A monstruosidade e a arrogância em sua forma mais pura se fazem presentes em The Handmaid’s Tale.
Esse décimo episódio foi difícil de engolir, eu confesso. Tentar separar minha ética e meus valores em detrimento ao apresentado está cada vez mais difícil. Como bom série maníaco que sou, sempre procuro me envolver emocionalmente com o que vejo e trazer aquela realidade e os ensinamentos nela contidos de alguma forma para meu cotidiano. Com esse sistema opressivo de Gilead não foi diferente, entretanto, ao fazer um review sobre qualquer obra que acompanho, procuro deixar todo meu emocional de lado, procuro ter uma visão o mais externa possível da obra para entender, de todos os ângulos, quais deuses e monstros regem e surgem em cada recanto do que foi criado nas mentes criativas para nos cativar ou horrorizar e, nesse caso, Bruno Miller juntamente com Yahlin Chang chegaram ao ápice.
The Last Ceremony é cruel, e cerimonial (como divulga o título), em diversas passagens. Traz pontos finais para ganchos soltos a tempos e trata de fechar ciclos que parecem intermináveis, mas que dentro da jornada dessas mulheres faz com que elas percebam que não são mais as mesmas pessoas de semanas antes.
O início tem foco em Emily em seu novo lar, seu destempero bem claro, sua indignação e nojo mudos tão bem representados pelos olhos de Alexis Bledel que gritam em total desespero e repugnância por ser um mero objeto naquele ambiente. Essa é sua última cerimônia, seu Comandante cai aos seus pés por um mal súbito assim que chega ao ápice e vemos então a faceta da mulher que envenenou uma esposa sem nenhuma piedade mais uma vez. Emily é a voz e a representação do público que assiste a série, tendo seu breve momento de vingança, o prazer lhe tolhendo a passividade; os chutes de Emily num ‘cachorro morto’ são aquilo que podemos fazer nesse momento, pois lutar não é uma opção.
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Interessante notar o arco da antiga Ofglen ao longo dessas duas temporadas: de esperançosa na rebeldia à mutilada que viu um pouco de bondade na casa do Comandante Steven, para em seguida cometer um atentado contra a soberania de Gilead e ser mandada para o local mais temido dessa ditadura, falhando na tão almejada morte e em seguida voltar ao antigo posto, mudada, fortalecida, talvez infértil e ser estuprada repetidamente.
Por mais que o off que acompanha a cena nos diga que é um trabalho sem prazer, que basta desligar a mente, há um limite que se pode aguentar e esse limite chegou.
A catarse que se abateu sobre a frutífera viagem dos Waterford ao Canadá e se fez desastrosa em seguida com a divulgação das ‘cartas de ninguém’ não foram abordadas como imaginávamos, há assuntos mais urgentes com o início das contrações de June e um bebê e caminho. Tudo é preparado e não deixa de causar estranhamento essa necessidade quase patológica que uma sociedade teocrática tem em rituais; vimos isso no chá de bebê mais macabro de todos os tempos, vemos isso agora, com Serena embarcando na loucura daquilo e respirando como se estivesse em plenas contrações. O que ninguém esperava, nem mesmo June em seus sonhos mais petulantes, é que aquela não fosse definitivamente a hora e que tudo não passasse das boas e velhas Braxton Hicks e um cérvix completamente fechado para a passagem.
A breve vitória da Aia se deu em um momento em que os ânimos não eram dos melhores e nesses momentos os monstros à espeita saem para caçar.
Serena teve tudo nos últimos episódios: momentos dramáticos, tempo de tela, crises de consciência e moralidade, instantes de questionamento e até mesmo, porque não, uma afeição á subversão que estava cometendo. Quando dizem que basta dividir para conquistar temos o exemplo cristalino na própria série: Serena se fechou novamente em sua redoma de ódio, dor e constrangimento; sua hostilização no Canadá piorou ainda mais a já instável Sra. Waterford e, por mais que nada justifique, por mais que o ato e a ideia impensáveis tenha partido do casal, a decisão final foi dela.
O ritualismo justifica aquilo, na mente dela. É um meio para chegar a um fim, na mente dela. Tudo será perdoado, pois ela está cumprindo seu papel designado pelo Salvador ao ajudar a povoar o mundo, lhe garantem as escrituras onde estão Raquel e Leah! O simbolismo religioso presente na série traz, mais uma vez, o extremismo e seus malefícios. A deturpação do guia moral de cada uma.
Serena tenta convencer June antes de Fred entrar, pede apenas que ela ceda e que tudo terá um fim logo, quase num tom se súplica e ao ver a recusa toma a decisão que irá atormentá-la para sempre: segura a Aia enquanto Fred faz a parte que lhe cabe.
Estuprar uma mulher grávida pode parecer extremo e gratuito, mas analisando tudo o que vimos de Gilead, onde mulheres são tratadas como mercadorias e tem menos valor que cavalos, sendo mandadas para a morte certa nas Colônias, é realmente gratuito ou faz parte da manutenção daquele sistema?
A cena é longa, é forte, e foi tratada de maneira magistral pelo envolvidos, não romantizando momento algum, o uso do silêncio propagando as súplicas de June e os grunhidos de prazer de Fred enquanto os olhos de Serena vão marejando, a mulher se dando conta do que realmente fez, do quão longe foi capaz de chegar por um objetivo que é tudo o que ela tem após perder sua liberdade, seu direito a fala e até mesmo o marido. A obsessão e a necessidade de Fred por June são claras no contexto, ele é o único que se delicia com o processo, tirando prazer do ato mais brutal que um homem pode cometer a uma mulher e tirar sua dignidade completamente. Serena e suas lágrimas, sua breve ânsia de vômito e seu visível nojo por tudo aquilo mostram o quão presa ela está sem saber ao que é. E June, em mais um momento magistral de Elisabeth Moss, permanece estática, em completo choque, percebendo que nem mesmo a criança que ela carrega é mais uma garantia de segurança.
Como todo abusador que se preze tem a recompensa após o ato. Relatos de mulheres abusadas (física e psicologicamente) sempre apontam para um lugar comum: após cometer atos monstruosos, seus abusadores as presenteiam, buscando uma forma de se reaproximar, de premiá-la por ser uma boa garota… Essa é a exata postura de Fred após a atrocidade, dando ordens restritas e diretas a Nick.
Todo o caminho é permeado pela tensão dos amantes. O Olho preocupado e abalado pela percepção de que é apenas um momento breve na vida da Aia, mesmo que ele esteja ali no dia a dia, Nick sabe que é apenas uma válvula de escape. Já June está em completa catatonia ainda, suas reações com atraso de percepção e resposta.
Seu momento de recompensa se dá finalmente, após tudo o que ela suportou e suas suplicas, finalmente Hanna se remonta diante de seus olhos, com um novo nome, novas roupas, maior, mas com todas as memórias intactas. Essa última cerimônia entre mãe e filha, com dez minutos quase que cronometrados é tão violenta quanto o ato anterior. Como resumir e explicar de alguma forma o que ocorreu nos últimos anos para uma criança? Como se despedir de forma unilateral de alguém que foi envenenado contra você? As perguntas se acumularam nesses anos enquanto ela se acostumava a novas pessoas… June sabe disso tudo. June luta com unhas e dentes para reaver, nesses últimos minutos, o afeto e o amor que ela sabe estar ali e esse, apesar de tudo, é o momento em que tudo parece se desdobrar de forma irremediável em direção a um acontecimento maior do que pode ser The Handmaid’s Tale.
O desespero está ali, o ponto final está ali, mas todo ponto final é um novo ciclo se iniciando.
NOS MUROS DE GILEAD:
I – Jeremy Podeswa é indiscutivelmente um monstro da direção! Tudo está perfeitamente encaixado no episódio de forma orgânica e ele tem um poder de arrancar atuações viscerais de seus elencos. Sua câmera é esperta em trabalhar em blocos conforme a narrativa e fala muito sem nada dizer. O posicionamento opressor do ploongée nos primeiros 40 minutos de episódio, espreitando e colocando June como um mero pedaço de carne na cena mais destrutiva do episódio contrapõe de forma magnifica com as câmeras trabalhadas em contra plano e na abertura dos ângulos e movimento quando ela está com Hannah. Temos aqui um olhar na altura dos olhos, temos a imensidão do ambiente e a pequinês da personagem, temos a imensidão de June mesmo após tudo o que passou e passar em colocar sua filha em primeiro lugar em prol de sua segurança e sua promessa.
II – A pequena Jordana Blake segurou a bronca da cena mais emocional da série com Elisabeth Moss e deu um show nos últimos minutos, com uma entrega pouco vista por atores mirins.
III – O gancho que Nick sendo levado por estar num lugar onde não deveria, com uma pessoa que não deveria vai se reverter contra ele, afinal de contas e será o troco de Fred?
IV – June, porque caralhos você não denunciou os Waterford pra Tia Lydia, meu anjo? Você sabe bem o que acontece com estupradores me Gilead, mesmo que eles sejam do mais alto escalão do governo!
V – Janine, o bolinho, está viva e bem após tudo o que aconteceu e Charlotte melhorar sob seus cuidados e contato.















