E a corrida finalmente começou…
Um dos históricos momentos da trajetória da Drag Race na TV aconteceu no dia que Michelle Visage viu Roxxxy Andrews, Detox e Alaska no palco, como adolescentes no pátio do colégio, orgulhosas do trisal que chamavam de Rolaskatox. Alaska, já desconfiada, viu Michelle olhar diretamente para ela e dizer um sonoro “NO”, acompanhado de uma tirada bastante sábia: “grupos podem ser muito perigosos”. Alaska ouviu, salvou-se momentaneamente do legado dessa “brincadeira”, que acabou voltando para assombrá-la no All Stars, tanto a ponto de fazê-la desmoronar.
Grupinhos são sim, perigosos. A primeira vez que isso aconteceu na corrida foi na terceira temporada, quando Raja, Delta, Manila e Carmem anunciaram que agora só se chamariam de “Heather”. Heathers” foi um filme de 1988, precursor de Meninas Malvadas, em que as estudantes mais populares da escola tinham esse mesmo nome e dividiam o tempo entre cuidar da aparência e atormentar todos de quem não gostavam na escola. O clássico apoiado nas castas do Ensino Médio americano escancarava as distorcidas noções de responsabilidade da juventude estadunidense. Antes de Ryan Murphy fazer piada com isso através da exagerada Channel, de Scream Queens (que chamava suas súditas de Channel Nº1, Channel Nº2…), essa ideia de “quadrilha social” já era uma realidade no imaginário da cultura pop.
Se na época da terceira temporada isso já era ridículo, revendo os episódios a imbecilidade da prática chega a ser desconfortável. Raja, Delta, Manila e Carmem se colocavam acima das que chamam de “Boogers”, porque – segundo elas – seus looks eram melhores, elas eram mais talentosas e belas. Shangela (insegura por ser inexperiente), Stacy (vulnerável e assustada), Alexis e Yara (ambas enfrentando a barreira da língua) eram a “base” da pirâmide daquele “High School”, e precisavam lidar com a energia bizarra do ateliê, tomada de uma autocentralização esnobista que não tinha nada de “audaciosa” ou “divertida”.

Agora, na décima terceira temporada, em 2021, a necessidade de agrupamento continua, como se nunca tivéssemos superado o colegial. Divididas entre “o grupo das vencedoras” e o “grupo das perdedoras”, a tal pirâmide que a arte fica tentando derrubar no curso da história, se mantém de pé, altiva. A edição até tenta chamar as meninas que perderam o lipsync de “Pork Chop Girls”, mas não é interessante que as vencedoras do lipsync sejam “winners” e as outras sejam “o grupo da costeleta de porco”? Pode parecer que não, mas esses são códigos velados que se grudam no inconsciente de algumas participantes e pautam suas posturas dali para frente. Observem Kandy Muse… Observem Kandy Muse…
Skip the Channel
Embora as meninas no ateliê tenham desperdiçado completamente a ideia de esconder Elliott, o momento serviu para deixar claro que as tensões sobre os dois grupos ainda estão vigentes. É engraçado, porque Elliott absorveu a atitude pretensiosa do grupo das “vencedoras”, mas, ao mesmo tempo, foi eliminada do grupo das “perdedoras” porque elas a viam como uma possível “booger”. Assim as meninas vão se dando as mãos e arriscando o foco na direção errada. Quando vi Kandy no Untucked tão determinada a reforçar que Elliott deveria ter ido para o bottom, entendi que as novas Heathers estavam à espreita por aí.
Inclusive, para evitar que as meninas se reagrupassem na hora de selecionar times para o desafio principal, RuPaul fez a mistureba necessária e anunciou mais um daqueles desafios de atuação que eu DETESTO. Quem me acompanha aqui sabe que a cada temporada acho mais difícil aturar aqueles roteiros estapafúrdios, aquele chroma key ridículo e o desespero cômico sendo chamado de “atuação”. Entendo que o espírito da corrida reside no que Ru chama de “não se levar a sério demais”, mas, pelo amor de Deus, é muito ruim. Funciona para desvendar quem não está dentro do jogo, mas é penoso. Esse não foi diferente.

Existe uma diferença berrante, por exemplo, no que Symone fez para o que Kandy fez. Symone tinha uma personagem e uma inflexão. Kandy era só desespero. O trabalho de Symone, de Tina, de Rosé, tinha uma construção que funcionava a despeito do roteiro. Algo que Bianca Del Rio sabia fazer, que Ben sabia fazer, que Katya sabia fazer, que muitas outras entendiam como funcionava. Mas, ao mesmo tempo, as cenas não dão as mesmas oportunidades para todo mundo e atores bons podem sim ser sabotados por um texto ruim. Enfim, aquilo funciona aos propósitos de Ru, mas é terrível do ponto de vista artístico.
Conforme os ensaios foram acontecendo a eliminação de Kahmora já podia ser ouvida ecoando pelos bastidores. Se ela tivesse pegado um outro personagem que não exigisse tantas expressões faciais para funcionar, talvez pudesse ser salva. Mas, quando ela chegou para a gravação usando enchimento e peitos mesmo que fosse ser coberta de chroma key, assinou sua sentença. Até em um macacão verde ela precisava ser fish. Gostamos da vulnerabilidade de Kahmora, mas por enquanto ela ainda não sabe direcionar a mesma energia que dedica aos looks para áreas menos imagéticas e mais sensoriais.
Calda ou Cauda?
Quando Denali apareceu na passarela com aquele look eu dei como certo que ela seria salva. Era lindo, deslumbrante, muito mais que o de La La Ri ou de Tamisha, ambas medianas no desafio, como Denali, mas com looks menos impressionantes. Elliott – que Kandy queria tanto ver dublar – também vestia um look de tirar o fôlego, assim como a própria Kahmora. A roupa de Rosé me desapontou (embora eu goste dela cada vez mais) justamente porque concordo com Michelle sobre a falta de fluidez. Os looks de Rosé, inclusive, me preocupam. Até agora nenhum deles foi notório o suficiente.
Como não podia deixar de ser, Utica entrou vestindo uma cortina, literalmente. Ela consegue ser bem-humorada na forma como manipula moda, o que Tina, por exemplo, sofre um pouco para conseguir. O look de Tina na passarela era… feio. Feio mesmo, não tem outra palavra. Kandy tampouco estava vestindo algo interessante, mas ela e Tina são as mais propensas aos “heatherismos” que podem ser vilanizados pela edição. Naquela passarela, definitivamente, ninguém foi mais ousado e mais estelar que Symone. Sigo impressionado.

E enfim, o lipsync… No Untucked a postura de Kahmora diante do inevitável foi, como sempre, tranquila e correta. Sabendo que estaria no bottom, ela, de novo, pensou no look acima de tudo e usou uma roupa que a impedia de se mover. Era como estar de volta ao tronco da árvore, imóvel, incapaz de convencer só pela expressão. Ficou fácil para Denali, que realmente deu TUDO. Até a levantada do chão depois do último espacate foi coreografada. Ru – que evita desconstruir sua pose austera – fez uma coisa rara e anunciou o Shantay sem nem dizer “tomei minha decisão”, indo direto para Denali com uma chuva de elogios. Deve ter sido difícil para Kahmora.
A primeira eliminação aperta a competição e faz as narrativas andarem. Se o futuro nos reserva uma verdadeira disputa entre grupos, essa temporada pode ser ainda mais bem sucedida do que já está sendo. Com esse décimo terceiro ano aconteceu algo que sempre que acontece torna a jornada ainda mais divertida: quase todas as participantes funcionam na tela, quase todas são memoráveis de algum jeito e todas resultarão em eliminações sentidas. Até agora, figuram no meu Top Symone, Rosé, Gottmik e Olívia. Acho Joey divertida, mas junto com ela, suspeito que La La Ri e Elliott serão as próximas a partirem. E vocês? Foi dada a largada de verdade. Chegou o momento de fazer apostas em quem acelera para as primeiras posições, deixando para trás um rastro de retardatárias.
RuNotes 1: Symone anuncia na promo que não costura. Será o fim da ascensão?
RuNotes 2: Utica matando Ru de rir foi bem divertido.
RuNotes 3: Nicole Byer de volta ao painel de jurados semana que vem. Acho que nosso sonho vai se realizar.
















