Voltei. A caminho de terminar o primeiro semestre, temos mais dez séries para conversarmos sobre televisão. Quase uma lista de séries norte-americanas, chegamos ao TOP20. A partir de agora, a conversa gira em torno do que cada um desses vinte nomes contribuíram (ou contribuem) para seus gêneros, quais emoções nos provocam, quais debates trazem. É este o momento em que a lista fica ainda mais subjetiva porque diversas séries aqui poderiam estar no TOP10. Infelizmente sem séries brasileiras dessa vez, a Netflix também não marca ponto. Produções finalizadas, produções estreantes, minisséries, sitcom, aventura, drama social, drama biográfico, horror (ou quase) e uma série de super-herói (ou quase): bem-vindo de volta!

20 – Grey’s Anatomy, 15×19: “Silent all these years” (28/03/2019) [ABC]

Escrito por: Elisabeth R. Finch // Dirigido por: Debbie Allen

Grey’s Anatomy.

Eu poderia falar que Grey’s Anatomy abre nossa lista hoje como forma de fazer justiça a Personal Jesus. O episódio, um dos melhores de 2018, foi colocado em #43 quando, na verdade, deveria ter aparecido muitas colocações para cima. É um dos meus arrependimentos na composição da lista do ano passado. Mas a presença da série norte-americana aqui não é como forma de compensação, e seria injusto dizer isso. Quinze temporadas depois, os méritos são próprios e aqueles que ainda estão entre nós, na plateia, podem atestar isso.

Balançando para lá e para cá, Grey’s Anatomy ainda nos entrega bons episódios. A série é uma turbulência, eu sei, mas se pensarmos em tantas outras que já estão se desequilibrando em sua segunda ou terceira temporada, não dá para não exaltar o trabalho feito por aqui. Já não a série de 2005, temos quase um spin-off dentro da própria série. Nessa nova, composta por novos membros e novas personagens, a audiência é mantida. Isso se deve a algo já comentado por mim anteriormente: queremos rever em Grey’s a emoção do antes através do novo. Calma, explico: queremos novos episódios, novas boas tramas, mas que nos lembrem como o seriado ia de divertido ao catártico. Grey’s era nossa dose semanal de emoção, e é essa emoção nostálgica que buscamos, mesmo quando sentamos para assistir aos novos episódios.

Silent está aqui para nos lembrar um pouco da velha Grey’s Anatomy. Esta sempre foi uma série de cenas marcantes — de elenco afiado, texto humorado, bons discursos, mas principalmente de cenas. Izzie deitada no chão do banheiro, só para citar aquela que ficou tatuada na minha mente. Em 2019, ganhamos uma dessas cenas marcantes, de rodar a internet, comover mesmo os que não são telespectadores ou os que já foram e abandonaram. É uma cena forte, respeitosa e carinhosa.

No episódio, uma mulher vítima de algum tipo de atentado chega ao hospital e é atendida. Conforme avançamos, entendemos o que aconteceu, como aconteceu e por que ela não gostaria de tomar providências a respeito. Além disso, a personagem que protagoniza o episódio (e a série há um tempo) faz algumas descobertas sobre seu passado (outro recurso típico em Grey’s) e quase não há espaço em nós para acomodar esse novo baque.

A veterana das veteranas, Grey’s Anatomy este ano está em #20 porque, assim como Survivor ou Os Simpsons, não importa quanto tempo você esteja no ar: um bom episódio é um bom episódio.

[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: renovada para a décima sétima temporada // AP: #43]

19 – Game of Thrones, 08×03: “The Long Night” (28/04/2019) [HBO]

Escrito por: David Benioff e D. B. Weiss // Dirigido por: Miguel Sapochnik

Game of Thrones.

Chegamos ao momento mais polêmico dessa lista.

Mesmo que você nunca tenha assistido a um só episódio de Game of Thrones, deve ter ouvido alguém falar mal da série em 2019. Seja aquele seu amigo fanático e enfurecido, seja em algum portal de resenhas. Falou-se mal de Game of Thrones no ano passado, e não sem razão: ao contrário da sempre referida Breaking Bad, GOT acabou em sua pior temporada, quando o momento mais crítico da série foi resolvido em seis episódios. Assim, se falamos até aqui de vários tipos de série, esta produção da HBO se torna aquela que recomendamos com precaução para alguns amigos, avisando sobre como tudo desanda, ou sequer recomendamos. Sou do primeiro grupo porque, no fim das contas, GOT vale a maratona, tem pelo menos duas ou três temporadas intocáveis, as reviravoltas mais interessantes da última década e finais de se assistir aos créditos de boca aberta.

Mas Game of Thrones não chega à nossa lista como forma de homenagear uma série histórica. Ela chega aqui porque, no fim das contas, eu gostei do episódio. Talvez nós reassistamos daqui a uns anos e mudemos nossa opinião, perdoando a covardia do roteiro em nome de reconhecer a grandiosidade da produção, quando o cinema entrou dentro da televisão da nossa casa. Ou talvez eu perceba o quanto a crítica e os fãs estavam certos.

Mesmo quem não acompanhou a produção deve saber que existe uma trama sobre zumbis, e é nesse episódio que ela se resolve. É um episódio escuro, sufocante e que tinha a possibilidade de arriscar tudo. Estando na última temporada, sem necessidade de renovar contratos e manter atores no elenco, mesmo os favoritos, era o momento de nos deixar sem ar e partir pela última vez o coração dos fãs. GOT sempre foi uma série corajosa, na qual já se queimou criança viva e se degolou personagens. Como, então, acabamos com esse anticlímax em que tudo acontece, mas, na verdade, nada?

A distância de GOT do meu TOP10, mesmo gostando do episódio, assumindo ter ficado tenso durante sua exibição e reconhecendo sua grandiosidade está nisso: a perda da fantasia. No drama medieval de realismo fantástico, sua credibilidade era essencial. E não falo só de ser coerente com as próprias regras e todo o resto do debate arrastado pela internet. A verdade é que a série cumpria aquele papel de nos tirar da realidade, era nosso escape — por mais que nos tirasse de um mundo cruel e injusto para nos mergulhar em outro ainda mais cruel e ainda mais injusto. GOT rompeu esse brilho, essa conexão, esse olho no olho com os fãs, se é que isso faz sentido.

Fica aqui o último aceno à série em sua última aparição na lista de melhores do ano do SM, ranking que já ocupou nas primeiras posições e com mais de um episódio. Abriu caminho para que a produção para a televisão, a partir de si, desafie-se em nível de grandiosidade, mas espero que não dite o final de outras séries. É fora de mão não só para ela, mas para a HBO, ainda o melhor canal/serviço pago do nosso continente.

[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: finalizada // AP: #n/a.]

18 – Years and Years, 01×04: “Episode 4” (04/06/2019) [BBC]

Escrito por: Russel T Davies // Dirigido por: Simon Cellan Jones

Years and Years.

A ficção no geral, não só a televisão, tem muitos papéis. Mal começamos nosso papo, e eu já disse que Grey’s Anatomy é boa por criar laços entre o público e pessoas que não existem, com problemas sociais explorados de maneira melodramática; disse também que Game of Thrones construiu um mundo alternativo com o qual nos importávamos tanto que saímos pela internet comprando brigas com desconhecidos só para dizer o quão decepcionados estávamos com o andar da carruagem. Deste modo, sendo para te fazer escapar ou se revoltar (ou tantas outras possibilidades), a televisão precisa que você se importe.

Chegamos a Years and Years, um combinado das séries anteriores. Calma: não temos dragões por aqui, mas um mundo futuro, quase distópico, que se passa a poucos anos de onde estamos. Ou seja, já não é nossa realidade, não é o mundo britânico de outras séries dessa lista. Também, assim como em Grey’s, temos uma grande cena e que, arrisco dizer, talvez tenha sido o momento mais sufocante da televisão do Reino Unido em 2019. A cena em si, que se passa num barco, é o clímax desesperador de uma trama já desesperadora e que reflete de volta nossa vontade de escapar. Mas, como a série deixa claro: às vezes não se escapa.

Terrível e dolorosa, Years centra-se em uma família problemática (como todas) e vai nos mostrando o que acontece com ela enquanto os anos passam, a política do mundo muda e a tecnologia avança. Faz algumas previsões assustadoras, mas críveis, tem uma boa abordagem de relacionamentos e ainda consegue ser criativa na apresentação de aparelhos meio Black Mirror. Temos muitos debates explorados pelo roteiro, dando destaque à questão da imigração pelo mundo.

Episode 4 poderia estar aqui só pela cena do barco. E pela cena que fecha o episódio. Mas está também por ter Emma Thompson no elenco fazendo uma personagem detestável e Rory Kinnear mostrando a mesma competência que conhecemos desde Penny Dreadful, além de um forte elenco de apoio. Com medo de soar repetitivo, mas nunca perdendo a oportunidade de o ser, preciso terminar dizendo que este episódio é devastador. Não somente, mas principalmente devastador. Devastador.

[País: Reino Unido // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: finalizada // AP: n/a.]

17 – The Act, 01×02: “Teeth” (020/03/2019) [Hulu]

Escrito por: Dan Dietz // Dirigido por: Laure de Clermont-Tonnerre

The Act.

Assim como a série anterior tem uma cena memorável que vem à mente sempre que pensamos nela, esse talvez seja o episódio que fique contigo de The Act — ou pelo menos é a minha experiência. O sétimo, Bonnie & Clyde, esteve entre os selecionados até o último momento, mas decidi trocar e aqui vai a explicação: Toda vez que alguém me pergunta se eu recomendo a minissérie da Hulu, se deveria assistir ou se eu gostei, eu só consigo lembrar desse episódio. Então respondo: talvez não. É boa, é bem feita, mas talvez não. Tudo por conta dos dentes. Tudo por conta de como eu me senti ao final de Teeth,

The Act é um drama criminal baseado em um famoso (e bizarro caso): a morte de Dee Dee Blanchard e o papel que sua filha, Gypsy, teve nisso. A relação entre mãe e filha é detalhada em oito episódios, nos quais conhecemos o passado da primeira e a infância da segunda num estranho jogo de obsessão e manipulação. A série é a grande representação de relacionamento tóxico entre familiares de 2019, e não daquele jeito imaginativo e enigmático que Sharp Objects nos vendeu. Não deixa, no entanto, de ser tão cruel e terrível quanto a minissérie da HBO.

Nesse episódio, Gypsy começa a descobrir algumas mentiras da mãe e sonha com uma independência em que não precise mais ser alimentada por tubos. A esperança chega quando alguém começa a prestar atenção nesse relacionamento e a se perguntar como e por que uma criança teria tantos problemas. Para interferir nessa possibilidade, Dee Dee se transforma em uma quase vilã de Game of Thrones e decide… Bom, fica para quem assistir à série. Temos um doce momento musical que dentro desse contexto se torna desconcertante e as duas atrizes principais, Patricia Arquette e Joey King, em seus melhores momentos. Se o primeiro episódio não te fisgar, fica a recomendação para que espere o final do segundo antes de abandonar a maratona. Ou abandonar pelo motivo certo.

[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: finalizada // AP: n/a.]

16 – Dororo, 01×06: “The story of the Moriko Song, part 2” (11/02/2019) [Tokyo MX]

Escrito por: Shigeru Murakoshi  // Dirigido por: Nabuyoshi Arai

Dororo.

Na única animação dessa dezena e a penúltima da lista, temos a nova adaptação de Dororo, mangá já adaptado em 1969. Os vinte e quatro episódios que concluem a jornada de Hyakkimaru e Dororo forame exibidos entre janeiro e junho, estando presente, portanto, durante todo o primeiro semestre de 2019 e presenteando a televisão com bons episódios por seis meses. Na aventura com grandes toques de filosofia, acompanhamos esses dois amigos em busca do corpo de um deles, oferecido a demônios quando ele era bebê para que uma aldeia não perecesse. A cada nova luta, Hyakkimaru vai recuperando seu corpo, ganhando aspectos mais humanos.

Deixe-me tirar o clichê do caminho antes de continuarmos: mesmo falando sobre demônios, Dororo diz muito sobre a experiência humana na terra; debate o que é humano, o que compõe esse conceito e como conquistá-lo.

Sempre difícil escolher o melhor episódio, aqui fico com o sexto, mesmo tentado a trocar até o momento dessa postagem. A escolha, quando nada tem um destaque absurdo demais para negar, é feita geralmente passando cenas, relendo as sinopses, revendo imagens para me lembrar. Ao dar uma olhada novamente em The story of the Moriko Song, part 2, o mesmo sentimento de terror de The Act apareceu. O episódio fala sobre os terrores da guerra e como ela destrói o indivíduo e o coletivo. Vai de esperançoso a melancólico, não deixando de ter aventura no meio.

Na história, os dois companheiros chegam a uma vila e encontram dois irmãos que estão fazendo de tudo para sobreviver à miséria e à violência de seu momento histórico. Enquanto tentam ajudar, os recém-chegados vão descobrindo segredos desse lugar e verdades terríveis que exemplificam como às vezes se faz tudo para proteger aqueles que se ama e o custo alto para isso.

Tem basicamente tudo o que esperamos de um bom anime.

[País: Japão // Idioma: japonês // Gênero: aventura // Status: finalizada // AP: n/a.]

15 – Killing Eve, 02×06: “I Hope You Like Missionary” (14/05/2019) [BBC]

Escrito por: Jeremy Dyson // Dirigido por: Francesca Gregorini

Killing Eve.

Em seus piores momentos, Killing Eve é uma série redundante, previsível, lenta e com uma das protagonistas mais detestáveis em exibição. Em seus melhores momentos, Killing Eve é uma série divertida, elegante, charmosa e com duas das melhores atrizes trabalhando atualmente. Enquanto o primeiro ano pode ser compreendido nesses melhores momentos, o segundo tem boa parte de sua temporada no oposto.

Começamos de um ponto em que não era possível voltar à dinâmica de antes. Algo havia ocorrido entre as duas protagonistas, tornando impossível que revisitássemos o mesmo ponto. Ignorando isso, boa parte da segunda temporada foi uma preparação para que voltássemos ao exato mesmo momento de antes e que o segundo ano espelhasse o primeiro. Para disfarçar isso, Eve foi desenvolvida num esforço meio bobo de equivaler as duas personagens rivais. Bobo porque a série funciona quando amparada na genialidade de Villanelle, em sua falta de escrúpulos e em seu inegável carisma. Não dá para subir a personagem de Sandra Oh a este patamar, pois, no fim, não há motivo para isso. O roteiro do piloto de Phoebe Waller-Bridge tinha uma mulher divertida e com um gosto para o macabro e era aí que deveria permanecer o norte da série.

Villanelle e Eve voltam a se encontrar e ganhamos cenas novelescas, com direito a primeira se comportar como uma vilã de malhação atrapalhando o casamento de sua professora. Mas Jodie Comer faz tudo tão bem que deixamos isso passar e não questionamos aonde foram passear as motivações de sua personagem. Depois de alguns episódios, Killing Eve volta a ser divertida e a temporada engata num bizarro triângulo que coloca três personagens em uma briga por poder.

O sexto episódio está por aqui porque, depois de um começo estranho, a temporada volta a nos dar relances do que era e a apostar tudo em sua atriz principal. A sensação que eu tenho é que a segunda temporada só existe para dar um Emmy a Jodie. Cenas da atriz trocando diversos sotaques em um minuto e chorando durante um discurso existencial, entre outras, parecem escritas só para isso. Missão cumprida: a atriz venceu o prêmio norte-americano e nós ganhamos ótimos momentos para celebrá-la.

I Hope You Like Missionary, episódio sublinhado pela BBC no momento de indicar Jodie aos jurados, tem muito do humor da série já em seu título. Provocante e apelativo, a frase desdenha o sexo assim como as personagens se desdenham e desdenham dos impulsos físicos, manipulando-os para conseguir o que querem. Eve não está tão enfadonha aqui, e Villanelle nunca foi tão interessante, dúbia e perigosa.

[País: Reino Unido // Idioma: inglês // Gênero: drama? // Status: terceira temporada estreia daqui a pouco // AP: #6.]

14 – Fosse/Verdon, 01×07: “Nowadays” (21/05/2019) [FX]

Escrito por: Joel Fields e Steven Levenson // Dirigido por: Thomas Kail

Fosse/Verdon.

Mais uma história baseada em fatos reais. Dessa vez, não é uma representação meio romantizada de um crime perturbador, mas uma biografia, categoria clássica do cinema e que tem ganhado espaço na tevê. E também perturbadora. Isso se deve ao foco: um relacionamento e/ou rivalidade nos bastidores do cinema e teatro norte-americanos.

Bob Fosse e Gwen Verdon, que nomeiam a série, são um casal de artistas com uma afinidade muito grande no momento de criação de seu trabalho. Ele é um diretor e coreógrafo, ela, uma atriz e dançarina. Talvez não sejam figuras tão presentes em nosso imaginário, mas dá para mencionar Cabaret e All That Jazz para reconhecermos seu trabalho. Ganhador de Óscar, Tony e Emmy, entre outros prêmios, Fosse teve uma carreira de sucesso, mas muito conturbada por conta de sua personalidade e seu comportamento. Verdon, que tem seu Tony e um Grammy na conta, foi por muitas vezes um suporte essencial no trabalho do marido.

A minissérie é baseada em uma biografia do diretor e coreógrafo, o que talvez explique porque muitas vezes a história parece girar em torno dele. Coadjuvando nessa carreira e não ganhando os créditos que gostaria, Gwen tem seu momento de despertar e de se manifestar sobre esse desinteresse dele. Parece uma trama amargurada e rancorosa de pessoas que se amam, admiram-se e se odeiam com a mesma paixão — e é exatamente isso. Fosse e Verdon têm um dos relacionamentos mais complexos dessa lista porque, além de pessoas comprometidas com a arte, são comprometidos com o próprio ego. Detestáveis mesmo.

Produções que se esforçam para nos conquistar mesmo com personagens pouco carismáticas como protagonistas merecem meu reconhecimento: ganhar-nos com pessoas divertidas e gentis é fácil; o desafio está em nos convencer a assistir a episódio e mais episódio acompanhando alguém que nos enfurece — Breaking Bad, Succession, a já citada The Act e outras séries fazem parte desse grupo. O roteiro tem seu mérito, mas a edição, a direção e principalmente a atuação de Sam Rockwell e Michelle Williams são essenciais para essa conquista. Por todo esse esforço, temos Michelle ganhando o primeiro Emmy da carreira, enquanto a minissérie foi indicada a quase cinquenta prêmios.

Aproveitando que estou focando nas grandes cenas de cada episódio, esse tem a minha favorita dessa minissérie. Cansada da soberba de Bob, Gwen faz um monólogo sobre ser a estrela, talvez seja o motivo para o Emmy de Michelle Williams. Isso ou toda a construção psicológica, física e gestual de sua personagem. Temos em números musicais e diálogos afiados o encontro perfeito entre a televisão como deslumbre e a televisão como representação de uma realidade. E o teatro, que parece pertencer a tudo isso.

[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: finalizada // AP: n/a.]

13 – What We Do in the Shadows, 01×07: “The Trial” (08/05/2019) [FX]

Escrito por: Jemaine Clement  // Dirigido por: Taika Waititi

What We Do in the Shadows.

Boa parte das séries são um misto de gêneros — e as desta lista não são diferentes. Quase sempre, os gêneros que se misturam na televisão são a comédia e o drama, para o qual ainda improvisamos o termo “dramédia”. Também outros seriados fazem essa mistura, como os de ficção científica mencionados por aqui ou os de mistério. Às vezes acontece do horror ganhar essa mistura de tons. A série dessa posição é exatamente isso: 100% horror e 100% comédia, numa conta que só faz sentido na televisão.

Também adaptação de outra mídia, What We Do in the Shadows é baseada num filme famoso de mesmo nome. Assim como no longa, temos um falso documentário acompanhando a vida de vampiros de uma cidade. A diferença é que os protagonistas são outros, mas tão divertidos e interessantes quanto os apresentado em 2014.

Quem nunca assistiu ao filme pode me perguntar agora por que assistiria a uma comédia sobre um documentário falso sobre vampiros. A resposta mais direta é: porque é brilhante. A resposta com frase de efeito é: porque What We Do é a melhor produção televisiva sobre vampiros desde True Blood. É criativa, tem um roteiro absurdo de genial e um elenco perfeito para apoiá-lo. A temporada, dez episódios de vinte minutos, passa rápida e rende uma maratona que te faz gargalhar ao te tira um pouco da seriedade desse mundo. O método: acompanhamos personagens constrangedoras que se levam a sério demais.

Para a lista, escolhi o sétimo episódio porque ele tem participação do elenco do filme, porque tem outras participações especiais num argumento interessante e porque tem as personagens em seus momentos mais vergonhosos, orgulhosos e engraçados.

[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: comédia // Status: renovada para a segunda temporada // AP: n/a.]

12 – Brooklyn Nine-Nine, 06×16: “Cinco de Mayo” (209/05/2019) [NBC]

Escrito por: David Phillips // Dirigido por: Rebecca Asher

Brooklyn Nine-Nine.

A ideia de que cada novo episódio acrescenta (ou deveria) à trama principal de uma série pode ser vista em diversos exemplos. Destacam-se o encontro do grande clímax, a reviravolta, a construção de personagens e a resolução. Em sitcoms, isso é difícil de acontecer porque, por tradição, é como se você pudesse sentar e assistir a qualquer episódio sem muito embasamento, sem a linha que costura as outras séries e requer uma grande bagagem para se entender o episódio em questão. Mas, mesmo nessas séries, algum momento pode ocorrer, no qual se valoriza e se sublinha o quanto a série cresceu, aonde chegou e o que aquilo significa aos telespectadores e a si mesma.

Cinco de Mayo é este momento de Brooklyn Nine-Nine, seu grande fruto. Ele é a grande construção feita desde os primeiros episódios da série, mesmo quando a ideia de escrevê-lo não tinha sequer ocorrido aos roteiristas — até porque, antes dessa temporada, a série havia sido cancelada. Descancelada, Brooklyn voltou ousada, meio mudada, para um ano em que as personagens faziam referências mais afiadas e o humor parecia em algum lugar longe ao que estávamos acostumados. Provocou-nos, portanto. Muita gente não gostou, e essa, aparentemente, foi uma temporada para se condenar. Da minha parte, gosto do que o novo lar trouxe à comédia e as mudanças feitas, é uma das minha favoritas, e sigo condenando a primeira.

Cinco traz a tradicional disputa entre os detetives para obter algum item que possa provar sua qualidade como profissional dessa delegacia. É um roteiro tão ágil e que conta com um bate e volta tão rápido dos atores que só assistindo muitas vezes para assimilar tudo. Não há problema nisso, uma vez que Brooklyn, entre tantas coisas, é uma série para se rever, para buscar conforto, para encontrar familiaridade em um conjunto de personagens diversas, mas unidas — no fundo o que procuramos mesmo na televisão.

[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: comédia // Status: sétima em exibição, oitava confirmada // AP: #46.]

11 – Legion, 03×01: “Chapter 20” (24/06/2019) [FX]

Escrito por: Noah Hawley e Nathaniel Halpern // Dirigido por: Andrew Stanton

Legion.

Quase uma Twin Peaks em viagem de alucinógenos, Legion também chegou ao fim. É talvez a mais difícil daqui para se falar àquele seu amigo que pede uma recomendação. Não porque fiquemos em dúvida sobre sua qualidade em algum momento, mas simplesmente porque não dá para explicá-la. É uma jornada pela mente de uma pessoa que descobre ter super poderes dentro de uma ala psiquiátrica. Será que isso é suficiente? Se sim, a próxima pergunta é: o quão assustadora, confusa e complexa é a mente de uma pessoa? Bom, para responder isso, ganhamos três temporadas e vinte e sete episódios no FX, essa grande central de boa programação.

Nesses novos dez itens trazidos, tentei falar sobre a experiência de assistir a uma série. Recapitulando: pode nos proporcionar um pouco da ousadia que não temos coragem de praticar (Killing Eve), o escape para um mundo diferente (Game of Thrones, Dororo) ou o deboche do nosso (What We Do), emoção (Grey’s, Years) ou uma família para que encontremos conforto (Brooklyn Nine-Nine) e nos trazer informações (The Act, Fosse/Verdon).

Em Legion, temos uma nova categoria: é explorada a própria experiência de assistir. Como Watchmen e Euphoria fizeram recentemente, é quase como se o visual contasse a história e fosse inseparável. Em qualquer outro episódio dessa lista, o roteiro se sustenta sozinho, é a grande base. Mesmo em Fosse, com grandes números musicais, meu destaque é do monólogo de Gwen e como ele é poderoso de se ler mesmo se Michelle Williams não o tornasse tão poderoso. Em Legion, não. Em Legion, ater-se ao texto não é opção; assim como também não o é se ater às regras de narrativa, de espaço e tempo e tantas outras aplicadas na nossa vida e em outras produções.

Unindo drama, horror, fantasia e ficção-científica, Legion também quase debocha de nossa pressa — desenvolve-se do seu jeito, ignorando nossa antipatia pela lentidão. É assim que o terceiro ano começa. O novo capítulo demora a resgatar David, este anti-herói (?) indecifrável, deixando-nos bons minutos com uma personagem nova. Iniciamos uma jornada com ela para encontrá-lo. Além do visual, temos um forte apelo ao som, uma forma de ocupar nossos ouvidos mesmo quando não há diálogos em tela. É confuso, mas divertido. E mais divertido ainda se, como num videoclipe musical, você decidir aproveitar a viagem do seriado sem se importar muito com decifrar cada cena.

Irresponsavelmente fora do nosso TOP 10, Legion foi um dos grandes atos da televisão norte-americana da década passada.

[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: finalizada // AP: #08.]

———

Chegamos ao fim mais uma vez. Nos próximos dias, volto com o TOP10 do primeiro semestre e já fica o aviso: é o TOP10 mais diversificado da história do Série Maníacos — quatro idiomas, cinco países e três continentes. Não deixe de deixar sua lista nos comentários e voltar daqui a pouco para continuarmos o papo.

As capas desses rankings são do André Zuil, que generosamente aceitou participar novamente este ano.

Artigo anteriorThe Circle Brasil 01×09-12: O Encontro Final [Season finale]
Próximo artigoThe Good Doctor 3×19/20: Hurt/I Love You [Season Finale]
Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.