Uma outra obra audiovisual disse uma vez que “A noite é mais densa pouco antes de amanhecer”. Estamos vivendo exatamente esse período obscuro, conturbado e frio na série. Mais uma vez June (Elisabeth Moss) foi jogada para baixo, mais uma provação se inflama e desmancha o que OfJoseph conquistou a passos miúdos.

Não há mais aliados poderosos, o regime se intensifica e cada vez mais a crueldade aflora nas pessoas que vivem em Gilead; após a chama de esperança, à repressão ascendeu, como esperado.

Dentro da estrutura da República, Boston é como uma cidade grande do interior, mais relaxada no que condiz ao comportamento das Aias, se não for isso, nada explicaria como June sobrevive, praticamente ilesa, a todos seus impulsos (outras aias já perderam olho, mãos e são silenciadas com anéis de ferro na boca por menos), certo?

Execuções diárias, pelas mãos e pelos olhos D’ele, aterrorizam June, Janine (Madeline Brewer) e companhia; o impulso assassino de sobrevivência que algozes fazem surgir naqueles que oprimem, tornando-os cúmplices nas atrocidades que cometem.

A instabilidade emocional de June após os eventos em Washington e suas tentativas desesperadas de ver Hannah, para ter algum conforto e manter a sanidade, se manter de pé, após ser traída por quem tanto confiou conduzem a planos mirabolantes, onde ela acha que usando x ou y e com a ajuda de gente do baixo clero ela conseguiria realmente tocar na filha. A falha óbvia aí é pensar que ninguém a observaria e, nesse episódio, vimos a mesma June da season 2. Essa gangorra dos personagens se explica pelo emocional quebrado? Sim, mas, de verdade, é apenas enfadonho para a audiência e uma preparação de terreno para um episódio focado em Tia Lydia (Ann Dowd).

Toda fúria reprimida e a consciência de que as pessoas a ouvem estão tornando June um tanto egocêntrica e colocando-a em lugares escuros, apesar de toda a empatia que sente com os inocentes e a sensibilidade que tem com quem sofre, o roteiro leva a aia na direção mais óbvia: para derrubar um regime, você precisa ser como as pessoas do regime, usando todos os artifícios necessários.

Enquanto June chafurda na lama e vê suas saídas sendo fechadas, uma a uma, Serena (Yvonne Strahovski) se encontra numa novela de Walcyr Carrasco ambientada nos anos 1940. O baile, o recomeço, a tentativa de se reconstruir e se deixar ser iludida por um sistema que já a quebrou, pouco tempo antes a mantém num círculo que, aparentemente, ela não deseja quebrar.

As cenas do baile em Washington, as unidades de cor das esposas e suas conversas saidinhas são, de fato, um avanço do que ela conhecera como sociedade em Boston e conversam, muito, com o retrato da feminilidade dos anos 1940 e sua liberdade condicionada, afinal, “os homens desejam alguém que lhe afague o ego enquanto você aproveita a vida de outras formas“.

Talvez Serena veja uma oportunidade real de ser feliz ali, se deixando iludir, mas sem perder a inteligência e perspicácia características, como bem deixa claro à Fred (Joseph Finnes) no jantar. O que me faz questionar essa passividade é saber o quão cerebral e emocional ela é, afinal, desde a temporada passada, a personagem vem se mostrando 2 ou 3 passos à frente do marido e de seus algozes; mais uma vez posso bater na tecla de que ela pode estar tentando implodir o sistema, afinal, narrativamente, não faz sentido você avançar um personagem e retrocede-lo. assim como feito (porém justificado) com June na temporada passada.

As esposas da Capital também levantam o questionamento: se Serena tivesse tentado levar a leitura de volta às regras ali, em Washington, aquelas mulheres teriam se mantido de pé ao seu lado?

Por fim, tivemos a discussão válida levantada mais cedo no review: as coisas que fazemos para sobreviver. Emily (Alexis Bledel) e Moira (Samira Wiley) são a ótica principal, lutando por Nichole no Canadá e com uma espada pendendo sobre suas cabeças, na ameaça de enfrentar os crimes que cometeram dentro de Gilead para sobreviver e fugir, sendo deportadas para a soberania vizinha. As questões diplomáticas, por mais incômodas que seja, são retratadas com verossimilhança ímpar, afinal, vamos comparar o Oriente Médio nos anos 1950 e agora e ver que, nós, Ocidentais, fazemos um total de nada para tentar mudar a situação das pessoas que vivem ali. Nenhum país declararia guerra contra outra nação por puro altruísmo, manter o poder de quem está no comando e boas relações exteriores em detrimento ao povo é, definitivamente, a prioridade.

Não vou chover no molhado, como já dito nas reviews anteriores, de falar do design de produção ou fotografia da série, isso tudo é impecável, mas a série não se sustentará mais por muito tempo com belas imagens.

> 4 SÉRIES de Humor Mórbido NETFLIX!

O cansaço de The Handmaid’s Tale é notável e os desvios para a ótica dos coadjuvantes, apesar de interessantes, agregam muito pouco ao plot principal, o que se pode fazer é aguardar o resultado final que se aproxima e que, talvez, apenas talvez, justifique a lentidão da narrativa e a demora para a verdadeira revolução.

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anterior4 Séries de Humor Mórbido Netflix!
Próximo artigoDepois de enorme sucesso, Rede Globo pensa em mais uma temporada para ‘Sob Pressão’
the-handmaids-tale-3x07-under-his-eyeO cansaço de The Handmaid’s Tale é notável e os desvios para a ótica dos coadjuvantes, apesar de interessantes, agregam muito pouco ao plot principal, o que se pode fazer é aguardar o resultado final que se aproxima e que, talvez, apenas talvez, justifique a lentidão da narrativa e a demora para a verdadeira revolução.