A hora e a vez de Selina.

Spoilers Abaixo:

Todos vocês aqui devem conhecer uma série adolescente, do final da década de 90, chamada Dawson’s Creek. Quem não conhece, deve saber apenas que constantemente, ela era um pouco metalinguística, e usava o próprio universo seriado, para falar de si mesma. No último episódio da primeira temporada, Dawson e Joey tem um diálogo genial sobre o formato das séries, que parecem que vão mudar tudo no final da temporada, quando na maioria das vezes, não mudam nada.

Atualmente, vivemos uma luta constante contra a obviedade. Algumas séries afundam seu prestígio com ilusões de mudança, e provavelmente porque mudanças efetivas podem ser uma grande vitória ou uma ruína. No momento citado entre Dawson e Joey, eles acabam decidindo assistir o episódio final, simplesmente pela expectativa de que justamente naquele dia “alguma coisa possa realmente mudar”.

Talvez os roteiristas de Veep tenham tido a mesma conversa. Chegando na reta final da segunda temporada, era a hora de tomar uma decisão: continuar apostando em uma rede de constrangimentos para a protagonista, ou tentar um passo novo, que a colocasse sob outra perspectiva, e que inaugurasse novas possibilidades. Ao mesmo tempo em que Selina corria em nome dos próprios objetivos, nós corríamos de encontro à necessidade do indefinido.

Running, o penúltimo episódio da temporada, foi emblemático. Talvez produto de uma percepção de que um sintoma do esgotamento estava chegando. O oitavo episódio foi problemático e pela primeira vez ficou claro que numa posição como a de Selina, existe um limite – mesmo dentro do permissivo mundo da comédia – para o quanto se pode descer. Em algum momento, há de se ter um enfrentamento, e Running foi o começo de uma reflexão.

A disputa entre a Veep e o Governador Chung sempre foi um dos pontos altos da série. De uns tempos pra cá, com tudo que vem acontecendo com ela, parecia óbvio quem acabaria ganhando a corrida. Dan e Amy são os menos idiotas, e perceberam que poderiam estar do lado errado. A dois anos da campanha para a reeleição, começam as especulações sobre os adversários e os que apoiarão os candidatos.

Selina resolve trabalhar na surdina e marca uma reunião com possíveis doadores de dinheiro para uma campanha para presidente que ela pretende liderar. Esse é um caminho acertadíssimo do roteiro, já que ao mesmo tempo em que ela não consegue contribuir positivamente para a administração de POTUS, ela também não recebe dele nenhuma espécie de respeito. A decisão mais acertada seria não voltar no seu novo mandato.

A propensão natural da Vice para o ridículo também não ajuda. Ri muito com o acidente com a parede de vidro, mas ri mais ainda do quanto ela fica patética sob qualquer efeito entorpecente. Era importante que ela chegasse até algum tipo de apogeu nesse episódio. Tanto para ela quanto para os outros. Em Running ficou muito claro que seu staff não estaria tão disposto assim a continuar, e nem  ela mesma em continuar se flagelando com migalhas de atenção. A mulher vai para uma maratona onde não pode ganhar de um deficiente, mas também não pode perder para uma banana. Para completar, cede uma entrevista ao vivo, com o nariz sangrando. Selina está destruída, e sua conversa no carro com Amy, é definitiva: quando o presidente voltar para a reeleição, ela não vem junto.

Isso abre espaço para o incrível último episódio, que finalmente correlaciona o que tem acontecido com Selina ao governo do primeiro escalão. O que ela fez foi apenas a ponta do iceberg… Os erros na administração do presidente são notáveis e começam a gerar consequências. A palavra “impeachment” aparece na mídia, nas reuniões, e se torna uma ameaça presente. Para Selina, inicialmente, essas são possibilidades que não a afetam. Porém, o dia tem sua primeira guinada, com o presidente decidindo não concorrer à reeleição.

A notícia cai como uma bomba no gabinete. Selina não precisaria esperar seis anos (dois restantes do atual governo e quatro do governo seguinte), em dois ela teria sua chance. Ela não cabem em si e faz  como sempre: chama seu staff para contar vantagem. As cenas seguintes são maravilhosas. A notícia reverbera por todo lado, com ela e Gary se beijando, ele abrindo mão da viagem com Dana, Amy excitada com um status descente pela primeira vez e Dan decidindo parar de flertar com o apoio de Chung.

Veep então começa, nesse ponto, a trair as nossas expectativas, e a surpreender Dawson e Joey. A segunda guinada vem do centro da ignorância de Selina. Ela não segura a língua na boca e insinua sua vontade de candidatar. O candidato mais provável, óbvio, não curte, e vai mexer seus pauzinhos para se calçar. A alegria de Selina dura só algumas horas, e logo um boato da renúncia do presidente, torna a reeleição necessária para calar os opositores. E então o episódio dá um giro de 180º, levando todos os personagens a sentir o baque de suas expectativas frustradas.

Nesse ponto, tudo faz parecer que a regra das “mudanças fingidas” dos season finales também vai se aplicar aqui. Isso até o improvável acontecer e sermos presenteados com aquilo que sempre quisemos: uma aparição de POTUS. Claro que não é uma aparição em si… Mas foi a primeira vez que ele chegou perto, muito perto de surgir na nossa frente. E foi a primeira vez em muito tempo, que Selina pôde dar uma boa olhada na cara dele.

A expectativa da chegada dele ao gabinete foi sensacional. E caótica, como a gente queria. O escritório cheio de nerds, Ed enfrentando Sue, Dana indo tirar satisfações e levando uma cesta de queijos, Jonah sendo insuportável… Uma completa delícia. Fiquei dez minutos inteiros só rindo da pergunta de Selina quando Ben entra no gabinete sozinho, dizendo que o presidente está ali. E a decisão de mantê-lo longe das nossas visões, sozinho na sala com sua Vice, eu acho corretíssima. A tensão criada foi linda de se ver, e Julia encontrou novas camadas de Selina que acho que nem ela sabia que existiam.

O martelo no final, foi batido. O presidente resolveu realmente não concorrer e deixou o caminho livre para Selina tentar a presidência em dois anos. A pergunta é: a terceira temporada vai aguardar esse tempo ou começará a partir dele? Veep se prepara para um novo patamar, ou vai encontrar um jeito de adiar decisões tão grandes? Mal posso esperar pra saber… Mal posso esperar para mais aulas de constrangimento e vergonha. Em 2014 a gente se encontra aqui, pra saber qual o tipo de coragem que a série finalmente, vai ter.

The Shit Wing: Shippando muito Selina e Gary para a próxima temporada.

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