
Shonda e seu idealismo.
Spoilers Abaixo:
Tudo a respeito de Scandal é intrigante. Algumas coisas para o bem, em outras para o não tão bem assim… E não digo que é para o mal, porque de fato, foi uma boa estreia. Um episódio seguro, pensado e bem produzido. Com um pouco do estilo de sua criadora, e ao mesmo tempo, com uma vontade imensa de se reinventar.
Tudo a respeito de Scandal é autoafirmação. É como se depois de anos a frente de duas séries tão parecidas em seu contexto (Greys Anatomy e Private Practice), Shonda tivesse decidido arriscar tudo, enquanto simultaneamente, lutava para parecer determinada.
É assim mesmo que Scandal parece: uma ordem. A série se impõe o tempo todo – tal como sua protagonista – e não deixa tempo pra gente pensar a respeito. Ela é incisiva. Intimida. E por alguns momentos, chega a soar antipática. Mas como todo trabalho pretensioso, se segura na sua atmosfera de competência. E isso Scandal é: competente.
Você não vai bocejar, cochilar ou ser indiferente ao que está vendo. A proposta é clara e anunciativa. O ritmo é tão frenético que parece que estamos vendo um episódio de Gilmore Girls – com diálogos absurdamente rápidos – misturado com um pouco de Damages. Até porque, essa vibe está totalmente justificada na linha central da trama, que nos apresenta mais uma jornada de relacionamento entre o mestre e seu pupilo.
Quinn é a primeira que vemos em cena. E isso o roteiro não nos explica muito. Ela é convidada para trabalhar com a lendária Olivia Pope e aceita logo de cara. Não sabemos muito sobre os antecedentes dessa ação. Só sabemos que aquela é uma oportunidade única. E embora Quinn pareça a protagonista da nossa história, esse engano acaba nos minutos seguintes, quando começa a saga dramatúrgica para apresentar aquela que deve ser a personagem mais superestimada da história da TV mundial.
E é isso. Olivia é sublinhada como uma espécie de super woman a cada cinco minutos. É sério, parece um culto. Ela entende de absolutamente tudo, tem sempre o controle de tudo e resolve os casos de seus clientes atentando apenas para os olhares das pessoas, que ela acredita – numa vibe bem Lie to Me – revelarem plenamente as verdadeiras intenções delas.
A “associação” de Olívia – já que somos avisados que não se trata de uma firma de advocacia justamente porque não há um compromisso com as leis – tem o papel de evitar que seus clientes cheguem ao tribunal. Tudo deve ser resolvido antes que a lei tome a frente do caso. E Olivia parece resolver tudo mesmo. Qualquer tipo de caso policial ou de vazamento de informações. A mulher parece infalível… Para se ter uma noção, em dado momento do episódio ela liga para o presidente – sim, porque ela tem passe livre até ele – para indaga-lo sobre uma questão enquanto ao mesmo tempo, a televisão exibe a chegada dele ao vivo. Ela liga enquanto assiste a chegada e fica olhando pra TV enquanto ele fala com ela ao telefone. Para saber se ele mente ou não a respeito da questão em pauta, ela pede que ele olhe para a câmera, só para que ela tenha certeza da veracidade. E ele obedece. Isso sem falar nas exigências que ela faz para a assessoria dele como se fosse uma autoridade maior.
Mas ao mesmo tempo em que o idealismo feminista de Shonda explode na personagem, ela não evita o sentimentalismo berrante de sua natureza romântica… Quando Olivia erra, é por causa de um homem. Daí, todo aquele esforço em retratar uma mulher intocável mostra suas verdadeiras intenções: o que Shonda quer é falar sobre aquilo que fala todas as semanas em Greys Anatomy. Não importa o quanto disfuncional Meredith seja, ela sempre acaba como qualquer mulher que chora por um homem. E mesmo Christina, que brada sua independência para o mundo, jamais parece satisfeita sem um parceiro.
E se o que Shonda quer é falar sobre o mesmo que já fala na sua cria mais bem sucedida, porque veremos Scandal?
Primeiro porque a ideia é ligeiramente original. Embora tenham pegado The Good Wife, Body of Proof, Lie to Me e mais uma dúzia de séries onde os protagonistas são infalíveis mesmo quando falham, e batido no liquidificador, a série tem o diferencial do bom texto e das pulsações emocionais fortes. Algo que ficou latente no piloto, mas que não sabemos se vai pra frente.
Os dois casos da semana foram bacanas, embora previsíveis (um homem que precisa esconder de qualquer jeito que é gay não beija o namorado na rua né, por favor…). O procedural criminalístico é muito forte e enraizado na sua temática. E ao que parece, não é o mais importante. A série é sobre essa mulher que se chama Olivia Pope, que parece mais importante que o Papa, de onde seu nome se origina numa piada perigosa e pronta. Chega a dar uma angústia ver o nome da mulher sendo proferido como ela fosse Cristo. E ela não conserta só os clientes, conserta os funcionários também, que chegam a ligar pra ela no meio de um pedido de casamento simplesmente porque não ficam sem seus conselhos. Isso é irritante, devo dizer.
O elenco parece correto. Temos lá o nosso eterno Desmond e nessa estreia, até a Paris de Gilmore Girls deu uma aparecida (numa outra referência despercebida ao modo como resolveram falar aqueles textos). O pai de Meredith também ganhou seu personagem regular tão sonhado e o presidente é feito pelo ator que matou o Patrick Swayze em Ghost, e por isso, já não vamos muito com a cara dele.
Já sobre o trabalho de Kerry Washington não dá pra dizer muito. Vamos esperar. É uma personagem que se agiganta a cada minuto. Pode ser uma cilada pra qualquer ator.
Como resultado final, eu fiquei satisfeito. Acho que a série tem potencial e se não cair no procedural chato e repetitivo (maior problema das séries dessa linha hoje em dia) pode se tornar a redenção de sua criadora.
E precisam dar uma sumida nesse “sentido aranha” de Olivia. Precisam.














