Um makeover ressuscita qualquer morto e esquenta qualquer marmita. A décima temporada da Drag Race ainda respira.

No ano passado, a Drag Race teve um dos melhores de seus episódios de Makeover. A própria equipe do show, cheia de homens heterossexuais, foi transformada. A corrida dificilmente erra nesse tipo de episódio… Geralmente a razão é muito simples: o programa é um programa de nicho, que celebra a diversidade; e os episódios de makeover trazem outa parte da sociedade para dialogar com o universo fantástico e artístico do show. Esse diálogo produz momentos de real admiração e afetividade e sempre nos presenteia com muitas surpresas. Ainda que a temporada seja regular, esse episódio sempre nos acalenta.

A arte drag – como Ru mesmo diz – traz à tona dos homens heterossexuais (principalmente deles) uma oportunidade de libertação dos próprios códigos culturais, o que resulta em comédia e – vejam só – sensibilidade. Essa sensibilidade é delineada pela edição corretamente, focando o espectador regular como alvo direto: o que RuPaul quer (por razões filosóficas e comerciais) é abrir o alcance do programa para todo tipo de público que possa compreender que por trás da maquiagem pesada, dos trejeitos e dos vestidos glamorosos, há pessoas comuns, com os mesmos anseios que qualquer outro, os mesmos medos e muita história para contar.

Kings to Queens 

A escolha temática para o grupo de “transformáveis” foi bastante acertada e vigente: celebridades da internet. Escolher alguns voluntários heterossexuais também foi muito acertado, porque geralmente vem deles as melhores transformações. Sarge, no ano passado, foi um presente para a história da corrida. E ainda que possamos não conhecer muito bem alguns deles, a seleção reforça não a fama que eles têm, mas o tipo de personalidade que pode contribuir para as dinâmicas com as participantes. Isso a produção faz direito sempre, é impressionante. É quase como se a vencedora do minichallange pudesse ouvir a escolha certa antes de fazê-la.

Eureka tentou ser estratégica depois do coió que Aquaria levou de Ru na semana anterior. Seu alvo principal era ela mesma, Aquaria, e a coisa toda quase funcionou. Aquaria vacilou em toda sua fala sobre detestar ninguém ter sido eliminado… Foi como eu disse: quando a gente começa a torcer por alguém, essa pessoa arruma um jeito de ser desagradável. Aquaria foi tão egocêntrica e insensível que deu medo. Por isso, o plano meio furado de Eureka até que me agradou. Acabou não funcionando, mas o alerta foi dado.

O time de rapazes para transformação era bem bom… Eu só conhecia mesmo o irmão da Ariana Grande, que tem aquela cara de boneco de cera que realmente me assusta. Todos tinham algo de bacana para oferecer e entre os dois heteros do grupo, um deles acabou – como esperado – se revelando uma quase profissional, para sorte de Cracker. O outro hetero foi pareado com Kameron, que continua fria como gelo, perdendo até o minichallange que mais deveria ganhar: o de bofe. Drag sem humor é o fim e lá foi Eureka ganhar de novo simplesmente porque sabe qual piada colocar no lugar certo.

Os desafios de makeover são sempre muito divertidos porque aquele tempo de edição enquanto eles se preparam é sortido de boas conversas e choques culturais. O susto com o tuck, as curiosidades entre ambos, o respeito que se cria e o carinho que se estabelece assim que o primeiro dia passa. O que aconteceu com Chester é sempre muito bonito de ver acontecer toda vez que o makeover envolve heterossexualidade. Ele era o único barbudo, soava super sério no ateliê e acabou se tornando aquele que compreendeu a arte, a imersão, a entrega, mais do que qualquer um dos outros. Foi a mesma coisa com Sarge no ano passado e com Slava, no terceiro ano. Essa imersão sem preconceitos é linda de se ver. E até mesmo quando ela não acontece por puro medo (não esqueçamos do pobre jogador que vomitou de tanto nervoso na sexta temporada), os moços sempre saem dali com uma sensibilidade mais apurada sobre o assunto.

Dito isso, o ranking da semana foi apertado. Ninguém fez um trabalho ruim, ainda que Monet tenha uma coleção de looks que me lembram Mystique, infelizmente. Monet tinha tudo para ser uma participante forte no carisma, ao ponto de resistir, como Adore. O problema é que seus looks são tão ruins, mas tão ruins, que nem o carisma conseguiu segurar a onda. Asia, Eureka e Cracker fizeram um ótimo trabalho, mas Miz Cookie já entrou para a galeria de personagens inesquecíveis do show, tamanha sua transformação.

Preciso dizer que amei muito aquela jaqueta feita por Asia e que mesmo que Aquaria não tenha acertado na semelhança, ela acertou no look da parceira. A irmã de Kameron estava elegante como ela, mas o problema de Kameron sempre foi esse mesmo, excesso de elegância. O irmão da Ariana estava que nem pinto no lixo e a duplinha com Eureka parecia cósmica. Fiquei mesmo com pena é do pobre Tyler, que foi num programa para se transformar em drag queen e acabou se transformando numa secretária míope com mau gosto para roupas e cabelo. Não dava para entender aquilo, não dava…

NOTA DO UNTUCKED: O Untucked girou em torno do tecido brega de Eureka. Funcionava perfeitamente bem, mas virou o tema da noite. Kameron fez a linha melancólica de novo e isso já está ficando um pouco cansativo pra mim. Estranhei colocarem os meninos longe delas e não terem mostrado a conversa deles. A perspectiva de um fã quando entra no show é sempre interessante… Vê-los discutir sobre o segredo que envolve participar do programa foi particularmente intrigante, porque as informações SEMPRE vazam. Fora isso, não foi um untucked dos mais movimentados e a saída da eliminada foi, como se esperava, triste e digna.

A dublagem foi outra das boas, com Monet claramente tentando outros recursos para conseguir ficar. Kameron é mais intensa quando dubla, mas só pode ter sido salva por conta do histórico. Monet deu mais de si, buscou um humor com gestos minimamente diferentes dos anteriores. Ela sempre dubla na mesma vibe, mas ao menos conta uma história. Me pareceu que foi mais forte que Kameron, mas estava no bottom pela terceira vez, então não dá para saber qual foi o exato critério de Ru.

Com isso, chegamos ao fim do episódio 10 da temporada 10, que até agora, infelizmente, não tem sido nota 10. Com o makeover o coração se aqueceu, se encheu de mais orgulho e sabemos como a corrida funciona: até quando ela é ruim, ela é boa. Os spoilers sobre o Top 4 já saíram e ao que parece ele terá alguma espécie de justiça em sua formação. Pela primeira vez não teremos participantes ilesas (todas terão dublado) e isso é bom para conhecermos melhor como elas funcionam sob pressão. Quanto à vencedora… Não torço para ninguém, mas acho que Eureka vencer seria justo e bom para a credibilidade do show. Já passou da hora de uma big girl estar entre o seleto time de rainhas. Tenho muitas esperanças de que essa reta final nos arrebate, porque até agora nenhuma eliminação me fez nem feliz nem triste. Estou assim, meio Kameron, apática e impassível. Mas, elegante.

REVISÃO GERAL
Nota:
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rupauls-drag-race-10x10-social-media-kings-to-queensCom isso, chegamos ao fim do episódio 10 da temporada 10, que até agora, infelizmente, não tem sido nota 10.