Quando The Handmaid’s Tale foi ao ar, em 2017, vivíamos em todo mundo, sobretudo aqui no Brasil, uma avalanche de retirada de direitos das mulheres, mais do que nunca, a pauta conservadora e neoliberal tomava conta do Congresso e ter uma obra que retrata um futuro distópico era assustador e muito real. Outras obras já abordaram temas problemáticos e que de certa forma não eram o nosso presente, mas sim um possível futuro. Black Mirror, Years and Years e tantas que revolucionaram o modo como a televisão entendia e percebia o que acontecia na vida real.
A história conta e reconta todas as vezes que os direitos das mulheres foram suprimidos em tempos de desespero. Existe uma conversa nas rodas feministas que fala sobre isso, quando o mundo se acaba, quando tudo parece desesperador, os primeiros direitos a serem retirados são os das mulheres. É como se a nossa vida valesse menos, as nossas conquistas, os nossos quereres, a nossa existência. E The Handmaid’s foi uma obra que do início ao fim, isso não podemos negar, fez questão de retratar o que acontece quando não somos ouvidas.

A beleza das primeiras temporadas foram de tirar o fôlego, fotografia impecável e atuações reconhecidas no Emmy. Um verdadeiro deleite. Muitas pessoas que conheço deixaram de assistir a série por ser pesada demais, e eu entendo. A gente já sabe o que acontece na nossa vida e às vezes só queremos nos desopilar um pouco e não lidar com tanta tragédia. Acontece que nem conseguimos fugir das ficções, das histórias contadas por grandes roteiristas e criadores. Simplesmente não conseguimos e quando a vida imita a arte isso se torna ainda mais complexo. Ou vice e versa.
De repente notícias de pessoas se fantasiando de Aias se tornaram comuns e do lado de cá, da sanidade, a gente se perguntava, mas por quê essas pessoas fazem isso? Por que tornar jocoso algo que não é nem de longe engraçado? É aquela velha cômica frase: tortura não é entretenimento e definitivamente The Handmaid’s Tale nunca foi um entretenimento. Um alerta, um aviso, um conselho, um desabafo, uma retratação em forma de ficção, de um futuro não tão distópico assim. E após 6 temporadas e 8 anos, chegou a sua conclusão. Ou não.

De antemão já quero dizer que foi um enorme prazer poder acompanhá-los nessa última temporada. Não é só prazeroso escrever, como poder entender as nuances de uma obra tão complexa também é bom demais e fazer isso aqui me deixa muito feliz sempre. Fui feliz nas reviews de This Is Us e não poderia ter sido diferente com The Hands, mas diferentemente da primeira, a series finale da segunda deixou um pouco a desejar, mas vamos por parte que chegaremos lá.
Após um penúltimo episódio quase que apoteótico, a série tinha a missão de finalizar com chave de ouro e de quebra fazer a ponte para o provável spin off. Ocorre que para atingir isso em um episódio, e após passar oito apenas marinando e cozinhando a audiência em banho maria, se tornou muito mais difícil, e provavelmente não teríamos algo que agradasse a todos ou a maioria. The Handmaid’s Tale foi decepcionante, o episódio foi muito aquém do que deveria ter sido e tudo isso por conta de uma obra que ainda há por vir. Tudo estava muito corrido, tive a sensação que a série era algum tipo de quebra cabeça em que teríamos que ir montando e descobrindo qual peça se encaixava no que. Uma verdadeira lástima.
E para mim, houve confusão do início ao fim, desde a redenção e o perdão de Serena como a decisão de escrever um livro com tudo que aconteceu. Veja, a decisão do livro não foi ruim, piegas? Talvez. Mas fez sentido, e o problema para mim é como chegamos ali. A reconstrução emocional foi importante, mas me pareceu avulsa, o acolhimento, as reaproximações, o perdão, me pareceu pautas esquecidas que foram abordadas de última hora. Não sei como vocês se sentiram em relação a isso tudo, mas até o apelo emocional tem seu momento e a única cena que realmente me tocou foi a volta de Emily.

June sempre foi a principal protagonista da Resistência e faz sentido ela também encabeçar obras que retratam tudo que passou, contando não só as suas histórias, como a de outras mulheres que tiveram o passado marcado por violência e lutas. Apesar de ter criado um terreno para The Testaments, tudo que vivenciamos, sobretudo nesta temporada, foi com o objetivo de rever Hannah, e deixar essa grande parte para o spin off, deixar em aberto demais algo que não necessariamente seguirá todos os telespectadores e a audiência da série principal, pode ter sido um tiro no pé. Por outro lado, [e pensar que a relação que a Hannah tem com a June é diferente que Janine tem com Charlotte, então qual liga;’ao Hannah teria com a mãe? Se em todos os momentos que tentou contato com ela foi com estranheza e frieza? Bom, pensando por esse lado, faz sentido contar um livro de modo que essa história chegue até Hannah e aí sim ela se sinta compelida a lutar pelo sistema que a criou praticamente.
Mas mesmo assim, é como se tudo tivesse parecido fácil demais, e há tempos nos sentimos assim. Então, como de repente ficou tão mais fácil Janine ver a filha, o ir e vir entre estados, países até. Mas claro, compreensível diante de tanta instabilidade que assola tanto Gilead quanto outros lugares. Acredito que todas essas situações não terminadas, como a queda de Gilead em definitivo, o encontro com Hannah e outros desfechos menores não aconteceram justamente porque será tema de outra série. Mas o que eu digo é: por que nos enrolar tanto assim? Quem tem paciência para mais uma série que já esgotou o que podia em seis? Entendem o meu ponto?
Apesar de novos personagens e a presença de outros antigos, como Tia Lydia, por que fazer uma nova série quando se era possível eliminar muitas besteiras da que temos e acrescentar talvez uma temporada com os novos acontecimentos. Enfim, capitalismo à parte, o fato é que finalmente chegamos ao fim, quer gostemos ou não a série entregou durante esse tempo reflexões e questionamentos se algum dia venceremos. No mais, resta lutar e sobreviver. Parabéns pela obra, pelas belíssimas primeiras temporadas, por entregar fotografias incríveis, atuações memoráveis e por nos fazer sentir. Acho que de tudo que podemos tirar de The Hands é a inquietação de poder sentir.
Então é isso, meus amores!! Obrigada por tudo e por tanto. Nos vemos por aí, fiquem bem e se cuidem sempre. Cheiro!!!
Blessed be the fruit: Vai acompanhar o spin off? Me conta aí!
Blessed be the fruit: Moira e Luke com o finale que mereciam, prontinhos para morrer em qualquer dia desses lutando hehehe.
Blessed be the fruit: Ao menos Janine teve uma alegria. A bichinha merece.
Blessed be the fruit: Sem comentários para Serena. Sério.






















