Nem toda bomba tem fumaça e fogo!
O nono episódio de The Handmaid’s Tale nos trouxe, finalmente, um vislumbre da visão externa que as pessoas têm de Gilead. Faltando apenas 5 episódios para o fim da temporada, essa expansão narrativa vem em boa hora, principalmente após os eventos cataclísmicos de Woman’s Work.
Falando no episódio oito, tivemos a direta continuação dos acontecimentos passados, com uma June mal humorada e pensando como seria sua avaliação da hospedagem dos Waterford em casos de AirBnb. Esses toques de humor involuntário trazem uma leveza, ainda de momentânea para toda a opressão que a série faz questão de impregnar em cada novo corte.
Serena está ressentida pela surra que levou após tomar decisões por ela mesma após anos vivendo sob as asas de Fred. É interessante notar o psicológico completamente destruído da personagem após esse tempo em Gilead, em como ela está presa naquelas condições aparentemente sem uma saída viável. Ela se encolhe quando Fred chega perto dela; ela se recente de June, mesmo que de forma irracional (e ela sabe que é irracional), pelo acontecido, por ser a testemunha de sua humilhação. Fred queria o mundo, Serena o deu para ele e agora ela é refém de um sistema que idealizou, mas que ao sair do papel não foi exatamente o planejado.
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O Canadá quer entender como funciona a República de Gilead, essa abertura para negociações externas se dá num momento crucial de recuperação após o ataque terrorista sofrido, o que põe em cheque as intenções da explosão e quem de fato a planejou. Fred ganhou muito com a bomba: não morreu, mesmo a explosão tendo ocorrido a poucos metros dele, subiu na hierarquia, tanto pelo filho que June está gerando quanto pelas relações exteriores darem certo e, finalmente, por ‘manter a ordem’ e ‘capturar o culpado pelo ataque mesmo no hospital. No fim das contas a eliminação dos comandantes se mostrou bastante eficaz, afinal, Comandante Pryce, que tanto estava de olho em Waterford, saiu de cena com a explosão.
Sair de dentro dessa realidade opressiva que é Gilead e ver um pouco de normalidade, um pouco de mundo real, nos traz de volta ao contraste e a verdade: isso está acontecendo agora! A reflexão que fica é sobre a necessidade compulsória que alas da nossa sociedade tem em ser ‘conservadoras’ quando lhes convém, quando lhes garantem privilégios acima da subalternização de outras pessoas.
A melhor cena do episódio, como ocorre com frequência em The Handmaid’s Tale, não tem uma única palavra. Os olhos falam muito. Os olhos de Ivonne Strahovski falam mais ainda. Ela, de fato, é o nome da temporada, todo seu arco e as camadas de construção de uma personagem tão amavelmente odiosa como Serena invocam tudo o que sentimos ao vê-la até então. O sorriso frouxo nos lábios, os olhos relembrando como era bom ter uma vida comum, num lugar comum, como era dar um beijo apaixonado na rua, a simplicidade de andar com as roupas que queria… As pequenas coisas são as que fazem mais falta.
A recepção aos ‘Gileadianos’ é morna por parte dos Cônsules canadenses, principalmente a debochada anfitriã que acompanha Serena em suas atividades. A forma como, clara e sutilmente, a mulher deixa clara a repulsa que sente pelo lugar que Serena ajudou a fundar é de se espantar por sua concepção. O diálogo entre as duas, contando suas vidas, guardando a ferocidade para as palavras e não para as ações, deixando claro que apenas uma delas tem a verdadeira liberdade (como não sentir o aperto na garganta ao ver o cronograma de Serena composto somente por imagens?) e que as condições impostas por um regime altamente totalitário é malvisto por todos, que a pária ali é ela, são de um primor indescritível.
O Canadá deu o seu recado: Serena não é nada ali assim como não é nada em Gilead.
Em contraponto a isso tivemos, finalmente a esperada reação: Luke e Moira acompanham no noticiário a chegada e recepção, com acalorados protestos, dos Waterford. Moira logo identifica aquele homem. Moira vai atrás de justiça com a embaixadora dos refugiados, porém, sem sucesso: aquelas pessoas estão ali sob proteção da Soberania de Gilead no Canadá, quaisquer ataques que os mesmos sofram é uma declaração de guerra.
Luke, ao se ver diante do homem que repetidamente estupra e mantém sua esposa em cárcere perde o controle e é contido por policiais. O conflito é tão caótico, intenso e realista ao mostrar a fragilidade e a ferocidade com as quais nos encontramos ao nos ver em situação de impotência que, finalmente, conseguimos colocar no espectro a passividade do personagem mostrada tantas vezes: ele não tem o que fazer, ele não tem poder, ele não tem oportunidade, se entrar e tentar pode ser morto e a melhor chance que apareceu a ele foi o confronto direto, assim como cabe a todos nós quando lutamos contra algo muito maior, como um governo ou empresa. O. T. Fagbenle se mostra excepcional na cena assim como é normal do elenco, reagindo ao menor movimento cínico de Joseph Finnes em cena. Vemos também a reação de Serena e, mais uma vez, a realidade é explicitada de forma dolorosa em seus olhos: June tem uma família, assim como ela e o cárcere privado em que ela mantém aquela mulher após um rapto destroçou o homem que tenta, inutilmente, atacar o monstro com o qual ela convive e que ajudou a criar.
Em paralelo a isso vemos June, em Gilead, pensando numa forma de salvar aquele bebe. Finalmente ela tem um pouco de liberdade condicional dentro do mausoléu dos Waterford e, na primeira oportunidade procura criar laços e alianças para que aquela criança não sofra ao nascer, mesmo que longe dela. O instinto materno é tão forte que, mesmo sabendo que será obrigada a abandonar o bebê após seu nascimento alguém tem que protege-lo. Sua interação com Rita, uma relação que começou conturbada, mostra o quão as duas estão fartas e que a submissão se dá simplesmente pela sobrevivência. Rita (Amanda Brugel) não hesita em consentir em ser madrinha do bebê numa cena altamente emocional, afinal, ela será a única âncora moral daquela criança dentro da casa quando June partir. Essa solidariedade e união das duas diante de tudo o que já passaram toca pela simplicidade e força.
June, porém, sabe que uma Martha tem poderes limitados dentro daquela sociedade e que Serena é um tanto doentia e possessiva, logo, ela recorre a quem, de fato, acredita em tudo o que prega: Tia Lydia. Pesando cada palavra, casa gesto, nossa Aia implora para que a criança seja bem cuidada e que, aquela mulher ali, que tanto a tentou proteger das formas mais confusas e controversas possíveis faça o mesmo pela criança, deixando no ar que teme pela segurança do filho.
É muito perspicaz por parte dos roteiristas explicitar o quão emocionalmente quebrada está June mas que, mesmo assim, ela encontra formas de subverter o sistema, tentando manter-se no controle de alguma coisa. June não cede, nunca, por mais quebrada que ela fique.
E eis que chegamos a bomba do episódio: Nick encontra Luke (de forma meio inexplicável, diga-se de passagem, afinal, eles estão numa metrópole e não numa vila) e, mesmo após toda a hostilidade causada pela raiva e pelo álcool, entrega à ele as cartas do Mayday.
A escolha da produção em mostrar que informação é tão eficaz quanto fogo, que um sistema frágil pode ser destruído se inflamado com o conteúdo certo reflete muito da nossa realidade e nosso cotidiano. Palavras são poderosas e a proibição de que as mulheres escrevam, foi a ruína de todo um sistema e de avanços lentos e estratégicos. Subjugam a mulheres, mas as mulheres, mais uma vez, frustraram as investidas e avanços daqueles que as destruíram.
Uma fagulha pode causar uma reação em cadeia e destruir qualquer avanço que venha a ser conquistado, portanto, todo cuidado é essencial.
Por fim, a antológica cena da velha Jezebel Ruby esfregando na cara de Fred que fugiu, que está bem e que vai fazer de tudo para denunciá-lo além de, é claro, revelar seu verdadeiro nome traz a satisfação que tanto buscávamos a tanto tempo.
A pergunta que fica agora é: como ficará a situação de June após esse colapso e falha miserável na missão diplomática dos Waterford?
NOS MUROS DE GILEAD:
I – Serena viu sua chance de ter um filho só dela, de deixar os abusos de Fred, de deixar Gilead para trás. Ver o quão inteligente e interessante essa mulher é, sua perspicácia ao notar as intenções do editor a coloca num patamar tão acima de Fred que chega a incomodar vê-la submissa.
II – Descobrimos que os Estados Unidos da América ainda existem, mesmo após os atentados e a perda de boa parte de seu território. Seria interessante se a produção liberasse um mapa com as informações sobre as divisões e extensão de Gilead.
III – Então quer dizer que Boston é apenas um distrito de Gilead, dona Serena? Quando ela diz à June que a mandará para outra localidade fica claro que temos mais locais além das Colônias e de onde tudo se passa. Qual seria a realidade desses locais?
IV – Após toda a frustração e de ser rebaixada quase a um verme no Canadá, Serena joga fora a chance de ser uma pessoa livre novamente. Seus motivos ficam implícitos, entretanto, acredito que possa ter a ver com essa reação à divulgação das cartas das Aias e Marthas. Ela é uma pessoa marcada, para sempre, e tudo isso a perseguirá a vida inteira. Jogar aquela caixa de fósforos no fogo é emblemático ao vê-la escolher abraças sua frustrante vida.
V – Não tenho ideia de quem seja o Mayday, mas Nick é um dos melhores generais dessa resistência.















