Uma temporada que realmente andou em círculos.
Finalmente estamos aqui para concluir nossa saga de The Circle Brasil, e é importante começar ressaltando que a frase acima não é necessariamente uma crítica negativa, mas sim uma constatação sobre a qual nos debruçaremos ao longo deste debate.
Se iniciamos a temporada com personagens interessantes, autênticos, divertidos e que pareciam se importar mais com a caça aos fakes acima de tudo, passamos boa parte da jornada posterior – mais especificamente a partir do terceiro ciclo, com a eliminação dupla de Gaybol e Loma – testemunhando alianças, estratégias e um gameplay de altíssimo nível.
No fim, como terminou? O que prevaleceu? Valeu a pena jogar estrategicamente, ou, assim como a versão americana, ser você mesmo e não se preocupar com o jogo é o caminho para o sucesso em The Circle? Se você já assistiu à temporada completa, tem essa resposta tanto quanto eu.
Casal que joga unido é eliminado unido

Mas vamos começar pelo início: o cliffhanger porco com o qual fomos deixados ao fim da segunda semana. Como eu afirmei no texto, era bastante óbvio que Akel seria o eliminado, o que não foi nada menos do que justíssimo, mas confesso que meu lado manteiga derretida se emocionou com a tristeza do rapaz.
Felizmente para meu coração gelado, não durou muito, porque aquele beijo em Lorayne foi extremamente forçado, quase deu pra sentir a produção conversando com ele empurrando e incentivando-o a fazer isso. Completamente diferente da naturalidade com que Joey romantizou a visita de Miranda, Akel parece que foi de uma hora pra outra para esse lado, num típico rompante do boyzinho que se recusa a sair do reality sem pegar mulher.
Com isso, Lolô foi abandonada à própria sorte depois de defender o boy com unhas e dentes, enquanto um novo participante, Renan, começou a se integrar ao Circle. Faz-se completamente desnecessário discorrer sobre Renan neste texto, visto que a importância dele na temporada foi zero. Aliás, foi negativa, só serviu pra enrolar mais, mesmo. Acho que a Netflix pensou “ah, vamos dar uma lição em todos aqueles que estão chamando o JP de heterotop e mostrar pra eles o que é de verdade um heterotop chato e sem conteúdo”, e aí selecionaram o Renan.
O único evento relevante de Renan foi o café da manhã comprometedor que enterrou de vez o jogo de Lorayne de maneira extremamente injusta, mas que me faz pensar no famoso ditado “Deus escreve certo por linhas tortas”. Sozinha, como previsto, Lorayne começou a acordar para o jogo. Ela percebeu muito claramente que o grupo Elas Que Lutem não era mais confiável, mas que Marina ainda era, uma leitura de jogo bastante precisa.
O problema foi como Lorayne decidiu trabalhar com essa percepção. Ok, um café da manhã pode até se tornar porta para uma aliança, mas não seria difícil Lorayne contornar a situação, dizer que era uma situação complicada porque Akel acabou de sair, etc, mas que ficou feliz com a gentileza de Renan e tentaria lidar com a situação de maneira educada. Trabalhar a verdade dessa forma poderia lhe dar espaço para tentar impedir o trágico fim: a eliminação nas mãos do Super-Influencer.
O Poder Supremo

Foi muito divertido ver Luma como Super-Influencer porque a regra de ir pessoalmente eliminar alguém acabou tirando os gêmeos de sua zona de conforto, fazendo com que eles tivessem que refletir sobre como lidariam com Lorayne. Acredito que eles a teriam eliminado com ou sem a mentira do café da manhã, mas a mentira facilitou muito a vida, porque Lorayne saiu mais “conformada”. É uma explicação simples e cômoda, e socialmente os gêmeos foram perfeitos. Eles definitivamente têm carisma de sobra para impedir que Lorayne saísse como um Antonio da vida, louca para dar com a língua nos dentes sobre a existência de um fake. #LorayneKnowsTheTruth
Acredito que Lolô jogou mal, mas também foi bastante injustiçada em sua trajetória. Verdadeira e espontânea do começo ao fim, a interpretação de Dumaresq da rosa com espinhos foi extremamente equivocada. Luma e Ana também tinham visões distorcidas de Lorayne e contribuíram muito para sua queda.
Por outro lado, sua insistência em defender Akel abertamente foi realmente uma jogada ruim, e nem foi pela eliminação do boy da Marina, algo que no fim Lorayne conseguiu contornar. O problema foi ela realmente ter batido demais de frente com JP, um grande jogador que estava construindo toda uma rede de contatos e foi muito bem-sucedido em isolar Lorayne e Akel do restante do elenco quando percebeu que eles eram uma dupla inquebrável. Curiosamente, ao eliminar Lucas, Lorayne salvou Marina, fazendo-a acordar para o jogo, mas condenou ela própria a uma prisão. Quando Akel deixou o game, já era tarde demais para a paranaense se recuperar do isolamento causado pela formação de casal.
Apesar disso, Lorayne foi uma personagem maravilhosa para o elenco. Divertida, espontânea, querida, emotiva, teimosa… todas as suas características levaram a uma jornada muito marcante e digna de chamá-la de um dos grandes nomes do The Circle Brasil. Apesar de entender que foi uma eliminação merecida, há de se lamentar alguém tão interessante ter se perdido dessa forma. Também é um conforto o fato de ela ter deixado o jogo com tranquilidade, tendo encarado a situação como consequência de um erro que ela de fato cometeu, e não por algum julgamento injusto de sua personalidade.
Vale também pontuar mais uma injustiça sofrida por JP no game: a fama de leva e trás que ele ficou – até mesmo Giovanna Ewbank insinuou isso na finale! – após revelar publicamente o segredo de Lorayne. Ficou muito claro pela edição que JP não fez isso pensando em prejudicar ninguém. Seria até ilógico acreditar que ele estava jogando nesse momento. Uma informação tão simples como um café da manhã, que na conversa entre ele e Renan nunca foi tratada como segredo, não tinha por que ser encarada por JP como arma naquele momento. Ele realmente foi tentar ser simpático sem saber sobre a mentira de Lolô, e é muito curioso como as coisas se desenrolam e se tornam uma bola de neve de maneira quase aleatória.
Eliminações mornas

Pouco precisa ser dito sobre as eliminações de Renan e Ana, que precederam a finalíssima. Renan foi realmente um personagem tapa buraco que não trouxe nada para a temporada, enquanto Raf, por mais maravilhoso que seja como vilão, não era alguém que vislumbrávamos tendo futuro no jogo. Um grande momento foi sua visita a Dumaresq, que acabou sendo um pouco desconfortável, com leves alfinetadas entre as duas queens.
A edição até tentou vender que Ray ou Marina corriam perigo em determinados momentos (e, no caso de Ray, foi bastante competente em passar essa sensação), mas no fim era difícil acreditar que seria algo diferente disso. A única eliminação que me surpreendeu um pouco nessa última leva foi a de Lorayne, que, antes de começar o episódio, eu não tinha certeza se aconteceria mesmo.
Ainda assim, o desenrolar dos fatos até aqui importam, muito mais pelos resultados dos rankings e influencers do que pelas eliminações. Luma, Dumaresq e JP foram os grandes destaques da reta final do game, dominando os 3 últimos ciclos como influencers.
Duma se tornou, então, o maior influencer da temporada, assumindo a posição em 4 ciclos dos 7 possíveis. JP vem logo em seguida, sendo alçado a influencer 3 vezes. Por fim, Luma, Marina e Lorayne empataram em terceiro lugar, tendo sido influencers duas vezes cada um, sendo que a capacidade de influência de Marina e Lorayne despencou a partir da metade do jogo, na mesma medida em que Luma e JP tiveram suas trajetórias ascendentes. É importantíssimo compreender essa dinâmica se quisermos discutir o resultado final do jogo.
Top 5, baby!

Assim, chegamos aos nossos finalistas: Duma, Marina, JP, Luma e Ray. Essencialmente, a Aliança Norte-Nordeste (a oficial e a extra-oficial, entre Luma e Duma) + Marina. O hangout dos finalistas é sempre excelente, desde que haja algum fake para chamar a atenção, o que tem sido o caso em todas as temporadas até agora. Mas, no caso do elenco brasileiro, a chegada de todos os jogadores foi muito legal de ver, porque, com exceção do tranquilo JP (ótima escolha para ser o primeiro a chegar), temos perfis de pessoas extremamente extrovertidas e esplendorosas. Cada look e entrada foi um flash!
É muito bacana também destacar que não há nada mais brasileiro e mais diverso do que esse grupo de finalistas. Entre as 6 pessoas, temos 3 representantes do Norte, 2 do Nordeste e 1 do Sudeste, 2 mulheres negras, 3 homens gays e 1 hétero. Temos profissões e estilos de vida extremamente distintos, todos como um recorte perfeito do nosso país e de tudo o que ele abrange. Eu realmente amei ver esse grupo de pessoas tão distintas entre si e ao mesmo tempo tão representativas, como grupo, do país multicolorido em que vivemos!
Além de Luma (que era previsível), uma coisa que chamou a atenção – e foi percebida pelos próprios participantes – é o quanto Ray é uma pessoa interessante e magnética pessoalmente, mas não conseguiu mostrar isso no jogo e através da tela. Tanto no hangout como na finale ao lado de Giovanna, Ray pareceu uma pessoa completamente diferente da que vimos no prédio do Circle, e essa persona, sim, era a #Raylacre que estávamos procurando. Acredito que Ray tenha apenas entrado no reality errado para o perfil dela. Achei maravilhosa e super torcível fora do ambiente de comunicação virtual.
A finale foi um pouco menos arrastada que a americana, o que foi bastante bem-vindo. Destaques para a merecida reunion entre Marina e Lorayne, uma amizade que realmente deu gosto de ver, para a consagração da hashtag #Gratiluz, e, por fim, para todos os momentos de Loma, da qual já estávamos todos com saudades. Mas o que a gente queria mesmo era ver o resultado.
Logo de cara, fiquei entristecido com os gêmeos em quinto lugar. Eles mereciam muito mais que isso, e foi bastante triste vê-los como os primeiros descartados da chance de vencer a temporada. Honestamente, nunca vi um fake jogar tão bem em nenhuma versão do The Circle como esses dois conseguiram jogar.
A maior ameaça da temporada foi revelada em quarto lugar, o que não me surpreendeu tanto. Duma estava vencendo demais e, com a consciência do poder que a yag tem, era natural que ele fosse empurrado para baixo no ranking final. Esse é o perigo de se destacar muito no Circle.
JP em terceiro me surpreendeu mais. Eu achei que ele disputaria seriamente com Marina o título, e estava esperando o anúncio de Ray no lugar dele. Confesso que fiquei um pouco assustado com a manauara no Top 2, mas a esta altura já estava claro qual seria o resultado.
Vale dizer, porém, que há poesia em ver um Top 2 de mulheres em um reality brasileiro, especialmente em tempos de machos escrotos derrotados que comemoram no Instagram a eliminação de uma mulher no jogo porque pra eles isso significa que eles estavam certos e não eram machistas. Que 2020 nos reserve mais F2 femininos em realities brasileiros, não é verdade?
Ray em #2 foi um claro indicativo do quão estratégicos foram os jogadores ao definir o ranking final, e é justamente esse tipo de maneira de jogar que levou nossa querida Marina a ser coroada como a primeira winner do The Circle Brasil. E o país inteiro comemorou com essa maravilhosa a vitória!
E agora?

Antes de qualquer coisa, é importantíssimo ressaltar minha alegria por ver essa guerreira vencendo. Marina passou por muitos altos e baixos, curtiu, se divertiu, viveu um crush, fez amizades reais, decepcionou-se, foi enganada, foi à lama, recuperou-se, enfim, viveu o The Circle de forma muito plena e intensa, e não poderíamos exigir mais do que isso da nossa winner.
Mas vocês sabem o que vem a seguir: se The Circle Brasil for renovado, e torço muito para que seja, a tendência é de que os próximos participantes comecem a emular o jogo vencedor, o que significa, essencialmente, ser sempre verdadeiro e viver de forma intensa e autêntica a experiência.
Isso é muito bacana e foi exatamente o que fez tanta gente gostar da temporada americana, mas se nós brazucas passamos esse tempo todo elogiando justamente o fato de termos feito um ciclo tão melhor do que eles, será que queremos, a partir de agora, que todos tentem ser Marina?
No fim, foi isso que me fez torcer tanto por Luma como winner, que seria um nome que consagraria a temporada pelo que ela realmente representou: um jogo impecavelmente social e estratégico, no qual pensar sobre cada movimento e saber navegar socialmente entre alianças e acordos vale a pena.
Talvez, porém, o The Circle Brasil tenha aberto um precedente interessante: tudo indica que a melhor estratégia no programa é sobreviver até o ranking final, mas chegar à reta final por baixo, ficando longe do posto de influenciador. Marina foi influenciadora nos momentos certos, aqueles em que o prestígio é importante para construir conexões no game. Da metade para a frente, manter-se no topo acaba sendo uma situação prejudicial, como foi para Luma, Duma e JP. Com exceção da versão US, que foi completamente paz e amor, o The Circle pelo mundo parece estar consolidando essa tendência.
Mas vamos seguir a lição de Marina e sermos menos calculistas. O fato é que a vitória de Marina foi linda e muito merecida. Não poderíamos ter nada melhor para representar nossa temporada do que uma mulher negra, carioca da gema, carismática, divertida, muito querida por todos e que sabe abrir espacates e fazer o quadradinho como ninguém! Viva Marina, viva a mulher brasileira e viva as alegrias que o The Circle nos proporciona. No fim, de uma forma meio torta, a premissa do The Circle prevaleceu. Venceu a pessoa mais popular, mais querida, mais amada. Por eles e por nós. Saímos desta temporada com uma sensação gigantesca de que tudo valeu a pena, e não poderíamos querer mais nada, não é verdade?
#Gratiluz
P.S. O The Circle França já está no ar na Netflix, e vamos ter texto sobre ele também. Bora embarcar comigo nessa jornada?
Circle, fechar chat.















