Mulher. Aia. Martha. Mãe. Filha. Namorada. Rainha. Vadia. Criminosa. Pecadora. Herege. Prisioneira. Todos os adjetivos cunhados por June no início desse episódio se referem a uma mulher na série. Todos esses adjetivos se referem aos momentos da própria June ao longo dessa jornada que foi a segunda temporada de The Handmaid’s Tale.

A mensagem do episódio final dessa segunda temporada da série não poderia ser mais clara aos olhos do espectador: tudo o que fazemos dentro dessa sociedade é instintivo e pulsante na jornada por sobrevivência. As decisões tomadas ali são tão cruéis, são condenáveis, mas faço um apelo a você, caro espectador, para que se coloque no lugar de cada um ali e se pergunte quem você gostaria de ser dentro dessa sociedade, incluindo todas as opressivas decisões que vem junto à essa decisão. Eu sei, é difícil se colocar na perspectiva dos outros quando temos nossos credos e crenças… Esse exercício de se colocar e pensar no que faria estando naquela situação não apenas é interessante, como é necessário, inclusive no nosso cotidiano, na nossa sociedade.

Tivemos um episódio em que tudo foi entregue, onde a tensão estava em níveis tão alarmantes e decisivos que qualquer passo incalculado poderia colocar tudo a perder. A June que nasceu e renasceu diversas vezes ao longo dessa temporada não pode mais esperar, o impacto que a morte de Éden causou naquelas pessoas é pulsante na mente de cada um, na mente de cada mulher. Éden foi resiliente em sua escolha, em resistir a se declarar culpada por apenas seguir aquilo que aprendeu com os ensinamentos que lhe foram passados verbalmente. Éden era apenas uma criança iletrada que entendeu e interpretou a sua maneira o que lhe foi contado e foi a centelha necessária para que a ignição viesse de vez.

A alarmante urgência no tom das esposas, os sussurros das Marthas por entre os muros onde os traidores são enforcados e seus olhares para a Aia, aquela Aia que fugiu diversas vezes, a Aia de Waterford que teve um filho sozinho numa casa no meio do nada, a Aia que ousou desafiar o Comandante no cargo mais alto de poder dentro daquele distrito, o que senta no trono ornamentado e centralizado… Se aquela Aia fez tudo isso, se a jovem de 15 anos fez sua escolha e morreu por seus ideais sem nem piscar, porque não nós, cada um de nós pode fazer alguma coisa?

A união das esposas, a massa verde finalmente chegando à conclusão de que Gilead deu errado e que a necessidade de mudança é urgente trazem a expectativa da insurgência. Serena, o arauto dessa sociedade, a mulher que construiu e fez de tudo para que aquilo se concretizasse, fez tudo e perdeu tudo em nome de seu maior desejo é a voz e paga o preço. O que importa aqui é o poder, o status, e a sugestão de qualquer coisa que ameace a soberania dos homens no controle, em sua cega fidelidade à virilidade e deturpação de escrituras que dizem seguir tem caráter punitivo. Como mencionei no review anterior, esse é um mundo de homens que sabem que não seriam nada sem as mulheres por trás, lhe dando resguardo.

A inteligência das esposas fica clara demais todo momento, na verdade, a inteligência dessas mulheres subjugadas e colocadas umas contras as outras numa falsa divisão de classes é o ponto alto do episódio, os perigos e monstros a solta dentro daquele lugar infestado de hipocrisia são seus companheiros de quarto, no final das contas.

Não sei ao certo o número de mulheres dentro de Gilead, mas a punição de Serena ao ler a escritura, a palavra, a pedra que calca todos os ensinamentos dessa República de Porcos é um aviso claro. As punições são todas às mulheres, pois elas são apenas exemplos e objetos. O sorriso de Fred ao ver sua esposa ser arrastada, mesmo que pequeno, singelo, diz muito que o verdadeiro amor dele é a manutenção de seus privilégios. Como ele bem exalta a si mesmo para June, que ele pode tudo, que ele pode arranjar tudo. A corrupção se faz presente, pois o ser humano é corrupção e a inerência disso é uma sociedade desnivelada de poucos com muito e muitos com nada.

A união daquelas que são meros objetos, que espreitam é o que inicia a explosão. O fogo presente dentro de cada mulher naquele lugar é capaz de implodir qualquer sistema, e os muros talvez não tenham espaço para tantas pessoas que superem em números o gênero oposto. Dizer que apenas mulheres estão insatisfeitas com o Regime é errado, afinal, o caráter de alguns se sobrepõe a seus privilégios. Emily agora sabe disso, mesmo após as medidas extremas que tomou e derrubou um importante bispo dentro de Gilead, de ver ao ponto de chegou em seu ódio, de se perder e se encontrar em meio a dor, ela viu que o preto e o branco formam o cinza, e que essa escala de cinza é o que pode levantar as bandeiras necessárias.

Foi o cinza que levou June até seu ponto de fuga, foi o cinza que conspirou e, literalmente, colocou Gilead em chamas, foi o cinza das Marthas que implodiu a perfeição, inspiradas pelo opressivo vermelho daquelas que ainda são capazes de sangrar e biologicamente se veem separadas e destacadas.

A pequena Nichole agora tem uma chance graças a suas duas mães, que a amam em desespero e sabem quão suprimida aquela criança seria. A união, mesmo que momentânea em prol daquelas crianças, daquele ser tão indefeso que não poderia, de maneira alguma, crescer na ignorância de um lugar onde jamais seria plenamente valorizada. A virilidade é mais importante, por mais que a feminilidade seja essencial na concepção e, caso o primeiro não seja aquele que venha a surgir, o segundo apenas entrará estatisticamente para um todo.

A única recompensa dentro de toda a narrativa é para quem insurgiu primeiro, para quem acendeu o primeiro fósforo e se viu, finalmente, no ponto fora da curva.

Quais as consequências desse fogo vivo que corrói as entranhas dos seres que habita o pesadelo que se tornou a América, o país da liberdade? Apenas o futuro pode responder, mas, por hora, o espectro de cores que compõe a paleta da rebelião ganhou mais algumas cores além do rubro.

Cinza. Marrom. Ciano. Vermelho.

Marthas. Tias. Esposas. Aias.

Rita. Lydia. Serena. June e Emily.

Mulheres.

P.S.: Obrigado a todos por acompanharem The Handmaid’s Tale aqui pelo SM por todo esse tempo, mesmo com todos os desvios de percurso chegamos a tempo desse bombástico final. Sim, eu sei que os atrasos foram maiores do que o previsto e que a desistência parecia uma realidade, mas, não, problemas surgem e o dia a dia nem sempre é fácil e quero me desculpar com cada um que aguardou e perguntou sobre onde se encontravam o review.

Nos vemos em Abril do ano que vem com o desenrolar dos acontecimentos catárticos desse season finale e espero, de verdade, que a insurgência comece sem mais delongas ou desvios.

P.S.2: Esse não é o último review do ano sobre The Handmaid’s Tale, achei necessário falar um pouco mais sobre a trama geral da série e como o desenvolvimento narrativo da temporada foi impactado pelo desenvolvimento da narrativa dos episódios e como acabaram não se conversando, mas isso, só semana que vem.

P.S.3.: Me sigam nas Redes Sociais, vira e mexe posto textinhos ou comentários acerca de diversas séries e filmes, só procurar @odenislira em todos os lugares.

> Minha Série Vs. Sua Série #8 feat Maicon Santini!

Beijo pra todo mundo e Blessed Be The Fruit!

REVISÃO GERAL
Nota:
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