O inevitável esmagamento das retardatárias e o shade desmedido encontram a décima temporada da Drag Race.

Todos os anos RuPaul é indagado sobre qual o motivo para colocar na corrida um monte de meninas que claramente não tem o mesmo talento que as demais concorrentes. A razão é clara como água: escolher meninas não tão polidas é um jeito de manter a vanguarda da corrida, torná-la mais próxima do real, impedir que ela se torne um programa feito para quem fica dentro da caixinha esperada. Além disso, a escolha de meninas não tão polidas pode criar narrativas de crescimento muito válidas, como aconteceu com Trinity K. Bonet, Adore e Chi Chi (antes do All Stars).

O efeito colateral dessa atitude é o que chamo de “o trabalho das retardatárias”, que são aquele grupo de meninas que claramente não vão superar as próprias limitações e que servirão como material de primeiras eliminações, retardando a saída de meninas mais interessantes, que com isso ganharão mais tempo de tela. Todas as temporadas têm meninas assim e esse ano – provavelmente como um reflexo direto do nível de exigência crescente da competição – elas não estão conseguindo desviar das chances de irem para casa rápido demais.

Com três episódios exibidos já podemos dizer que esse décimo ano está tomado de ansiedade juvenil. Há poucas meninas com uma carreira pré-corrida, mais velhas, o que resulta num ateliê tomado de egocentrismo e atrevimento. Essa é a razão pela qual a conexão com as participantes tem demorado mais para acontecer… Por alguns momentos parece que estamos cercados de Laganjas e isso me faz perguntar porque para um décimo ano, a seleção de Ru foi tão focada em juventude. É fato que a Drag Race fez história suficiente para isso, mas hormônio demais numa sala acaba sempre resultando em tensão constante (e não estou falando de idade, mas de atmosfera).

Pharma Musical

A segunda semana começou com o rompante sincericida de Vixen, que achou que seria legal conseguir um tempo de tela constrangendo Cracker e Acquaria. Ver a “cara de caneca” das envolvidas foi impagável, mas esse tipo de agressividade gratuita não fará bem para a imagem de Miss Vixen. As duas “gêmeas” estavam claramente dissimulando e Vixen fez o que todo mundo queria. Mas, essa atitude “falo mesmo, não mexe comigo” não faz bem para ninguém nem na vida real.

Graças a Deus o VH1 deu ao programa os 60 minutos que ele merecia e temos bastante tempo para mini-challenges e desenvolvimento das participantes. Tudo bem que nem o mini-challenge e nem o maxi-challenge dessa semana foram lá muito criativos. O super lipsync do episódio 2 já ficou tradicional, mas o Bitch Perferct da oitava temporada continua imbatível. Estou até agora querendo entender porque raios Ru achou que um musical farmacêutico seria uma boa ideia. Não é uma daquelas ideias tão absurdas que são boas. Essa só é ruim mesmo.

O desafio serviu, ao menos, para alinhar os talentos corporais de cada uma. A surpresa ficou por conta de Blair, que eu achei que seria um arraso e conseguiu ser pior que Kim Chi. O que não foi surpreendente foi o breakdown de Eureka, que foi completamente coerente com o trauma que ela viveu. É bem verdade que ela fala demais e se mete demais mesmo, mas seu drama tinha tudo de legítimo. O medo de se ferir novamente tirou tudo dela e por muito pouco não a mandou embora de novo.

A presença de Alyssa Edwards me fez pular da cadeira. Essa pessoa é tão talentosa e tão adorável que quando aparece na tela o sorriso se abre na mesma hora. E foi tão bom ver que Ru confiou nela para fazer esse trabalho… Espero que seja uma parceria que dure muito e muito tempo. Uma pena que a primeira vez tenha sido num desafio com um tema tão negativamente estapafúrdio. A cada momento do episódio isso me incomodava cada vez mais.

A apresentação foi digna, com a boa coreografia de Alyssa e as meninas se esforçando para valer. Esse desafio da super-dublagem precisa existir justamente porque é muito trabalhoso, longo e exige muito delas logo no começo da competição. Mostra quem tá disposto a trabalhar de verdade e quem está só “retardando”. O bottom 2 da semana, contudo, foi formado por uma retardatária e por uma menina que estava realmente sofrendo os efeitos de um trauma pessoal.

A vitória do time de Vixen fez Mayhem escapar de uma boa (que roupa horrível), mas Kalorie e Eureka foram para o paredão dragniano justamente. Kalorie sofre do mesmo problema que qualquer retardatária: ela acha que a beleza é absolutamente tudo que precisa ter para ser uma boa drag. Ela não tem inventividade, sua drag não tem um conceito claro e sem as dúzias de carisma necessários para superar isso, fica difícil passar despercebida pela peneira. Mandar Eureka embora tão cedo seria muito ruim para o programa e ainda bem que Kalorie também não foi tão bem na dublagem.

NOTA DO UNTUCKED: O Untucked da segunda semana não mostrou nada que não fossem as lamentações de Kalorie e Eureka (que ficou especialmente atingida por não ter “seu momento”). A eliminação de Kalorie foi difícil de ser vista porque uma coisa que as retardatárias todas têm em comum é a grande vontade de permanecer o máximo de tempo possível na competição.

Tap The App

A semana três manteve essa meia-bagunça de intenções da edição, que ainda não encontrou uma narrativa clara para essa temporada. Claramente, estamos vendo os episódios focarem em três pontos específicos: a rivalidade entre Cracker e Acquaria, os delusionals de quem acha sempre que deveria ganhar e a vontade absoluta de vencer, que está presente num grupo de meninas com sangue nos olhos. Ainda assim, esses três pontos não são exatamente pontos de tensão e a edição vaga sem direcionamento por eles. Isso é comum em inícios de temporada, mas há um certo pânico de que a coisa acabe evoluindo para uma vibe meio season seven.

O maxi-challange da semana era estabelecer a criação de um aplicativo de encontros e pelo menos por enquanto esses desafios em grupo serão uma constante. Estrategicamente falando, os desafios em grupo servem para testar quem consegue se destacar em meio às guerras de personalidade. Mayhem já começou perdendo no quesito… Não tem nada mais perturbador do que ver gente brincando de ser Pearl bem na ocasião em que deveria estar gritando mais alto que todas as outras.

Na filmagem do comercial, Monique Heart se autodirigindo foi impagável. Yuhua é daquelas participantes que nem um momento engraçado de edição consegue captar. Ela foi antipática e incompetente o desafio inteiro e nem mesmo quando errava suas falas e flertava com o ridículo, ela conseguia nos oferecer algum momento divertido que fizesse valer sua participação ali. Enquanto isso, a CPI da peruca emprestada quase evoluiu para inquérito, mas uma aranha perdida no estúdio fez com que as atenções fossem dispersas.

Antes da passarela tivemos o incrível testemunho de Dusty sobre seu processo de saída do armário diante da família extremamente religiosa. Foi importante que ele fizesse o contrapeso com a narrativa bonita de Blair e que tivesse colocado as coisas naqueles termos otimistas. Ao invés de ir contra a existência de Deus, ele considerou que Deus ouviu-o e fez o que ele precisava de uma forma mais dura, mas muito eficiente. A conquista do amor, no fim das contas, é o que nos valida completamente e saber que essa é a ideia que está sendo passada pelo episódio me reconforta bastante.

Nenhum dos comerciais foi inesquecível e a melhor coisa deles foi realmente aquela única fala de Eureka. O tema da passarela – penas – era bastante interessante e quase todo mundo fez um bom trabalho. A voz de Ru estava estranha, parecia estar sendo poupada e curiosamente, ornava com o tom sempre bêbado de Courtney Love, presente no painel de jurados. No fim das contas, a vitória de Asia foi justa. Não acho sua expressão parada no comercial digna de tantas menções, mas a escolha de passarela era ousada como a gente gosta de ver.

NOTA DO UNTUCKED: Então, eis que o Untucked leva à primeira discussão realmente importante da temporada. Vixen e Acquaria continuaram a CPI da peruca e Vixen resolveu dizer que não achava legal ser chamada de negativa quando na verdade estava na dela e Acquaria veio cutucar. É bem verdade que lá no episódio 2 foi Vixen quem cutucou primeiro, mas ela argumentou bem. Todo mundo começou a trazer coisas de Acquaria e ela começou a chorar no melhor estilo Laganja. Ao ver aquilo Vixen sublinhou que Acquaria fazia tantos comentários negativos quanto ela, mas que diante daquele choro a narrativa da “garota negra escrota” estava montada. E ela está certa. Mas, Monique também está certa quando diz que a defensiva constante de Vixen atrapalha sua “benção”. Essas personalidades confrontativas tendem a se achar detentoras de verdades maiores e isso transcende raça. Foi bastante interessante ver a forma como a edição recortaria o momento sendo discutida por elas e essa discussão estar presente no episódio. Há sim uma camada racista presente na forma como as dinâmicas se estabelecem com o público aqui fora. Reflexo culturais presentes inconscientemente se manifestam imediatamente quando uma garota branca chora num canto por causa do que um negra disse a ela. Mesmo assim, Vixen não se ajuda ao estabelecer um pavio tão curto.

A saída de Yuhua era inevitável e espero que Mayhem tome a experiência como um motivador para sair da casinha. Ficou feio esperar para falar só na passarela que não gostou de como as decisões da líder foram tomadas e aquele papo de “jogo sujo” foi bastante sem sentido.

Agora chegou o momento de começarmos a entrar na temporada. Algo me diz que tudo tem ficado um pouco solto, como se não fizesse muita diferença sabermos ou não os nomes de cada uma. A quarta semana tá chegando e é então que já começa a se clarear algum favoritismo, necessário para o envolvimento do público nos acontecimentos. Quando a gente torce tem mais graça e a corrida não se faz só para quem está lá dentro, mas também para quem está aqui fora.

Notinha: Estive muito ocupado com uma série de trabalhos e atrasei muito os textos. Mas, isso não será uma constante.

REVISÃO GERAL
Nota:
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