A reta final da décima temporada de RuPaul’s Drag Race se estabelece como uma das mais inofensivas do show.
Antes de qualquer coisa vamos deixar uma coisa bem clara: as temporadas de RuPaul’s Drag Race não são analisadas como boas ou ruins baseadas no quanto de intriga ou shade estão contidos nos episódios. As temporadas são eleitas boas ou ruins baseadas em talento e no quanto afetam a engrenagem da cultura pop. A oitava temporada, por exemplo, foi muito polida interpessoalmente falando, mas não foi uma temporada ruim só porque não vimos circos pegando fogo. A sétima teve muito mais desentendimento, mas isso não a ajudou a sair do limbo das irrelevâncias do entretenimento.
Dito isso, já posso eleger o décimo ano como inofensivo do ponto de vista cultural. Estamos cheios de pontos de tensão, tínhamos uma Vixen pronta para colocar lenhas nas fogueiras. Mas, chegando ao décimo episódio, já é possível dizer que não temos em mãos um elenco – ou uma lista de desafios – que serão marcados pela história da corrida. Pelo menos não até agora… Faltando menos de 4 episódios para o fim, também fica a sensação de que não há muito mais o que se fazer para mudar esse quadro. Não há nada de errado acontecendo, temos talento e personalidades. Mas, não temos o carisma. Não adianta Monet tentar fazer sua esponja funcionar como a bolsa de Bob, a segunda cabeça de Vivacious ou o mantra de Jinkx funcionaram. A coisa mais carismática desse ano foi o Vanjie da primeira eliminação; e ela foi lá, na primeira eliminação.
É claro que existem meninas que já são queridas, tem seus fã-clubes, estão garantindo sua turnê pelo mundo. Mas, esses serão casos isolados, bem isolados, que estão um nível abaixo do que a nona temporada alcançou, sendo essa – também – uma temporada que lutou contra a irrelevância. Aja, Valentina, Trinity, Shea, são nomes que ajudaram a corrida a vencer essa batalha. Porém, nesse décimo ano parece que todas elas estão no campo apenas do correto e não do deslumbrante. Temos duas favoritas, claro. Mas nenhuma delas está no topo da pirâmide cultural onde até mesmo Violet – vencedora de uma temporada questionável – conseguiu chegar com seus looks. Tudo ainda pode mudar? Pode mesmo?
Blame it on Cher
Vamos falar de dois episódios (sorry, não deu pra separar dessa vez) e o primeiro eu considero – desculpem os que amaram – um imenso desperdício temático. Amamos Cher, sempre quisemos um desafio grande e todinho baseado nela. Mas, não com esse elenco. Ou melhor: talvez não com músicas ao vivo. O Rusical do sexto ano tinha duas estrelas do American Idol no elenco e isso deu ao trabalho uma qualidade que permanece em playlists ao redor do mundo. Cantar bem em desafios assim é importante, mesmo que somente uma ou duas consigam isso. Esse Rusical acabou sendo como Cracker disse mesmo: American Horror Story: Cher Edition.
O minichallenge com os tapas (que acabou sendo real em Asia) foi bacana, mas os grandes acertos pararam por aí. A melhor cantora do grupo era Kameron, que continua tímida, trabalhando com menos para chegar mais longe. A estratégia é muito boa, garante permanência, mas não garante eternidade. No momento, até mesmo Vixen e sua inexplicável rivalidade com Eureka deram a ela tempo de tela suficiente para tornar-se mais passível de ser inesquecível para a mitologia cultural do show. E inesquecível é a palavra aqui. Depois de Chad Michaels fazendo Cher, tudo fica parecendo genérico da pior qualidade.

Esse episódio foi o último de Vixen e vimos Monet sublinhando o comportamento conflitivo da colega. Vixen está para o combate como Nina Bonina estava para a paranoia. Nenhuma das duas tem consciência exata do que estão transmitindo (mesmo que Asia tenha lido tão bem a situação) e também não parecem dispostas a sair dessa escuridão. Isso sempre se reflete no trabalho. A questão é que quando Vixen vai mal por ser muito conflitiva o público recebe isso com menos tolerância do que quando Eureka vai mal por causa de um trauma de infância. Realities são assim, eles trabalham pescando a atenção do público através de flertes com o maniqueísmo. Eventualmente esse maniqueísmo pode ser abandonado, mas tudo começa com o ato da torcida.
A piada com American Horror Story fez brotar um dos atores da sétima temporada do show e ele ornou com o número. Ninguém cantou bem, ninguém foi realmente engraçado, não houve um só big moment. Foi chuchu. Cher não vai achar nada péssimo, mas duvido que não vá também soltar um bocejo. A passarela foi bem melhor, com Aquaria surpreendendo de novo. Monet, que sempre chega perto de ser a mais carismática, continua chegando para a passarela meio cagada. Eureka é quem acaba saindo quase totalmente ilesa.
NOTA DO UNTUCKED: Os episódios do Untucked estão se tornando um show de declarações nonsense. Asia falou tanta besteira nessa semana que deu vontade de entrar na TV e dar umas bofetadas nela. Sua personagem no musical era odiosa e ela conseguiu se enganar em seu julgamento até sobre o glitter. As outras duas coisas mais importantes do dia também se repetiram: Eureka sendo emotiva e Aquaria sendo segura. A coisa mais inusitada que vimos foi Vixen sendo tranquila e sensata a respeito da própria eliminação.
Lá fomos nós para o bottom e ironicamente ele era formado pelas amigas Asia e Vixen. Para o programa seria muito melhor que Vixen continuasse ficando, mas depois de tantos bottons não dava mais. E acho que a decisão foi puramente baseada em histórico, porque Asia não fez nada sensacional para conseguir aquela vitória. Vixen foi embora sob uma atmosfera ruim, soando como alguém com problemas de manutenção de temperamento e claramente deve estar enfrentando outros embates aqui fora. Torço sinceramente para que ela se reencontre com calmarias e que possa levar sua carreira com sensatez daqui para frente.

Breastworld
O episódio seguinte tinha uma missão: preencher o vácuo narrativo que poderia ser deixado pela eliminação de Vixen, que claramente servia como ponte entre tensões que promoviam um senso de continuidade para o show. O antagonismo serve para isso, seja em ficções ou realities. Talvez a grande falha de Vixen tenha sido não perceber que ela seria o bode expiatório do programa caso mostrasse suas cores mais fortes tão deliberadamente. Em um ano em que o elenco não se alinhou completamente, a saída de uma antagonista acaba sendo mais sentida.
A décima temporada da corrida, contudo, tem nos oferecido mais algumas fatias de “falta de noção” como poucas vezes vimos. Não sei o que tem acontecido com essas moças, mas o senso de própria importância delas deve ter subido para a cabeça com os anos. Não temos um episódio sequer em que alguma delas não diz algo profundamente egocêntrico e completamente fora da realidade. Em Breastworld a polida e recatada Kameron se acha uma ótima imitadora da Cher e desculpe amor, mas você não é. Do outro lado, Aquaria esqueceu como funciona o sistema de críticas desse tempo todo e acha que não estava no bottom 3. Filha, cê tava.
Não sei se o problema é esse… A sensação é de que toda vez que estamos começando a torcer por alguém esse alguém nos frustra com um comportamento imaturo ou superficial. É claro que os desafios também são parte importante dessa equação. Os minichallanges tem sido muito mais divertidos que os desafios principais e na semana da paródia a Westworld não foi diferente. Até quando Ru brinca que o show “é ligeiramente confuso”, ele o faz na primeira parte do episódio. Da metade para lá é aquele mesmo esquema de roteiro estranho e direção bizarra. As meninas são avaliadas pelo mínimo como se fosse o máximo. Enfim, algo parece meio fora do lugar.

Todo o processo de preparação da paródia não nos trouxe nada de muito atraente. Kameron estava no radar para continuar crescendo na competição e Asia – como ela mesma disse – estava no radar para eliminação. A temporada está tão neutra que até mesmo a promessa de conflitos entre Aquaria e Cracker ficou no meio do caminho. Ru demonstrou nessa semana uma preocupação com Asia e falou com ela de um jeito que praticamente antecipa seu papel na competição. E repetiu o quanto a vulnerabilidade era importante, uma vez que um dos outros reflexos do delusional (do qual todas elas sofrem) é o excesso de confiança.
A filmagem da paródia mostrou os problemas de Eureka (um beijo Ivy Winters) e a montagem do look temático da semana mostrou que Kameron sabe se caracterizar, mas não sabe entregar. No ateliê a conversa sobre como envelhecer sendo drag foi bem interessante, assim como as colocações de Asia sobre a irmandade inevitável que surge na convivência. O mundo drag é recheado de ironias e venenos, mas aparentemente o senso de afetividade permanece como a “cola” definitiva da comunidade. Assim esperamos.

A paródia foi uma bobagem sem tamanho, nem vale a pena comentar. O desfile teve bons momentos e foi especialmente interessante ver como as meninas mais jovens não quiseram envelhecer o suficiente na passarela. Monet não está se ajudando, o que é uma pena. Kameron e Eureka não estavam tão más na passarela, mas ficaram devendo no desafio. Jamais saberemos se a decisão de Ru em não eliminar ninguém tem mesmo a ver com a performance delas ou simplesmente com o desafio seguinte, do makeover, que geralmente é feito em números pares. Não que não tenha sido merecido, mas a suspeita permanecerá para sempre.
NOTA DO UNTUCKED: O Untucked da semana foi muito calmo, com destaque para a emoção de Eureka falando da amizade com as meninas e para o vídeo da família de Cracker. Sua mãe estará completamente cega em um ano e essa era a última chance de ver Cracker na TV antes que isso aconteça (embora quase um ano tenha se passado entre filmagens e exibição). Esses detalhes familiares que surgem entre os shades e os brilhos são sempre muito importantes para humanizarem o show. O breakdown de Kameron foi legítimo, serviu para dar a ela menos controle das próprias emoções e do quanto ela as deixa aparecer. De certa forma, quando Asia a analisa ela se aproxima um pouco de Nina no jeito como sabota a si mesma, sendo – pelo menos – menos paranoica com relação às outras. Como ninguém foi eliminado, o episódio colocou as duas resgatadas para conversarem no sofá, mas elas só repetiram as mesmas coisas. Foi desnecessário.
Assim, saímos do Top 6 ainda no Top 6 e o desafio do makeover nos espera logo em seguida. Isso é mais reta final que nunca e mesmo depois de uma não-eliminação intensa, a décima temporada continua derrapando no charisma, mesmo que tenha uniqueness, nerve and talent.















