A crueza emocional com a qual os produtores de The Handmaid’s Tale levam a série já é conhecida, no ano passado, inclusive, rendeu críticas à produção por tornar a série um torture porn sem sentido, segundo palavras de parte da audiência. A repressão excessiva, a narrativa cíclica e a visão (maçante) de June fizeram a narrativa perder força aos olhos do público. Felizmente, essa terceira parte da história de Offred parece ter finalmente ouvido os clamores de que a protagonista precisava revidar, e ela revidou!
A decisão de narrar os três primeiros episódios como uma premiere foi uma excelente jogada da produção para evitar barrigas e rodeios: temos várias visões, temos acontecimentos antológicos e temos a explicação imediata da decisão de June (Elisabeth Moss). A agilidade em colocar a protagonista, finalmente, sem vacilar diante de suas decisões, sabendo os papéis que precisa tomar, a euforia em quase conseguir vencer aquele sistema e ao mesmo tempo se sentir presa a ele são bem claras. Como é bom finalmente respirarmos junto aos personagens, vê-los agir sem toda a pompa, etiqueta e aquela coisa sombria e sinuosa que permeou os momentos mais dramáticos do show; parece que, nesse terceiro ano, temos as realidades cruas jogadas na nossa cara pois todos estão exaustos do que se tornaram, do que o regime dentro de Gilead existe.
Serena (Yvonne Strahovski), em seu momento mais baixo, fragilizada e destruída, parece repensar quem é e o que fez. Em seus momentos passados vimos o quão emocional ela é e as consequências que isso trouxe à ela. A perda do dedo não foi nada diante da destruição emocional que deixar a pequena Nicohle ir lhe causou. O impacto ao ver June de volta ao que eles chamavam de lar, sem sua menininha, é mais uma facada em sua mente já em frangalhos… É interessante notarmos, nesse grande episódio, que é o momento de catarse de Serena, o quanto ela toma ciência que tudo o que sofre agora é fruto do que cometeu antes. Ela não tem mais nada, ela não é ninguém ali dentro daquela sociedade que ajudou a construir e foi linha de frente, para depois ser deixada de lado assim que os Filhos de Jacó ascenderam ao poder; o bebê a quem ela se apegou e amou por pouco tempo lhe foi tirada pela mãe biológica e única pessoa em quem, de certa forma, ela confiou dentro de Gilead.
A mulher avassaladora e mimada que Serena era já não pode existir dentro dos muros do que um dia foi a América, como bem pontuado pela mãe da personagem (vivida pela atriz Laila Robins) e por Fred (Joseph Finnes). Por falar em Fred, o poder do qual dispunha não passou ileso às autoridades de seu país: foi rebaixado, perdeu a filha, a esposa, a aia, a casa e tem que ficar calado; sua fraqueza emocional, tão pontuada anteriormente, finalmente é visível em tela. Fred está perdido, não só seu poder foi-lhe tirado, sua confiança desmoronou na mesma proporção. Não acredito que haja redenção para as atrocidades cometidas, porém, talvez, vejamos outras facetas de alguém que se embriagou com poder e agora está sóbrio a força.
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Vistos os protagonistas, começamos a nos voltar para outras visões, ainda mais interessantes que a de June, dentro e fora de Gilead:
Emily (Alexis Bledel) conseguiu chegar ao Canadá com Nicohle, mas isso não significa que Gilead saiu dela. Seus primeiros momentos, seus olhos assustados e atormentados, como um animal ferido, incapaz de acreditar novamente na humanidade e na bondade de alguém são um lembrete claro de todas as tragédias que vivemos nos últimos cem anos: é o mesmo olhar que vítimas do holocausto tinham ao fim da guerra, a mesma expressão corporal que pessoal famintas e brutalizadas em um continente inteiro mostram cotidianamente. Ela não sabe mais quem é, não acredita mais no que pode ou não ser, afinal, tudo o que Emily fora antes de Gilead foi apagado por 5 anos e, estranhamente, a gente percebe que se acostuma com as circunstâncias, por mais desgraçadas que elas sejam. A refugiada, inclusive, acaba sendo usada como válvula de escape e solução para o ‘sequestro’ da bebê, logo, o roteiro trabalha em seu próprio favor.
Quem possibilitou a liberdade de Emily e Nicohle foi Joseph Lawrence (Bradley Whitford) e assim chegamos a maior incógnita dessa série. Com os arranjos necessários June vai parar em suas mãos. Hostilizada, testada, tratada com desprezo e com liberdade assistida nas mãos do arquiteto da economia de Gilead, a – agora – OfJoseph se vê obrigada a tomar decisões que podem destruí-la e inicia sua jornada para entender o frágil equilíbrio que constitui a construção de uma sociedade. Comandante Lawrence fora para os fiéis de Gilead, antes de sua existência, o que Olavo de Carvalho é para parte da nossa sociedade: um guru, filósofo e guia de ideais. Anteriormente pensáramos que Serena fora a arquiteta desse universo, para, agora, nos depararmos com a verdadeira narrativa: ela fora usada como frente para que ideais misóginos de um homem fossem implementados. Por mais que os dois nunca tenham contracenado, é interessante notar o quão próximas são suas narrativas. Outro aspecto interessante sobre a nova moradia de June é sobre a esposa do Comandante: ainda não está muito claro, entretanto, sua alternância entre momentos de puro sofrimento e auto-brutalização com a plena lucidez vista na premiere podem diagnosticar algo entre a esquizofrenia e o Alzheimer, talvez pendendo mais para o segundo (o que nos traria uma narrativa interessante, afinal, o que a sociedade como Gilead e seus líderes fariam com uma mulher sofrendo de um mal incurável?).
Tia Lydia (Ann Dowd) também voltou, praticamente do túmulo, com mais sangue nos olhos que nunca. Seu claro ódio pelo que lhe aconteceu, por ter falhado em proteger uma criança lhe conferem uma trama que, se bem trabalhada, pode render excelente momentos e reviravoltas para o show como um todo; podemos notar também que, apesar de amar Gilead, a chefe das Tias não é cega e muito menos ingênua: ela sabe que precisa ter serventia dentro do regime imposto, logo, precisa, o mais rápido possível, retornar a sua tarefas, e ela o faz, mesmo com dores, mesmo com sofrimento visível, ela se coloca novamente no papel de carrasca, chegando ao limite.
O interessante da nova dinâmica do show é notar que Gilead, de alguma forma, está implodindo. Cada pessoa ali dentro está em seu limite, se segurando, buscando uma salvação que sabem que não virá, uma salvação que depende deles mas que, em grande parte, talvez não tenha coragem de se colocar na linha de frente. Isso te lembra o universo fora da série de alguma forma, caro leitor?
Falar sobre aspectos técnicos é chover no molhado: direção e atuação estão em seu melhor nível desde a estréia do show, o roteiro, graças aos ajustes da produção, finalmente pareceu andar e empolgar. A fotografia talvez seja o mais impressionante deles, chegando ao status de falar por si só a todo momento (que, na realidade, é a função real dentro de uma narrativa audiovisual), podendo ser pausada e apreciada como um quadro por sua riqueza de detalhes e subjetividade linguística.
> A MITOLOGIA SECRETA DE DARK!
Com muito o que digerir e caminhos que se separam, The Handmaid’s Tale retorna mostrando o motivo de ser um show considerado um divisor de águas na televisão mundial, proporcionando novas visões, desafios e ampliando ainda mais o fascínio (e desprezo) que fomentamos por Gilead desde 2017.
FORA DOS MUROS:
– Tivemos Luke e Moira em sua vida cotidiana, se adaptando com Nicohle, sem muito aprofundamento, mas deixando claro que o amor por June é tão maior que eles são capazes de fazer qualquer coisa por ela.
– June entendeu, finalmente, o quão persuasiva pode ser e que ela pode sim, com aliados, destruir aquilo por dentro. A ferocidade do instinto materno dentro dela também é outro ponto louvável.
– Nick apareceu e já foi embora, ganhou status de Comandante por seus serviços e só.
– Whitford, de dentro de sua grande interrogação, trouxe uma crítica direta e massiva à política de repressão à imigração norte-americana. As pessoas nas gaiolas, desesperadas, sendo mandadas para as Colônias com menos de 1% tendo a possibilidade de ser salva é uma analogia muito forte e clara.






















