Transgredir o lúdico e ainda nos fazer acreditar, é para poucos.

Num domingo do ano de 1996, um programa feito com a presença de uma plateia, dentro de um teatro, estreou para os espectadores da televisão. E por mais que o veículo de distribuição fosse a TV, ainda tratava-se de teatro, um gênero sagrado para a classe artística, tomado de seriedade e honrarias. Para os atores, a mitologia grega não é mitologia e simbolismo, é dogma, é regra. O palco é um lugar de incorporações humanas propositais, e para cada indivíduo representado, uma imensa dose de respeito em troca. Até a comédia exige seriedade… Isso até o Sai de Baixo inventar uma nova forma de ser sério no humor: uma forma transgressora de quebra da fantasia.

Quem duvida pode voltar ao primeiro episódio, A Festa de Babete, e verá um elenco afiado no humor, mas tomado de seriedade. Cada um deles, até Miguel Falabella, está imbuído da própria construção artística. Todos estabeleceram quem eram seus personagens e dedicaram toda sua energia em mantê-los visíveis para nossas impressões. Foi aos poucos, muito aos poucos, que o exercício do escárnio involuntário, fez a direção sofrer uma epifania: O Sai de Baixo só seria o símbolo de uma era, se como com todas as regras, ele sofresse uma ruptura, uma transgressão. Daniel Filho parou de bater a porta na cara do caos, e quando o deixou entrar, fez o programa escrever seu nome na história.

Nesse delicioso retorno (que não consigo aceitar que já vai acabar), os atores promovem o revival dessas mesmas condições. Precisamos entender, no entanto, que o caos do Sai de Baixo não é vulgar, apelativo. É um caos determinante, parte de um estilo, de um layout, e a maior prova de que depõe a favor do formato, é que em momento algum, por causa dele, deixamos de acreditar. Mesmo que não pareça, cada um reencontrou seu personagem e o reincorporou como qualquer ator entregue aos dramas de um mito. Caco, Magda, Vavá, Neide e Cassandra tem propriedades únicas, que não se repetem nos traços cotidianos de seus intérpretes. Cada um tem um ritmo, um passo, um gesto, um olhar, uma voz. Marisa Orth, por exemplo, assumiu a Magda (um dos maiores ícones pop do país) como se não tivesse passado um só dia desde a última apresentação. E a Magda estava inteira em cena, com cada falsete vocal planejado – conscientemente ou não – por sua criadora.

Nenhum ator consegue isso sem acreditar no que faz. Nenhum riso brota da encenação sem que a gente acredite no que acontece. Marcia Cabrita ficou dois anos fora do programa antes dele terminar, mas também voltou completamente segura de seu personagem (recriado por ela, traindo a concepção tola que havia sido pretendida antes). Em cena, ela fala do cenário vazado que se conecta nas coxias. Falabella aparece como Caca de barba e mostra o enchimento na roupa da personagem. Ainda assim, com tudo isso, a gente acredita. A gente vislumbra a linha tão tênue que separa a interferência dos atores no ritmo daqueles personagens, mas acredita.

O Garoto do Adeus foi um episódio cheio dessas transgressões lúdicas. Aquela fantasia imensa, forçando as barreiras da realidade, flertando com a mentira, mas conseguindo só nos fazer mergulhar cada vez mais naquele universo. Nenhum programa na história da nossa teledramaturgia consegue fazer isso como o Sai de Baixo consegue. Nenhum. Caco fica falando sobre o hábito de sempre sair de cena quando a mãe está pra chegar, mas quando ele aparece de Caca, barbudo, a gente não pensa no Miguel Falabella, a gente pensa na Caca, a gente fala a respeito da Caca. Porque com toda a loucura, até Caca tem sua própria história, sua mitologia, suas memórias sobre seus orgasmos e sobre a gola feita com seus pelos pubianos.

Episódios sobre as mulheres no passado do Vavá são clássicos. Começam sempre com as piadas sobre ele estar encalhado, e terminam sempre com ele sendo abandonado. O importante, no entanto, não é tanto a trama em si, e sim o que o texto vai manipular para seus propósitos de deboche e ironia. Magda vira A Apalpada do Arouche em menos de um minuto, mas com isso eles aproveitam para tirar um sarrinho da indústria da subcelebridade. Nada de didatismo ou crítica direta. Naquele mundo, a fama de Magda é apenas uma forma de ganhar dinheiro. A percepção de como eles reagem ao momento, fica por nossa conta. O Sai de Baixo nunca julgou nada, ele sempre achou muito mais legal deixar isso pra quem precisa, para quem deseja. Ele oferece material suficiente para te fazer só rir… Ou te fazer até reconsiderar.

Nessa mini-temporada, entretanto, o repúdio de Falabella pela existência de Marco Feliciano na presidência da comissão de direitos humanos, tem se refletido com mais força. Nesse episódio, ele foi até muito claro, dando voz à própria (e à minha) decepção, ao contemplar um Brasil à deriva do progresso, retrocedendo na direção de mais primitivismo.

Semana que vem é a última vez… Chega a doer o coração. Alguns podem achar que esse texto não é condizente com o espírito anárquico do programa, mas lhes digo uma coisa: esse texto é condizente com o amor. Eu amo tanto o Sai de Baixo, que só sei falar dele com a seriedade que ele merece. É como se sem querer, eu respeitasse seu princípio básico: eu estou sendo sério, para falar do louco… Eles são loucos, para falar do sério.

Eu me recuso a ser o garoto do adeus… Semana que vem é o último… Mas eu não vou me despedir.

Sai de Baixo’s World: Miguel não brincou com Arlete nenhuma vez. Eu esperava piadas com Copélia, mas enfim… Pelo menos como Caca, ele estava impagável. Numa entrevista com Marcia Cabrita, Xuxa contou que foi chamada para fazer a mãe de Caco, mas não pode aceitar. Na época, boatos davam conta de Marlene Mattos teria vetado a participação por não acreditar na linha criativa do programa (amorzinho de pessoa). Hoje em dia Xuxa se arrepende de mais da metade das decisões que foram tomadas em nome dela.

Sai de Baixo’s World: O episódio em que Caca conta sobre sua gola de pêlos pubianos é um dos que mais tirou o elenco do eixo, com crises de risos incontroláveis. Falabella chegou a repetir a história alguns episódios depois, causando ainda um certo descontrole. Essas crises geralmente aconteciam perto do final do episódio e ele mesmo nomeou o fenômeno como Síndrome do Quarto Bloco.

Sai de Baixo’s World: Como viver sem as piadas com a própria programação global? Magda ser a filha de Malvino Salvador me arrebatou. Nos tempos antigos, eles esbarravam na piada até com os concorrentes. Eles satirizaram o Programa do Ratinho, o programa de Marcia Goldsmith, fizeram piada com a novela cancelada de Fabio Junior e cantaram musiquinhas do fenômeno Chiquititas. E esses são só alguns exemplos.

Sai de Baixo’s World: “Zona Lost”.

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