Há algo estranho acontecendo no reino da Logo TV.

Tem uma coisa que sempre vai fazer sucesso em séries de nicho: brincar com a própria mitologia. Após o sucesso estrondoso da 6ª temporada de RuPaul’s Drag Race, já estava na hora de revisitar momentos importantes e um tanto nublados do reality. Sim, é mais um, maaaaais um, challenge de comédia em grupos. Mas esse, ah, esse é especial. Nos moldes de programas que reencenam casos verídicos, como o Linha Direta (meu conhecimento sobre séries estadunidenses do gênero é quase inexistente), as queens teriam que interpretar RuPaul, Michelle Visage e Merle Ginsberg em três versões de Whatever Happened to Merle Ginsberg para o RuHollywood Stories. Para quem não lembra, a doce e discreta Merle Ginsberg era jurada nas duas primeiras temporadas de RuPaul’s Drag Race, e foi substituída a partir da 3º temporada pela nossa amada e ferina Michelle Visage.

Ginger Minj venceu o minichallenge que só serviu para botar umas duas dúzias de homens de cueca em cena, e escolheria o próprio grupo e os outros. Como uma ótima estrategista, escolheu Katya e Kennedy Davenport como parceiras para contar a história de Merle, e criou dois grupos obviamente instáveis e sem química: Max, Kandy Ho e Violet Chachki para contar a versão de Michelle, e Jaidynn Diore Fierce, Miss Fame e Pearl para a versão de Ru. Esperta, a Danny deVito das drags. Não houve nada de muito relevante na workroom, mas nos ensaios houve a crise de pânico de Jaidynn, completamente insegura, e Miss Fame, que queria fazer um debate emocional tão fora de hora que Ross Matthews, que dirigia os vídeos, disse que se sentia como se namorasse ela. Não é pro teu bico, Ross. No mais, tudo correu como o esperado: um pouco conflituoso, e todo mundo meio de saco cheio de ter que trabalhar em equipe.

O roteiro dos vídeos não eram de muita qualidade (já sofremos com isso no episódio 3), mas os resultados finais foram muito bons.

Whatever Happened to Merle Ginsberg: Merle’s version

Team Ginger

Kennedy Davenport como RuPaul

Kennedy

O papel de RuPaul era o menos instigante em todos os challenges, e Kennedy foi quem fez melhor – mas ainda assim não foi tão bem quanto suas colegas de equipe. Tirando a cena dela chegando de bicicleta no estúdio (eu ri pra caralho disso), foi algo bem morno. Agora, que porra era aquela na runway? Cavalo? Galinha? Vivacious? Para criar uma história no entorno da roupa (ó, já começou aí o erro), Kennedy disse que o seu parceiro botou fogo nela para que queimasse até a morte, mas ela sofreu um processo de cristalização e virou uma Glamazon que ressurgiu do mundo dos mortos. Esse background é genial, criativo, poderoso… e, na passarela, centenas de milhares de espectadores incorporaram Michelle Visage, balançaram o dedo e disseram “…No”.

Katya como Merle Ginsberg

Katya

Nossa amada Katya fez uma atuação sólida como Merle. Sua interpretação avoada e inocente teve um ótimo equilíbrio com a evil Michelle de Ginger. Na runway, Katya foi fiel ao seu estilo e desfilou hilária e poderosíssima com aquele tubarão de pelúcia na perna.

Ginger Minj como Michelle Visage

Ginger Minj

Junto com Katya, Ginger foi a responsável por fazer com que sua equipe fosse a melhor como um time. Foi dissimulada, foi cruel, foi dark-sided Michelle Visage, e, mesmo com um sotaque sulista que Michelle não tem, foi quem mais brilhou no grupo.

Na runway, Ginger quis homenagear seus companheiros bears e apareceu comida por um urso. Achei criativo e ela estava bonita, e combinou com os ataques zoológicos que mataram seu grupo – Ginger virou almoço de urso, Katya era jantar de tubarão e Kennedy era um híbrido entre cavalo e galinha que morreu dentro daqueles fornos que o bicho fica girando e pingando banha.

Whatever Happened to Merle Ginsberg: Michelle’s version

Team Max

Kandy Ho como RuPaul

Kandy Ho

Kandy Who No Ho não foi um completo desastre como RuPaul porque ela tem um pouco de presença e força de atuação, mas nada a salvaria do bottom 2 nesse challenge. O grupo em si não tinha nem um pouco de química, e Kandy foi quem mais se prejudicou por isso – claro que os erros que ela cometeu sozinha se sobressaíram. A barba voltou, e trouxe junto as costeletas.

Kandy Seu Madruga

Na runway, Kandy não estava mal, mas de longe era a pior. Primeiro, ninguém entendeu como ela morreu (virar vampira é diferente de morrer, né?), e o tema era Death Becomes Her, não Halloween. Segundo, vampira? Em 2015? Será que a moda chegou tarde em Porto Rico?

Violet Chachki como Michelle Visage

Violet Chachki

Violet tentou fazer uma boa Michelle, mas não conseguiu entrar no timing correto e ficou bastante deslocada. Contudo, qualquer erro é perdoado por causa da runway mais impactante e do caralho dos últimos tempos.  Ela levou tão a sério o tema Death Becomes Her que fez algo que poderia atentar contra a própria vida, e guuurl, Ariana Grande nos representou com seu sonoro “oh my god!”. Sem dúvida, já entrou para a herstory de RuPaul’s Drag Race.

Max como Merle Ginsberg

Max

Como alguém com background de atuação, Max criou uma Wicked Merle Ginsberg of the West na história contada pela Michelle Visage. Apesar de envelhecer Merle uns 30 anos, ela contornou bem os problemas do grupo e foi uma das que melhor entenderam o desafio. Na runway, vimos o look que tanto nos impressionou nos trailers da sétima temporada. Foi lindo, conceitual, assustador e, o que mais gosto, com uma história muito legal por trás. O que eu lamento é que esse tema tão maravilhoso que era Death Becomes Her foi usado em um episódio no qual as drags eram julgadas em grupo, porque a qualidade estética e artística de Max e Violet na runway acabaram importando em nada no resultado.

Whatever Happened to Merle Ginsberg: Ru’s version

team Pearl

Miss Fame como Merle Ginsberg

Miss Fame

Cruzes, que coisa ruim. Diferente de Kandy Ho e Jaidynn Diore Fierce, que fizeram atuações ruins, mas ao menos naturais, Miss Fame não conseguiu dar vida a Merle. Suas falas pareciam um jogral, e ela não deu nenhuma personalidade à interpretação – o que ficou ainda mais evidente quando contracenou com Pearl, que mergulhou de cabeça na caracterização de Michelle. Na runway, ela desfilou com uma faca na cabeça, enfiada pela esposa do amante dela. E, mesmo com um tema tão original, vi mais do mesmo em Miss Fame. Não tá legal.

Jaidynn Diore Fierce como RuPaul

Jaidynn

Apesar de estar completamente atrapalhada no vídeo e não ter feito um bom trabalho, é preciso reconhecer os bons momentos de Jaidynn como RuPaul. Não sei até onde era interpretação ou realidade, mas a tensão em frases como “you two… should talk” foi interessante. Mesmo quando fracassa, Jaidynn Diore consegue se manter Fierce. Mas, de resto, foi ruim. Já a runway de Jaidynn ficou abaixo do padrão porque o tema era, em português, “A Morte Lhe Cai Bem”. Apesar da história interessante sobre sua morte, a roupa de presidiária rasgada fez com que ela não ficasse bem morta (não “bem morta” no sentido “bastante morta”, mas no sentido de Sangalo Schneider glamourosa no caixão).  Contudo, aquela espécie de fascinator feita de arame farpado e a maquiagem eram MARAVILHOSAS. Poderia ter trabalhado um pouco mais no glamour que apresentou no rosto e estendê-lo ao resto da roupa.

Pearl como Michelle Visage

Pearl

De longe a melhor do grupo. Não que ser a melhor do grupo represente grande coisa quando se estava ao lado de Jaidynn e Miss Fame, mas Pearl fez uma ótima Michelle rouca, bitchy e briguenta. Adorei ela brigando com a Merle da Miss Fame, batendo a mão nos peitos e fazendo um “cai pra cima, mano”. Sem dúvidas, a atuação que mais me agradou. Na runway, Pearl foi eficaz como alguém que fez procedimentos cirúrgicos em excesso e morreu mais repuxada que a Detox. Originalmente ela “morreria” por excesso de bronzeamento, mas precisou usar essa ideia no 4º episódio, aquele que todos nós queremos esquecer que existiu. O único porém é que a “morte” de Pearl não me parece muito com a minha percepção da proposta dela, mas isso não me incomodou tanto.

Na banca de jurados, mesmo com uma estrela como Ariana Grande irradiando fofura e Nickelodeon realness, Merle e Michelle lado a lado roubaram o spotlight. Apesar dos ótimos shades que uma jogava em cima da outra, a edição perdeu um pouco a mão e fez com que Michelle parecesse bastante desconfortável em alguns momentos. Mas aqui não é RuPaul’s Best Friends Race e muito menos Merle’s & Michelle’s Shade-Throwing Race, então foquemos na coisa mais importante depois de Merle Schneider e Michelle Santrelly: quem ganha, quem sai e quem fica. Obviamente o time de Ginger ganhou, e Katya foi consagrada a vencedora do desafio. Eu até poderia ficar de mimimi porque Ginger foi melhor ainda, mas imagino que a runway foi um fator determinante para a vitória da russa mais brasileira nesse reality americano. E já estava na hora de Katya ganhar um challenge para ganhar embalo na competição. Ela era a melhor? Não, mas foi quase uma vitória de reconhecimento pelo trabalho que ela vem mostrando. Se tu aí lendo continua meio com o pé atrás, lembra que a gente viu Julianne Moore finalmente ganhar o Oscar por uma performance que não é a melhor da carreira.

O bottom 3 da semana foi, previsivelmente, Kandy, Jaidynn e Miss Fame. As três pisaram feio na bola, e todos nós já sabíamos que Kandy teria que lypsinc for her life e que provavelmente seria eliminada. No fim, as dificuldades de Jaidynn e o look questionável acabaram salvando Miss Fame.

A música era Break Free (e não poderia ser outra), da jurada Ariana Grande, o que levou a um lipsync muito bom e cheio de energia. Kandy foi quem melhor entendeu a música, mas Jaidynn não ficou pra trás ao requebrar, pular e tentar uma pirueta que não deu certo. E, no fim, ouvimos o que já deveríamos ter ouvido há tempos: “Kandy Ho, sashay away”. Achei ela querida e positivamente bitchy no fim do episódio dizendo que vai voltar pra Porto Rico e esfregar na cara das outras queens que ela participou do reality e as outras não, mas não fará nenhuma falta. O único motivo que faz com que Kandy possa ser lembrada é por ser uma das poucas latinas que não escreveram “Echa Pa’Lante” no espelho.

E no fim sobraram oito. O peso morto vai ficando pelo caminho. E adiós, Felicia.

xX07: Snatch Game

SNAAAAAAAAAAATCH GAAAAAAAAAAAAAAAME!!!!!!!!!!! Até que enfim chegou a vez do challenge mais querido dos fãs de RuPaul’s Drag Race. E não poderia vir em melhor momento, afinal, depois de tantos desafios em grupo, já está na hora de ser cada queen por si.

Sabíamos através do Whatcha’ Packin’ e de entrevistas que, se ainda estivessem competindo, Tempest DuJour faria Big Ang Raiola (sorte da Pearl que eliminaram minha amada Tempest tão cedo), Sasha Belle faria a médium Theresa Caputo, Jasmine Masters faria BoJack Horseman NeNe Leakes, Mrs. Kasha Davis faria Liza Minnelli e há um rumor que Trixie Mattel não confirmou nem desmentiu que ela queria fazer a Anne Frank. Antes de prosseguir, duas coisas: 1) prefiro acreditar que Trixie estava só zoando, e 2) se tu não é a Sarah Silverman, NEM PENSA EM TOCAR NO ASSUNTO EM UM DESAFIO DE COMÉDIA.

Bom, com tantas queens criativas e fora do padrão como Max, Pearl, Miss Fame e Violet Chachki, não tinha a mínima ideia do que poderia vir, mas sabia que qualquer escolha me pegaria de surpresa, para o bem ou para o mal. E logo já deu confusão porque Miss Fame e Violet queriam interpretar Donatella Versace – e aí veio uma luz que me fez concluir que, em uma temporada cheia de drag queens ligadas à estética e moda, era mais do que óbvio que teríamos madame Versace, aquela que já vestiu Penélope Cruz, Catherine Zeta-Jones e agora qualquer um de nós proletários com a exclusivíssima coleção Versace for Riachuelo. E aí tivemos quatro capítulos dessa novela:

1) Ambas  interpretarão Donatella Versace;

2) Miss Fame desiste de Donatella para ser Theresa Caputo, Violet continua com Donatella;

3) Ru chega pra Miss Fame e diz que uma coisa é ser gente fina e abrir mão de algo em prol de alguém e outra é correr atrás da vitória (RuPaul didático, ensinando que a vida é andar em paralelepípedo com salto agulha), e a convence para voltar ao plano original;

4) Ru chega pra Violet, fica meio meh com a interpretação de Donatella, curte mais a Alyssa Edwards que ela tinha como plano B e a convence para desistir do plano original.

Enquanto isso, no esquadrão Irene, Ginger e Katya tentam convencer Kennedy a interpretar Sweet Brown (mais conhecida como uma das rainhas da internet mundial) após ela dizer que está tentada em interpretar o cantor Little Richard. Sim, O cantor. No masculino. Um homem. Tá certo que o Little Richard está muito próximo de ser uma drag queen, assim como o Cauby Peixoto aqui no Brasil, mas Katya lembra muito bem que “snatch… vagina…!”. Ru deixa a escolha para Kennedy, e ela continua em dúvida, mesmo já preparando sua latinha de cold pop, sobre quem escolherá. E, no fim, Kennedy got no time for Sweet Brown e decidiu ser o gênio da música americana. O gênio. No masculino. Então tá.

Como participantes do Snatch Game, tivemos a cantora Tamar Braxton (irmã da Toni, e feita com maestria pela Roxxxy Andrews no Snatch Game da 5º temporada) e o ator Michael Urie, mais conhecido pelo trabalho como Marc St. James em Ugly Betty. It’s time for Snatch Game! Let’s meet (and read to filth) our stars?

Snatch Game

1) Max – vencedora da 4º temporada de RuPaul’s Drag Race Sharon Needles no novo filme da Disney “A Princesa Que Escondia o Pênis”, dirigido por Tim Burton

Regra nº 1 do Snatch Game: MAKE IT FUNNY. Apesar de visualmente impecável, Max errou. Errou feio, errou rude, errou violentamente, errrrrrrroooooooooooooouuuuuuuuuu! O erro já começou na escolha da personagem: Sharon Needles é engraçadíssima, mas muito difícil de interpretar – ou melhor, de satirizar. A vencedora da quarta temporada tem poucas frases de efeito memoráveis, e Max tentou fazer humor em cima de uma versão Disney de Sharon, e não tanto sobre a personalidade. Mesmo que fizesse piadas sobre perder o título de menor cintura do reality para Violet ou sobre seu relacionamento com Alaska, a escolha foi errada. Aliás, se Max interpretasse Alaska, poderia ser muito mais proveitoso e fácil de fazer.

2) Jaidynn Diore Fierce – atriz Raven-Symoné

Para interpretar Raven-Symoné, Jaidynn fez a melhor escolha possível para o personagem ao misturar a Raven da vida real e a Raven Baxter de As Visões da Raven. Discordei da opinião dos jurados quando eles reclamaram sobre os carões que ela fazia na hora que tinha a “visão” da resposta ficarem chatos e excessivos na medida em que o Snatch Game progredia, porque, afinal, tudo isso compunha a interpretação. O problema é o que vinha depois da visão: Jaidynn não conseguiu ser engraçada ou dar respostas muito inteligentes e divertidas. Ela tentou ver o futuro, mas Ginger usou seus poderes psíquicos melhor para concluir o óbvio: “you might be lipsynching for your life tomorrow, baby”.

3) Katya – apresentadora de televisão Ana Maria Braga e consultora financeira Suze Orman

Apesar de ter dito que nunca havia interpretado Suze Orman antes, Katya esteve muito à vontade e desenvolta, conseguindo interagir e brilhar mesmo nos momentos em que os outros estavam respondendo. RuPaul achou curioso que Katya ainda não fez nada com o sotaque russo que compõe sua personalidade drag, mas quem ela poderia interpretar? Vladimir Putin? Mesmo que seja o sonho de todo mundo ver uma versão drag do presidente homofóbico da Rússia, antes uma Suze Orman divertida do que alguma celebridade desconhecida.

4) Violet Chachki – a estrela da websérie Alyssa’s Secrets e participante da 5ª temporada de RuPaul’s Drag Race Alyssa Edwards

Ainda bem que Ru recomendou que Violet interpretasse Alyssa no Snatch Game. Ela foi além dos estalos com a língua e imitou o queixo inexistente, as reações estranhas com o rosto e as mãos e o tom de voz de Alyssa. Max deveria ter aprendido com Violet que certas drag queens são melhores de interpretar do que outras.

5) Pearl a rainha do bumbum Gretchen a estrela do reality show Mob Wives Big Ang

Pearl era uma das drags que eu mais tinha curiosidade de ver no Snatch Game, porque eu não tinha a mínima ideia de quem ela poderia interpretar. Ela escolheu Big Ang Raiola, sobrinha de um dos chefões da Genovese Crime Family e uma das estrelas do reality Mob Wives, sobre famílias ligadas à máfia ítalo-americana. A voz rouca e áspera estava ótima, a caracterização foi deliciosamente exagerada e as respostas foram engraçadíssimas, e Pearl, quem diria, foi uma das melhores no Snatch Game.

6) Miss Fame – estilista e empresária Donatella Versace

Quando Violet e Miss Fame entraram em conflito porque as duas interpretariam Donatella Versace no Snatch Game, eu gostaria de estar lá para recomendar que ambas desistissem da ideia. Todo mundo lembra da estética de Donatella, mas quase ninguém lembra de sua voz ou de suas atitudes. E aconteceu o óbvio: Miss Fame estava fisicamente idêntica à chefona da Versace, mas fez uma interpretação falha, vazia, sem graça e com um sotaque russo e Yekaterina Petrovna Zamolodchikova realness ao invés de italiano. E não é que Miss Fame não seja engraçada (ela se saiu muito bem no DESPY Awards, por exemplo), mas as suas claras tentativas de mostrar algo além da beleza raramente dão resultado. Péssimo, péssimo, péssimo.

7) Kennedy Davenportvilão do novo filme do Austin Powers  Damon Wayans imitando James Brown em Eu, A Patroa e as Crianças a lenda do rock’n’roll Little Richard

ENTÃO… Kennedy decidiu interpretar um homem no Snatch Game. Alaska fez algo semelhante no challenge do programa infantil na quinta temporada e foi criticada, Milk era RuPaul out of drag em uma runway e também foi criticada. Por isso, tive um problema grande com a escolha da Kennedy. Claro, Little Richard é uma figura tão extravagante e ambígua na questão de gênero, então não é como se Kennedy tivesse feito Elvis ou Obama. Contudo, ela não escolheu o personagem porque combina com o seu estilo drag, e sim por falta de ideias melhores – e, a partir disso, ela transformou a escolha em algo “propositalmente desafiador”. E, mesmo não gostando da Kennedy, ela fez um trabalho perfeito. Foi engraçado, perspicaz e agradável de assistir. Ela tentou nos enganar com a escolha, e, olha, admito com um recalque gigante que foi um sucesso.

8) Ginger Minj – cantora Adele

É complicado dizer que Ginger fez algo no nível Chad Michaels, Jinkx Monsoon ou BenDeLaCreme, porque esse Snatch Game foi um tanto morno. Apesar de achar as piadas com comida algo extremamente batido e dentro da zona de conforto de uma big girl, Ginger trabalhou muito bem usando o viés melancólico das músicas da Adele, além de seus vários prêmios. Não entendi muito bem o desenvolvimento do personagem como alguém atrapalhado e avoado, mas vários dos melhores momentos do Snatch Game aconteceram a partir disso (“where in England are you from, Adele?” “My house!”). E, quando disse para a personagem de Katya “I love you, Justin Bieber”, foi a responsável por fazer com que a dentadura da Tamar Braxton caísse.

Tamar Braxton

Um pouco antes do encontro com Ru e os jurados, conhecemos um lado vulnerável da nossa amada Katya. Além dos problemas com crises de ansiedade, ficamos sabendo que ela é uma ex-dependente química em recuperação, e que está sóbria há um ano e meio. Katya procura Miss Fame sóbria há nove anos, para buscar conforto, e aí ocorre uma das conversas mais profundas e emocionantes que já vi no programa. Para quem conhece de perto as dúvidas e sentimentos de um ex-dependente químico, é fácil reconhecer e identificar casos naquele diálogo sobre como cada dia é um dia de luta, e como é complicado ter esses problemas e estar longe do teu porto seguro. A insegurança de Katya é compreendida por Miss Fame, que, extremamente carinhosa e solidária, faz com que Katya se sinta amada e recupere um pouco da estabilidade e autoconfiança. Ambas ganharam um espaço maior no meu coração de fã.

Nessa runway, o tema era Leather & Lace (Couro e Renda). Os maiores destaques positivos foram Katya linda como nunca em um vestido deslumbrante, Violet dominatrix, Ginger toda de branco servindo Elvis Presley realness e Max seguindo o conselho de Michelle ao usar uma peruca preta ao invés de grisalha, para deleite dela e mimimi do Ross Matthews. Pearl e Violet foram declaradas safe, e Kennedy e Ginger foram as vencedoras no primeiro empate na herstory do Snatch Game.

Max, Jaidynn e Miss Fame compuseram o bottom 3 da semana. Enquanto ouvia a crítica negativa de Michelle sobre sua performance fraquíssima no Snatch Game, Max sentiu-se mal e precisou tirar o corset. Aí veio um momento estranho, no qual ela, sentada na escadinha da runway, começou a cantarolar uma música de A Star is Born. A edição fez com que parecesse algo descabido e talvez uma atitude meio attention whore de Max, mas ela afirmou nas redes sociais que, enquanto estava lá sentada, Ru teria pedido para que ela cantasse algo do Mágico de Oz, e ela escolheu outra música. Não sei muito bem o porquê de Ru ter pedido para ela cantar, mas tu não pode editar de modo que pareça algo vindo do nada. Foi mais uma falha dentre as inúmeras na edição dessa temporada, e talvez a mais desonesta. No fim, Miss Fame foi salva mais uma vez (injustamente, porque foi a pior no Snatch Game), e aí Jaidynn estava de volta ao bottom 2 acompanhada de Max.

A música do lipsync era No More Lies, de Michel’le, e quando elas começaram a dublar já ficou claro que deveríamos nos despedir da drag mais interessante da temporada. Não só porque Jaidynn  fez uma ótima dublagem, e sim porque a música não tinha nada a ver com Max, que não conseguiu empolgar no lipsync. Contudo, mesmo com essa sensação derrotista, fiquei em choque ao ouvir “Jaidynn Diore Fierce, shantay you stay”. Max tinha ganhado dois challenges, e no seu primeiro grande erro foi eliminada. E vocês sabem que lipsync na grande maioria das vezes não significa nada, porque normalmente quem sai é a queen com menos a oferecer. Claro, há casos que há uma clara vencedora do lipsync (a insossa Kandy Ho eliminou a ótima Tempest DuJour no primeiro episódio), mas quando não há um grande destaque, a gente sempre sabe quem shantay e quem vai sashay away. Não estou subestimando Jaidynn, porque ela é bastante talentosa, mas fiquei sem palavras ao ver Max sashaying away e não podendo mostrar seu potencial gigantesco.

O que me conforta é Max vai fazer muito sucesso, e nem uma eliminação na metade da temporada vai atrapalhar isso. Contudo, Max fora do reality é mais uma evidência de que tem algo muito estranho acontecendo em RuPaul’s Drag Race.

Bom, após o choque da saída de Max, RuPaul anuncia que ele cometeu um terrível engano ao eliminar cedo demais uma das drag queens. E, no próximo episódio, saberemos quem foi a injustiçada. Ou melhor, confirmaremos, porque a chance de não ser Trixie Mattel é praticamente nula. Por causa dessa certeza, não consigo assimilar a estupidez de fazer com que os fãs encham o Twitter com as hashtags #TeamFulana e #BringBackMyQueen. A temporada foi gravada NO MEIO DO ANO PASSADO, DO QUE ADIANTA ISSO? Sim, é mais do que óbvio que essas hashtags só servem para impulsionar o reality na internet, mas não tratem nós fãs como idiotas, façam-me o favor. Pessoal que administra a comunicação online na Logo TV, sashay away.

P.S. 1: Um obrigado inversamente proporcional ao tamanho da cintura da Violet para o Aleph, que me deu a oportunidade de cobrir o único reality que assisto e que gosto para o Série Maníacos.

P. S. 2: Fazer essa review aumentou minha ansiedade para o show da Adore Delano nessa quarta aqui em Porto Alegre. PARTY!

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