10 grandes competidoras estão de volta… E o resultado foi uma estreia capaz de superar sozinha toda a primeira edição do All Stars.
A primeira vez foi há anos atrás, no intervalo entre a quarta e quinta temporada. Estavam de volta nomes como Raven, Manila, Jujubee e Latrice… Havia tanta expectativa em torno dessa primeira edição que seria quase impossível correspondê-la. Porém, o que ninguém esperava é que o resultado do programa depois de exibido, seria o pior de toda a história do show. A ideia de separar as meninas por duplas diminuiu a temporada para apáticos seis episódios, que não tinham condições de julgar as habilidades de ninguém. Foi uma primeira edição fria e desengonçada.
Durante os anos, a possibilidade de uma segunda temporada do All Stars foi constantemente colocada em pauta. Em alguns dos reunions, uma ou outra das meninas acabava sempre falando no assunto e Ru fugia pela tangente. Sempre achei que o fracasso da primeira tentativa tinha feito os executivos do LogoTV recusarem completamente uma segunda temporada. Contudo, ao longo dos anos – e sobretudo após o fenômeno de popularidade alcançado entre a quinta e sexta temporadas – ficou mais claro que com a organização correta, um novo All Stars poderia dar certo. O público do programa crescia e pressionava cada vez mais.
Então, os primeiros rumores começaram ainda no ano passado. A segunda temporada do All Stars teria sido filmada logo após o fim das filmagens da sétima regular. O primeiro vazamento veio de um dos produtores demitidos após o fiasco do sétimo ano: ele disse em entrevista que estava empolgado para começar a produzir o segundo All Stars quando foi posto na rua. E adiantou: Alaska estaria nele. Curiosamente, o segundo e GRANDE vazamento partiu indiretamente da própria Alaska, quando um ex-namorado magoado começou a postar nos comentários das fotos dela no Instagram, uma lista de spoilers para ninguém botar defeito: Lista de participantes, novas regras, eliminações, twists e até o Top 3.
Quando o casting foi anunciado, o primeiro item dos vazamentos acabou se confirmando. Assistindo à premiere deu pra ver que outras coisas também se confirmaram e embora o sentimento perante isso fosse de frustração, o que RuPaul Charles fez foi providenciar uma estreia tão devastadoramente boa que qualquer – qualquer mesmo – possibilidade de tédio acabou sendo varrida das nossas vistas. A segunda temporada do All Stars voltou tão maravilhosa, que vai ser até difícil lembrar que o primeiro ano existiu algum dia.

Katya entrou primeiro, Detox depois e eu já estava hipnotizado pelo que essa segunda está fazendo com o próprio rosto. Roxxxy, que entrou em seguida, já pareceu ter encontrado a luz. E não porque emagreceu (numa dieta a base de ódio por Jinkx Moonson), mas porque uma energia diferente emanava dela desde o primeiro momento. Com Detox e Roxxxy juntas, a iminência da reunião do Rolaskatox era inevitável. Porém, Alaska já aprendeu essa lição faz tempo.
Alyssa e Coco completaram o número de integrantes da quinta temporada. Um exagero para uma temporada All Stars. Coco não tinha a menor necessidade de estar ali. Ela não tem NADA a oferecer para o programa e sua passagem por ele (mesmo na temporada regular) só será lembrada por causa de Alyssa, essa sim, talentosíssima e fonte interminável de memes e frases inesquecíveis. Alguém das seasons 1 ou 3 poderia ter facilmente tomado seu lugar e aumentado ainda mais o nível da competição.
Então, as subversões começaram. O maior medo de qualquer fã do programa era que Ru mexesse demais nas regras e estragasse essa edição também. Porém, já no primeiro bloco ficou claro que embora houvesse mudança, ela não afetaria demais a dinâmica do show, apenas recolocando as peças em polaridades opostas. Já sabemos que a ordem dos desafios clássicos mudou quando o da “leitura” aconteceu já na estreia e o próximo episódio já foi anunciado como Snatch Game. Sendo assim, apesar da troca de posições, os desafios que conhecemos e amamos estão ali e isso aumenta muito a sensação de credibilidade e conforto.

Ru afirmou na sua entrada que escolheu meninas que tinham o que provar ao público e ela tem razão nisso em quase todas as alternativas. Alaska precisa mostrar independência, Phi Phi precisa reverter sua imagem de vilã, Tatiana idem, Alyssa e Coco precisam mostrar que existem numa competição sem foco em seus históricos e Katya e Ginger são grandes talentos de uma temporada condenada ao poço de piche. Os casos mais interessantes são de Roxxxy, que foi, sem dúvida, uma das drags mais rejeitadas da história do show e de Adore, uma das não-vencedoras mais bem sucedidas do mercado. Roxxxy porque é uma das poucas que admite que a edição não manipulou nada e Adore porque não precisa provar nada a ninguém e nem devia estar ali. Sobra Detox, o elo mais descontextualizado do elenco.
Outra grande decisão foi a de providenciar um show de talentos para o começo do jogo. Esse é um time de meninas que já está na estrada há muito tempo e que viu de perto o que a passagem pelo programa pode fazer. Ao organizar o show de talentos, Ru quis saber delas o que elas eram capazes de mostrar ao público em termos de aprimoramento e evolução. E funcionou PERFEITAMENTE. Vamos aproveitar, inclusive, e falar um pouco sobre cada um dos números:
Katya: Parece improvável que uma drag como ela, que já enfrentou vícios e gosta de trabalhar com o trash e o vulgar, tenha tido disciplina na vida para exercícios. Mas, Katya mostrou que não é previsível e se saiu muito bem com o número de ginástica.
Ginger: Cantou lindamente, mas escolheu uma música que não tinha muito a ver com o clima do momento. De todas que cantaram, aliás, ela foi de longe a melhor.
Detox: Anunciou o número como de canto, mas trouxe uma parafernália visual que fez toda a diferença. Ser criativo diante de uma limitação é importantíssimo.
Alaska: Estava seguindo a mesma linha. Não sabe cantar, mas sabe usar sua personalidade para superar o obstáculo. Alaska é sempre carismática.
Alyssa: Alyssa é uma estrela. Veio com um número prontinho, trabalhado na mitologia da corrida e cheio de dança e charme. Ela é extremamente competente no que faz.
Phi Phi: Ginger já tinha avisado que cantar sem nenhum acompanhamento ia ser mortal, mas lá foi a doida tentar. O momento serviu ao menos para Coco dar ao episódio sua maior contribuição: o momento hilário em que aparece dizendo no meio do número “girl, find the note… find the note”.
Coco: Tudo errado. Simples assim.
Adore: Chegou animada e não cantou tão bem assim. Adore é uma das protagonistas de Rusical, um dos momentos mais catárticos da história da corrida e vê-la cantar sem brilho frustrou o seu público também.
Roxxxy: Continuou com a boa energia e usou charme e carisma para um número burlesque que parecia não ter nada demais, mas era bem feito e divertido. Ela parecia feliz e à vontade, o que fez a apresentação parecer ainda melhor.
Tatiana: A grande surpresa do dia. Por ter participado da segunda temporada, Tatiana era uma incógnita em tudo. Foi extremamente surpreendente que ela tivesse escolhido o estilo spoken word para embasar seu número e ainda o tivesse executado com movimentos e expressões calculadíssimas. Realmente difícil não gostar.
Após as apresentações, as meninas esperavam por um bottom 2 que não viria nos mesmos termos. Ru deu a notícia de que as duas melhores dublariam e a vencedora mandaria uma das piores embora… O choque delas já começou a estabelecer o ritmo dali por diante. Nós, em casa, sabíamos que Coco, Adore e Phi Phi não tinham ido bem e de súbito, estava pronta a tensão que Ru pretendia para a edição: a vencedora do lipsync é um elemento essencial para definir qualquer previsão. E é um marco também. Se Detox estivesse no bottom, Roxxxy teria coragem de continuar sendo justa e a mandaria embora?
Daí pra frente o episódio só ficou mais delicioso… Ru anunciou as melhores, as piores e fez o movimento mais genial de todos: mandou as meninas para os bastidores para deliberar e ficou na bancada com os jurados, tomando coquetéis e contando histórias. A inversão de papeis já seria sensacional sozinha, mas a edição de imagens ajudava ainda mais a sublinhar a beleza do movimento: nessa edição, as meninas teriam que pensar como júri. Isso é incrível do ponto de vista narrativo e já começou ensinando boas lições a elas.

Roxxxy e Tatiana aproveitaram cada momento do twist e foram um presente para os editores. As deliberações nos bastidores reforçaram a inteligência desse elenco e o quanto elas estão dispostas a fazer valer esse retorno. Foi especialmente interessante acompanhar a forma como Adore vai percebendo que voltar pode não ter sido a melhor decisão. Independentemente de seu estilo (que deve ser respeitado sim), ela estava mal vestida e não foi bem no show de talentos. Detox deu informações relevantes sobre o histórico entre ela e Michelle, apontando um problema clássico da jurada: ela tem problemas de compreender transgressões no modelo estabelecido. Porém, nesse caso, Adore estava muito aquém do seu verdadeiro potencial.
Por fim, no ótimo lipsync entre Roxxxy e Tatiana, a primeira tomou vantagem e ganhou o direito de eliminar alguém. Esse alguém acabou sendo Coco, o que também confirmou mais um item da lista de spoilers liberados no ano passado. Foi uma eliminação justíssima, daquelas que anunciam uma boa temporada e que já vão tirando a gordura desde cedo. O problema é o twist da vingança, que pode trazer Coco de volta. Se outras puderem participar, melhor. Um All Stars como esse merece uma condução regular. Ao final do episódio, a sensação de alegria era tão grande que deu vontade de pular na sala… RuPaul’s Drag Race está próxima dos dez anos de existência e mostra consecutivamente, que sabe fazer seu público delirar e se orgulhar de cada minuto em frente a TV.
Justice For Ornacia: Alaska e Adore mexeram tanto na boca, senhor. Ficou bom, não.
Justice For Ornacia 2: Apenas amei a entrada de Laganja na sexta temporada virando bordão. Foi usado três vezes no episódio e me matou de rir em todas.
Justice For Ornacia 3: Katya fazendo piada com o abandono sofrido por Roxxxy… Ela talvez seja a única capaz de fazer isso sem cair no erro.
Justice For Ornacia 4: Adore dizendo que os jurados não podiam julgar a roupa que Bianca escolheu pra ela… Bianca em cada pensando: “ela quer que o público saiba que quem escolheu a bosta da roupa não foi ela, que a culpa é minha… not today satan, not today”
Justice For Ornacia 5: O ritual das caixinhas de batom foi uma ÓTIMA sacada.















