Seria tempo para uma nova arca?

Todas as vezes em que uma experiência muito ruim nos assalta, isso sempre significa que viveremos tudo de sensorial que ela representa. Ninguém quer passar por perdas ou mudanças muito drásticas, mas assim que elas chegam, trazem consigo o cardápio de emoções que passamos todo o resto do tempo tentando afastar. O fardo da memória que nos ronda antecipa uma grande ansiedade: a de que tudo se repita.

Quando esse episódio de The Leftovers começa, Nora está dormindo e um terremoto lhe tira da cama aos solavancos. Ela procura por Kevin e não o encontra. Do lado de fora, a vizinha conta que a filha sumiu e apenas a palavra “gone” já é suficiente para arrancar Nora da segurança que ela pagou 3 milhões para ter. Apenas uma palavra… E o pânico de ver-se sozinha depois de outra Partida consome suas entranhas até a manhã seguinte, quando Kevin volta de sua bizarra excursão noturna.

Esse sentimento de insegurança acaba perseguindo Nora por mais algum tempo dentro do episódio. Apesar de Kevin ter voltado, o desaparecimento de Evie ainda é uma realidade e se ela não foi encontrada em lugar algum, o pensamento mais insistente e maldito que cutuca Nora o tempo todo é o de que um novo 14 de outubro pode ter acontecido ou esteja acontecendo gradativamente. Se a menina não apareceu morta, se não escorreu pela fenda do lago, se não deixou pistas no carro, o que diabos pode ter acontecido com ela?

“A arca partiu dia 14 e levou todos os animais que precisava”… Essa é uma ideia deprimente e ligeiramente agressiva também. Reforça aquela noção de “sobra” que o título do show carrega com propriedade. Os pavores de Nora são aliviados pela história de Matt sobre a mulher ter saído do estado vegetativo na noite que chegaram a Miracle. Mas, dentro da própria casa de Evie, há membros que acreditam na partida dela. Imaginem só o horror que se instalaria sobre a cidade se ela perdesse seu marketing propulsor? 

Orange Sticker foi o primeiro episódio dessa segunda temporada que não adicionou tantas informações ao universo que foi estabelecido. Isso nos trouxe uma sensação de diminuição de ritmo. Ainda assim, detalhes importantes estiveram no episódio de uma forma enriquecedora, mesmo que pouco direta. A sombra de uma nova Partida Repentina instalou-se na mitologia e por mais impossível que ela pareça, o sumiço de Evie reforça uma desconfiança, uma dúvida, e isso já suficiente para dominar os personagens. 

O adesivo laranja do título se refere à marcação que as autoridades fizeram em todas as casas da cidade, para confirmar que nenhum morador fora levado. Na casa dos Murphy também há um, mas de repente ele começou a parecer incômodo para Michael, o irmão super religioso de Evie (aquele que permaneceu mais tempo em gestação). A certeza dele de que a irmã foi levada assim como todos os outros é tão forte que no último instante do episódio ele tenta arrancar o adesivo laranja porque ele não corresponde mais à realidade da casa. Alguém ali foi levado sim… claro que foi… 

Patti também sabe de alguma coisa… Ou melhor, aquela existência indefinida que chamamos de Patti e que agora aparece inesperadamente cantante. Acho que o homem no totem da praça perguntar quem era a amiga de Kevin não configura exatamente que ele a tenha visto. Mas, nunca se sabe. A aparição persegue Kevin com as coisas que ele não quer admitir e a tentativa de suicídio é uma delas. Acredito que ele vá se lembrar da ocasião em algum momento, mas o fato é que a voz de Patti está dizendo para ele as mesmas coisas que a cabeça de Nora lhe diz diariamente: algo muito errado aconteceu e está para acontecer de novo. Além disso, a série está o tempo todo invertendo as polaridades entre partir e ficar, fazendo com que a canção de Rick Astley repetida por Patti seja uma ironia e uma provocação. Eu não vou desistir de você.

Eu já tinha falado antes que essa segunda temporada tem flertado muito com a ideia de que a Partida Repentina pode não ter sido tão aleatória. Acho a perspectiva perigosa e intrigante, ao mesmo tempo. Tudo isso foi muito pensado, engendrado de uma forma coesa e esperta, já que se há um lugar que foi “poupado” é natural que a dramaturgia nos provoque com a possibilidade de um “plano”; de Deus, da natureza, das forças cósmicas, do homem na Australia, ou seja lá de quem for. Ainda acho que esse não seja o caso, mas eu estou de fora, eu não vivo sob essa ameaça a cada dia… e é uma baita ameaça, é uma perspectiva de dor que não tem tamanho; a ponto de Nora se algemar com Kevin, na sequência que eu considero a mais contundente e climática desse episódio. Foi realmente forte e também doce. Havia o medo dela, mas também havia o amor, o zelo. Foi realmente delicado e Carrie Coon continua simplesmente maravilhosa.  

Enfim, se há milagre em Miracle a Partida não foi aleatória. A questão é que estou muito mais inclinado em concordar com John, que tinha em sua fúria uma pequena dose de pavor pela possibilidade de Isaac realmente ter algum tipo de “poder”; o que implicaria em ser confrontado com a existência de “algo em que acreditar”. Toda a atmosfera sombria da cidade insinua um possível lençol de mentiras que corre nos subterrâneos; e a cada arranjo de violoncelos que toma uma cena, a sensação é de que outro “dilúvio” se aproxima e mais “animais” estão sendo pareados.

Aí está a beleza da coisa, porque mesmo que isso jamais vá acontecer, aqueles personagens que vieram de Mapleton não trouxeram fé com eles. Eles se sentem como talvez nenhum morador de Miracle jamais se sentiu: como os que ficam na tempestade e se afogam dolorosa e lentamente. 

As Sobras: Um toque esperto na cena em que o povo da cidade se estapeia para conseguir um pouco da água que sobrou do lago. 

As Sobras 2: Virgil ainda vai acontecer, eu espero. 

As Sobras 3: Que espetacular trilha a desse episódio. Aliás, se The Leftovers lançasse CD’s eu seria o primeiro a comprá-los. Que estranha e excitante aquela versão do clássico de Grease. 

As Sobras 4: Acho que estranhas práticas sexuais do marido de Patti merecem uma menção, não acham?

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