Mesmo sem uma narrativa definida, a temporada da Drag Race continua tendo bons momentos.
Antes de qualquer coisa, preciso me desculpar por ter sido negligente com a cobertura da Drag Race. A minha vida tem estado muito corrida e fazer review semana a semana virou um negócio bastante complicado. Mas, sigo tentando… Como um número grande de episódios já se passaram, vou fazer uma análise geral e comentar somente os pontos mais importantes. Com a ajuda de Nossa Senhora das Drags eu vou conseguir seguir corretamente daqui por diante.
A chamada desse texto diz que a temporada ainda não encontrou uma narrativa definida. Essa questão é controversa entre os fãs de realities de habilidades, uma vez que uma pequena parcela deles acredita que o drama não pode ser o mais importante numa produção desse tipo. Ao mesmo tempo, as temporadas mais marcantes de qualquer reality são aquelas que tem um fio condutor, promovido por uma rivalidade, por um romance, por uma amizade, por qualquer ligação que perdurasse e evoluísse, como nos capítulos de uma dramaturgia.
A décima quarta temporada da corrida ensaiou uma rivalidade entre Kornbread e Jasmine. O que levou as duas a se estranharem no episódio 4 foi a boa e velha necessidade de aparecer na edição. É um ciclo de egos, só que em direções diferentes. Silky, no passado, estava determinada a estar em todos os frames e não demorou para isso começar a irritar Yvie. Assim, para criticar uma queen que quer aparecer demais, você também acaba cavando seu excesso de aparições. E Jasmine tem uma energia totalmente Jan, totalmente Laganja… aquela típica queen que veio com TANTA vontade que acaba atropelando tudo.
Era evidente que o desafio de paródia seria uma realidade nesse começo de temporada. Eles estão sempre à espreita nos primeiros episódios e quem me segue aqui sabe que eu tenho horror deles. São desafios que exigem apenas gritos e que tem sempre um texto horrível. Porém, dessa vez, fui surpreendido com uma ideia original: a paródia do próprio Untucked. Com cortes muito rápidos e bastante dinamismo, o desafio teve bons momentos e deu chances a todas de se destacarem e mostrarem seu timing de comédia.
Claro que timing de comédia não se aprende. É até injusto que isso seja cobrado delas, porque assim como a habilidade de cantar, não dá para aprender a ser engraçado. Você é ou não é. O que você pode fazer é treinar um ou outro truque que te salve. Algumas meninas fazem isso e respiram aliviadas, outras só estão interessadas em passarela e ficam no caminho. Kerri, por exemplo. Na maravilhosa passarela de JLo, Kerri provou que não estava de brincadeira. Mas, não é toda menina que dá a sorte que Courtney Act deu. Maddy, por outro lado, foi um bom exemplo de alguém que não tem o humor, mas que soube dar o truque. Ser uma boa capitã também foi uma estratégia.
Talvez – se forçarmos um pouco – Maddy seja um dos norteadores dessa temporada. É só porque ela é a persona de um homem hetero? Sim. Mas, não deixa de ser uma participante que estamos sempre rastreando. Willow é outra, aliás. Quando ela disse na passarela que tinha escolhido aquele vestido de JLo porque “ele era um pouco feio”, eu pensei: “RuPaul gosta muito dela. Essa participação não vai ser impune”. Além do extremo talento, há uma energia de vulnerabilidade em Miss Pill que a aproxima da audiência… Isso pode ser ouro nas mãos se ela souber administrar.
A saída de Alyssa era mais que esperada. Alyssa é uma daquelas meninas que chamo de “retardatárias”. Elas não vão ganhar, mas precisam estar ali para se descobrirem e para construírem o ritmo da temporada. Alyssa não tinha nada mais para oferecer, enquanto Kerri já merecia uma nova chance só por ter usado o vestido original de JLo na passarela. Mas, ou ela tem uma virada “Naomi Smalls” ou também só se salva com uma barra de chocolate dourada.
Cheguei a pensar que RuPaul traria Alyssa de volta depois da saída de Kornbread por conta de uma lesão. A saída da Big Girl foi uma lástima. Além de ser talentosa, ela era comprometida com a engrenagem de um reality show e já estava trilhando um caminho promissor na temporada. Jasmine perdeu sua interlocutora mais importante. A saída de uma participante sempre é uma lacuna também para quem tinha uma narrativa com ela. Miss Kennedy vai precisar se redirecionar; assim como Willow.
O mini-challange do episódio 5 foi um dos mais infames da história da corrida. Os meninos do Pit Crew levaram a coisa toda com ótimo humor, mas foi tão genial quanto absolutamente desconfortável. As boas ideias dos desafios tem me deixado bastante surpreso. Por dois anos seguidos, RuPaul adiou a primeira eliminação e ainda valorizou os nomes e rostos de todas as meninas que saíram primeiro. Dessa vez, Tempest, James e Kahmora puderam participar de um episódio inteiro, com direito a passarela e até Untucked. Foram escolhas pontuais e que voltam a sinalizar a preocupação de Mama Ru com a plataforma que criou para suas filhas.

Embora o resultado dos vídeos não tenha sido tão engraçado, foi um desafio principal diferente do que estamos acostumados a ver; e serviu direitinho para deixar claro quem tinha ido bem e quem tinha ido mal. Willow e Maddy, que tinham passarelas incríveis, acabaram apenas salvas; mas definitivamente mereciam uma posição melhor. O Top com Bosco me soou um pouco esquisito (não foi tão marcante para mim). Já com relação ao bottom, Orion era tão claramente a pior que deu até um pouco de pena. A roupa era hedionda e a performance no desafio beirava o inacreditável de tão apática. Não foi uma surpresa.
E eis que quando chegamos ao episódio 6, a temporada se livra de Maddy, num movimento que elimina um de seus poucos pontos de apoio narrativo. É claro que entendemos que ela não tinha a mesma experiência e costurar era definitivamente um problema. Mas, ao mesmo tempo, essas participantes que conduzem uma história precisam de mais tempo de tela para que a temporada fique marcada na nossa memória. Maddy tinha problemas de estilo, mas Jinkx também tinha. Evidente que não estou comparando o nível de talento das duas, mas não só Maddy dublou melhor como alguns de seus looks eram mais interessantes que os de Jasmine, sua rival direta, inclusive.

O desafio do desfile com material não convencional é um dos favoritos da audiência e sempre rende bons momentos. Mas, ele também é controverso. É realmente dificíl entender para onde vai a cabeça dos jurados … Eles fizeram uma grande festa com o look de Jorgeous, mas… como a criação dela poderia ser mais interessante que a de Willlow, que a de Bosco, que a de Angeria, que a de Candem e até mesmo a de Daya (que embora seja invejosa e recalcada tinha razão em alguns pontos)? O look de Jorgeous foi elogiado por razões pelas quais looks muito parecidos foram gongados anteriormente. Fica parecendo mais uma busca pela narrativa da redenção do que pela qualidade exatamente.
Daya, inclusive, está numa espiral de obscuridade. No Untucked ela parecia uma metralhadora giratória de críticas. Em comparação com o look de Angeria – o melhor da noite – Jorgeous comia poeira. Era evidente que não dar mais uma vitória para Angeria ficou na frente da qualidade do look. Lady Camden estava deslumbrante… Todas essas que citei tinham pontos de vista muito específicos e o look de Jorgeous era… comum. Muito difícil entender.
O Untucked teve o primeiro episódio realmente intenso nessa temporada. Primeiro Daya com sua língua venenosa e depois Maddy e Jasmine medindo quem tinha mais confiança e sendo ridículas juntas. Maddy deveria ter ficado um pouco calada, porque sua derrota depois de tudo que disse ficou mais humilhante. Jasmine, contudo, tem um perfil tão egocêntrico que é muito difícil torcer por ela. Mas, embora a edição do lipsync tenha focado quase exclusivamente na performance de Miss Kennedy, Maddy foi melhor que ela na dublagem da música. Jasmine pareceu mais desesperada, cheia de movimentos sensuais fora de contexto… Contudo, talvez seja uma questão de perspectiva ou talvez de histórico… O fato é que narrativamente falando, Maddy era a underdog e foi desagradável vê-la ser mandada para casa pela sua rival. Jasmine segue cumprindo seu papel de ser irritante.

A saída de Maddy encerra o capítulo “homem heterossexual na Drag Race”, mas a porta foi aberta e Morphosis está na história. O nome dela já é um dos mais importantes que já pisou no workroom e representa o amadurecimento da corrida no ajuste necessário das complexas formas de consciência identitária que rondam o mundo moderno. Espero ver a Drag Race por muitos e muitos anos ainda… O que ela fez esse ano quando incluiu Maddy no elenco foi buscar a perpetuação. Foi uma pena que tenha saído… Algumas vezes mudar o mundo é mais importante que premiar um espacate.






















