está fazendo o possível para ser mais.

Artigo anteriorHell On Wheels | Série é cancelada pela AMC. 5ª temporada será a última.
Próximo artigoNew Girl 4×06: Background Check