Ações egoístas tendem a nos fazer quebrar.

Nos reviews anteriores mencionei que June (Elisabeth Moss), cada dia mais, estava deixando Gilead tomar conta dela. Vimos sua versão Regina George forçar Natalie/Ofmatthew até o ponto de ruptura, onde o isolamento e o mal-querer regiam sua já fragilizada condição. Apesar de se tratar de um ponto importante no psicológico da personagem, soou mais como uma firula dos roteiristas, estendendo uma desnecessária barriga, do que, de fato, uma construção de acontecimentos. Em Heroic tivemos algo parecido com Ofjoseph, acompanhando sua atrofia e desespero diários, em penitência por usa irmã de caminhada que jamais acordaria.

Não me levem a mal, é sempre incrível ver o elenco afiado do show nos atribuindo sensações e despertando consciência e questionamentos, entretanto, após todas essas ações, voltamos para a mesma June de 6 episódios antes: obstinada, objetiva e disposta a tudo para que Gilead quebre. A ótica de sua sede saiu da vingança para a de justiceira e mártir, claramente, conversa com a figura histórica de Irena Sendler, a polonesa que salvou 2.500 crianças do Gueto de Varsóvia. Ela entendeu onde é a ferida daquela sociedade e pretende um golpe de mestre para tal, não se trata apenas de Hannah, não se trata mais de se salvar e escapar com os seus… De dentro ela quebra todos eles, de dentro ela consegue mais dando um duro golpe numa sociedade que quer ganhar força e respeito a níveis mundiais.

O momento em que June tem a revelação de que crianças que mal entraram na puberdade são quase um bem de consumo, um mero objeto, conversa com nosso cotidiano mais uma vez, em diversos países essa conduta e/ou normativa é comum, com meninas de 12 anos se casando com homens de 40; crianças pré-púberes no sertão que vão para as beiras de estrada e, por vezes, sofrem todo tipo de violência por um prato de comida e uns trocados para tentar sustentar a família. A miséria humana em sua condição elevada, de forma assustadora, onde aqueles que se dizem guardiões são os que, de fato, abusam e destroem qualquer pensamento que não seja a submissão e a perpetuação de suas doutrinas extremistas.

O momento é oportuno, visto a última reunião da ONU, com nosso Governo dizendo que “é prerrogativa da família decidir sobre a maturidade sexual”, entretanto, numa sociedade que, cada dia mais se mostra próxima do que The Handmaid’s Tale retrata, uma família “conservadora” considera que um pré-adolescente não deve conhecer seu corpo e sua mente, que a repressão é a melhor saída e que, quanto antes reproduzir, antes se casará e/ou será dono de si. Se na série a República de Gilead enxerga em crianças roubadas seu fruto de ouro para perpetuar uma sociedade insatisfeita com a liberdade e buscava combater as escolhas individuais acima de tudo, a nossa realidade só se difere no fato de que isso fica a cargo do seio familiar, onde, segundo dados oficiais ocorre 70% dos casos e violência sexual e de gênero. Nós vivemos Gilead diariamente, apenas não fazemos relações corretas.

Dentro do episódio 9 ainda tivemos as medidas extremas de extensão da vida e, mais uma vez, nos recordaram que aias são meras vacas reprodutoras, incubadoras humanas cuja vida jamais será levada em consideração e cujos corpos não serão respeitados. As medidas para prolongar a gestação a qualquer custo e a naturalidade com que o alto escalão de Gilead encara isso é odioso. É o mesmo papo que vemos os pró-vida levantarem na mídia.

A ótica totalitarista de Gilead é reflexo da ótica autoritária que, sutilmente, tem se infiltrado em nossos governos. Vivemos décadas de avanços e liberdade, seja ela sexual ou de pensamento, para, em pleno 2019, uma minoria organizada começar a seduzir, mais uma vez, a grande parcela desatenta de pessoas fragilizadas por economias quebradas e violência exacerbada.

Os Filhos de Jacó são um claro reflexo do conservador atual e delirante, e uma frase do episódio 1×05 define bem o pensamento de pessoas que pensam apenas em si e seus iguais:

“Nós queremos um mundo melhor!”

“Melhor?”
“Melhor nunca significa melhor para todos!”.

Por falar em conservador, tivemos o retorno de Fred (Joseph Finnes) e Serena (Yvonne Strahovski) com um presente de grego: Comandante Winslow (Cristopher Meloni). O amor que Fred tem pelo poder é absoluto, após a queda, não mede esforços para ascender mais uma vez. Ele tem um sentimento de posse gritante por June, todos na casa dos Waterford sabem disso. Ter a verdade tão dolorosamente jogada na cara faz com que ele insista em quebrar um nome de poder: Joseph Lawrence. O fato de Lawrence (Bradley Whitford) não sofrer interferências dentro daquele regime era uma dádiva, entretanto, após o olho clínico de Tia Lydia (Ann Dowd) notar o quão liberais e bocudas são suas aias, costura muito bem com a retaliação sofrida pelo décimo episódio. Juntou-se a fome com a vontade de comer, afinal, Fred anseia o prestígio, Tia Lydia, a ordem e “existem comandantes com mais poder que Lawrence, minha querida!“.

Eleanor Lawrence (Julie Dretzin) é quem sofre nesse fogo cruzado de quereres e egoísmo. Sem seus inibidores emocionais, com dias bons e ruins, sua serenidade é arruinada por uma cerimônia que conversa em paralelo com a do episódio 2×10. É doloroso demais ver o quão destruída ela fica e como tudo o que você faz, realmente, acaba voltando para você.

Serena, Serena… O que tanto apronta por de baixo dos panos? Seu rápido movimento em Heroic seguido de uma estranha felicidade em ver June bem lhe garantem, realmente, a melhor construção de personagem da série. Já vimos Serena em diversos momentos, em seus altos e seus baixos, suas frases e movimentos involuntários, seus olhares em cena e como a câmera foca no que ela sente são dizeres diretos do roteiro e da direção. O trabalho de expressão corporal e facial de Yvonne Strahovski explode nos olhos em cada cena, seja com seu espanto ao ver June quebrada mais uma vez, ou em seu quase sorriso ao ver que ela recuperou suas forças. A cumplicidade que essas duas mulheres tem, mesmo na relação mais abusiva da série é um deleite de ser encarada e, sabemos o quão explosivos podem ser os sentimentos para uma mente quebrada. Serena é uma incógnita, uma pessoa crente num regime em que sempre esteve a frente e precisou ir para trás. Sua capacidade intelectual e muito maior do que, de fato, a de boa parte dos homens no poder e sim, é possível que seu envolvimento com o Mayday seja sutil, movendo um ponto de poder que ela sabe ter e que Fred adquiriu através da força e por ter um pênis.

Sua sutil discordância das ações de Fred soam como uma aquiescência para os haters da personagem que a enxergam em apenas 1 ou 2 cores, a quem minimamente presta atenção ao que assiste, vemos o conflito de uma moralidade recém descoberta, mas da qual ela finge não existir para concretizar o que planeja, friamente calculado, ainda que seja por razões unicamente egoístas.

Por fim, bolinhos querem dizer sim e finalmente o Mayday vai aparecer após dois evitáveis círculos que serviram, exclusivamente, para regredir a personagem e levá-la ao mesmo ponto onde estava episódios antes.

REVISÃO GERAL
Nota:
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