Décima primeira temporada consegue em poucos episódios o que as duas últimas não chegaram nem perto de conseguir.

Reality Shows que passam muito tempo no ar não são capazes de seguirem seu caminho sem enfrentarem alguns buracos na estrada. Big Brother, Survivor, The Voice e tantos outros que já atravessaram mais de uma década, de vez em quando testam nossa paciência com temporadas equivocadas. A Drag Race até que demorou a fazer esse teste. A sétima temporada foi a primeira a decepcionar a audiência, que se recuperou com a oitava e voltou a cair na nona, chegando ao apogeu do tédio na décima. É claro que existem fãs que discordam do ranking, mas considerando o apelo midiático de cada uma, fica bem fácil distinguir as que fizeram sucesso pelas razões certas e as que fizeram sucesso pelas razões erradas.

Ninguém é capaz de dizer porque isso acontece. Em algumas vezes pode ser o elenco, algumas vezes pode ser o planejamento de desafios, algumas vezes são as duas coisas e nem assim é possível criar um padrão seguro. Algo clica, mais ou menos como na escolha de um elenco de dramaturgia também. Existe a responsabilidade prática de direção e texto, mas também existe a tal da “mágica”; e com exceção das temporadas All Stars, a Drag Race estava carente de um pouco desse fator involuntário e especial. Não é que tenha sido ruim, mas também não foi inesquecível, catártico, não nos trouxe aquela sensação de euforia tão característica do show.

Agora, enfim, parece que o caminhou se iluminou. A décima primeira temporada da corrida chegou a seu terceiro episódio com exemplos incríveis de talento, humor, drama e tensão. Temos nas mãos participantes como Yvie, Nina, Silk, Plastique e até Vanjie, que poderia conseguir construir uma das narrativas de superação mais bacanas que a competição já teve. Já temos para quem torcer, já sabemos onde as tensões estão, já sabemos quem sempre nos surpreenderá e até agora só retardatárias foram embora. É como se tudo estivesse casando, tudo estivesse funcionando, criando a melhor rede de expectativas e devolvendo para a corrida aquela tal mágica que ela sempre teve e que precisava tanto ressurgir.

Corra!!

A semana 2 é a primeira que precisamos avaliar e acho que seria interessante começarmos falando um pouco sobre paródia. Nem precisamos ir muito longe para encontrar uma definição objetiva e muito reveladora sobre o gênero. Segundo o wikipedia, a paródia é isso aqui:

paródia é uma releitura cômica de alguma composição literária, que frequentemente utiliza ironia e deboche. Ela geralmente é parecida com a obra original, e quase sempre tem sentidos diferentes.

A paródia surge a partir de uma nova interpretação, da recriação de uma obra já existente e, em geral, consagrada. O seu objetivo é adaptar a obra original a um novo contexto, passando diferentes versões para um lado mais despojado, e aproveitando o sucesso da obra original para passar um pouco de alegria. A paródia pode ter intertextualidade.

Logo após a exibição do episódio 2, alguns fãs e algumas ex-participantes foram para as redes fazer aquilo que mais se faz sobre a Drag Race agora: forçar seu declínio. Vixen e Phi Phi eram as mais inflamadas. A acusação era de que as paródias de Get Out e Black Panther “ridicularizavam” títulos importantes do movimento de empoderamento das manifestações artísticas afro-descendentes. Fiquei confuso… Essencialmente, as paródias são homenagens provocativas a clássicos que geralmente afetaram muito a cultura pop vigente. E elas também são REVISÕES de uma mesma base fictícia, mas dentro de outro contexto. Ou seja, os textos das paródias pegaram a questão racial e colocaram dentro da “realidade” drag. E era um texto até bem crítico. A corrida já fez isso antes com Empire, por exemplo. Não havia nas paródias absolutamente NADA  nocivo, justamente porque elas não eram sobre ser negro eram sobre ser drag. E eram, em primeiro lugar, PARÓDIAS.

A postura de Vixen e de Phi Phi é até natural para os dias de hoje. A Drag Race virou um terreno de reafirmações políticas, que é claro que precisam ser problematizadas, mas com o mínimo de sensatez. Chegamos a um ponto em que quase tudo na corrida é ruim para a comunidade negra, para a comunidade trans, para a comunidade drag… Tudo que Ru faz é ridículo, é calculista, é desumano, é holográfico… Já existem ZILHÕES de vídeos no YouTube que prometem “contar a verdade” sobre a corrida para vocês. E, é claro, como com todo movimento de perpetuação de ideias sem ponderamento, a ideia de equívoco no desafio da paródia começa com Vixen e termina atravessando o mundo todo. É preciso ter atenção…

O enredo e a execução da paródia de Black Panther eram chatos, mas o trabalho em Get Out foi bem interessante. Muito disso se devia a Scarlet e Yvie dando um banho de atuação, mas o texto, em geral, foi bom. E sabemos que  essas paródias não são as coisas mais bem escritas do show. A questão com esse episódio, contudo, acabou sendo a briga meio sem sentido entre Yvie e Ra’Jah, por causa de Silk (que ficou assistindo de camarote). Não me entendam mal, Silk é sim muito complicada de se conviver, mas o papel dela dentro da história da Drag Race é importantíssimo. O comportamento da participante tem raízes em sua personalidade expansiva, mas também em inseguranças óbvias que ela disfarça com um alto grau de egocentrismo. Mas, ela é forte, desafia os padrões, se impõe, se expõe. É preciso respeitar isso.

O tema dos desfiles foi bem bacana, novo, mas poderia ter sido melhor se os signos não fossem sempre os mesmos. Esperava que a família Montrese fosse superar a fama de pouco talento, mas ao que parece ainda há muito o que crescer. Com uma rainha a menos, fomos para o episódio 3 que para mim também já é um dos melhores que a corrida já fez.

Mariah Vs Britney

Diva Worship foi inteiro um sopro de originalidade na corrida. Tivemos um mini-desafio nunca visto antes, um desafio principal nunca visto antes e até uma dublagem nunca vista antes. Ru tem tentado variar – sobretudo no All Stars – mas a temporada regular estava precisando de uma virada dessas assim, logo no começo. Foi um episódio bem planejado, as participantes se entregaram, se dedicaram, se tensionaram e quando vimos, lá estávamos com um episódio que trouxera de volta aquela sensação deliciosa de acompanhar humor, força e talento daquela forma que só a corrida sabe fazer. Foi uma semana realmente espetacular para o show, daquelas que já dá vontade de rever um monte de vezes.

O desafio principal era um desbunde. Se tem uma coisa que alegra o fandom é ver divas pop servindo de material para a tarefa. O grupo que escolheu Britney foi certeiro, já que ela tem uma história que permite muitas provocações, além de um largo arsenal de taglines. Já o grupo que escolheu Mariah começou errando nessa escolha. Para fãs muito entendedores, é possível rastrear bons momentos sobre a diva, mas a minha mãe evangélica de 71 anos sabe mais de Mariah que aquelas bees. O mais enervante foi ver Ru quase desenhando que eles deveriam trocar de alvo, mas o compromisso ali era com a vergonha.

E foi vergonha mesmo, em grande escala. Tudo estava errado na tal Igreja de Mariah e elas chegaram ao ponto de nem saberem que o filme protagonizado pela diva se chamava Glitter. Era tão desconfortável quanto hipnótico. Já o outro grupo se comprometeu a nos fazer feliz. TUDO deu certo, tudo foi bonito, tudo foi catarse. Nina estava incrível na apresentação, Vanjie maravilhosa na conversão e até as cantoras souberam tomar partido de seu momento. A mitologia de Britney estava ali, suas músicas e taglines. Elas não perderam uma só oportunidade de encaixar no texto que criaram um ou outro detalhe sobre a diva. Foi realmente encantador.

Era de se esperar que o resultado favorável a elas fosse acontecer. Yvie (que já tinha arrasado com aquele look do leão) foi incrível na passarela novamente. Ariel e Brooke não entraram na categoria, mas escaparam. Vanjie está indo muito bem, mas errou na escolha das franjas. E alguém precisa dizer para ela que aquele glitter no peito toda semana é HORRÍVEL. Também precisam dizer para Plastique que ir mal no desafio porque só entrou em contato com cultura pop há poucos anos não fica bem para ela. Não é uma desculpa inválida para a vida, mas é inválida para o jogo. Tinha que rolar um cursinho intensivo nem que fosse sobre as do primeiro escalão: Madonnna, Gaga, Britney, Beyoncé e Mariah. Ah, e CHER.

Desde o Shakespeare da sétima temporada que não víamos uma performance tão horrível quanto a do grupo de Mimi Carey. Ru, então, fez o que eu já tinha dito em voz alta para ela fazer, segundos antes: colocou todo mundo para dublar. Foi uma decisão acertada, ótima para a edição e que acabou mostrando mesmo que Honey não estava pronta para estar ali. Dublou com desespero, não foi bonito. Mas, tem que rolar um memorando logo logo, avisando que reveal de uma peruca por baixo da outra já ficou velho. Monet XChange zerou com aquela peruca revelando a mesma peruca. Está na hora de superar.

NOTA DO UNTUCKED: Um grupo inteiro vence e mesmo assim arruma um jeito de brigar. Silk não queria Britney, mas Yvie também não precisava ter levado isso tão a sério. Silk surtou, correu pela sala, gritou, arrancou a roupa… E eu me perguntando porque aquela briga estava acontecendo na minha frente. Achei melhor quando os jurados entraram (Troye, love you) e espero que essa tenha virado uma tradição. Curiosamente, Guillermo além de ser um urso soberano, também esteve em um dos melhores clipes de Britney.

Honey saiu em meio a um grande drama, mas, quem pode culpa-la? Depois de anos vivendo sob a expectativa da corrida, sair logo nos primeiros episódios não é fácil para ninguém. O curioso é que quando as temporadas ganham essa boa dinâmica, tudo no que consigo pensar é no Snatch Game, porque é nele que muita coisa fica clara. Nesse ponto da competição posso dizer que Nina, Vanjie e Yvie são minhas favoritas. Mas, essas percepções podem mudar completamente de uma semana para a outra. Sobretudo numa temporada tão promissora quanto essa, que reafirma e celebra todos os motivos pelos quais esse programa precisa continuar no ar. A Drag Race não é o que precisa entrar em declínio, mas sim a nossa necessidade constante de atacar o sucesso. Está tudo muito bem, obrigado. E ainda bem por isso.

RuNotes:

  • Mercedes em foco. Primeiro a história da perseguição com sua origem, o derrame, que se correlacionam com sua hesitação em falar da religião. Vem coisa por aí.
  • Honey e seu “Milk Moment”.
  • Brooke e Vanjie, tá rolando?
REVISÃO GERAL
Nota:
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