Através do ponto de vista dos pais, Fugitivos dedica um episódio inteiro para justificar sua história em Rewind.

Na crítica passada eu mencionei que Fugitivos era a série mais fiel ao material de origem da Marvel. Bom, o segundo episódio mostrou um outro lado para a série, que não é assim tão próxima do seu lado em papel e tinta. Isso porque Runaways decidiu dedicar um episódio inteiro para recontar o que fez no piloto, mas através da ótica dos pais e do Orgulho, a “caridade” que aquelas matriarcas e patriarcas gerenciam. Indo muito além do que a revistinha já se propôs a fazer, afinal o destaque é praticamente inteiro nos adolescentes, Rewind aperta o retroceder para humanizar e atribuir peso ao seu ótimo elenco mais velho.

O segundo capítulo começa imediatamente após o final do primeiro, como uma espécie de segunda parte, mas gira o foco imediatamente após o plano de Alex de apagar as luzes para que seus pais pensem que o flash havia sido o branco do pico de energia emergencial. Enquanto Nico, Alex, Gert, Karolina e Chase tentam processar o que viram e Molly dorme, começamos nosso processo de descobrimento e compreensão do outro lado da moeda de Fugitivos. Para aqueles jovens muita coisa pode ter acontecido e muito pode ser usado para justificar o que eles viram, ou será que pensaram que viram? Viagem no tempo? Ritual de purificação?

Mudar o tom e apresentar, a mesma história, usando os pais como perspectiva e ponto de vista é uma atitude interessante em termos de narrativa. A decisão com certeza vem do fato de que no material de origem toda a história acontece de maneira bem breve. Para ser mais exato o rumo de Fugitivos seria mais adequado para um filme do que para uma série. Inclusive, em entrevistas recentes o autor de Runaways, Bryan K. Vaughan, revelou que a Marvel tinha planos de fazer desta trama um filme, mas que Feige decidiu ir com Guardiões da Galáxia no lugar.

Claro que o time criativo por trás da série pode muito bem se distanciar dos quadrinhos para criar uma trama totalmente nova e desprendida, mas acredito que a Marvel deseje, no mínimo, um pouco de fidelidade com o material de origem. O que fazer então? Bom, Fugitivos série fez algo que Fugitivos quadrinhos nunca se preocupou em fazer e dedicou histórias e tramas próprias para estes pais e mães, de uma maneira que vai bem além do arquétipo de vilão que eles assumem na nona arte.

O roteiro toma um direcionamento muito interessante porque não demoniza, totalmente, os pais e oferece um outro lado para a contenda entre pais e filhos. Também é muito sobre como cada adulto enxerga sua posição no mundo e dentro daquela organização misteriosa. Leslie Dean, interpretada pela maravilhosa Annie Wersching, parece ser a que mais tem domínio da situação, mas mesmo ela tem alguns obstáculos para superar e também um lado mais brando para demonstrar ao mundo – e aos telespectadores da série. Porém, não importa quão fragilizada ela tenha ficado com a revelação de que Destiny, o sacrifício que ela precisa, também é uma mãe, seu movimento final ainda foi o de enviar a garota para o abate.

Runaways 1x02: Rewind
Runaways 1×02: Rewind

Gostei bastante de como a série lida com pais e mães, separando-os e mostrando que aqui, as mulheres não seguem o tradicional espectro materno que muitas produções optam por explorar quando estão lidando com mulheres que também são mães. Foi o que The Gifted fez, quando inseriu em sua trama uma mutante com uma filha, para criar um vínculo com outra mulher, através deste elo, apenas. Tanto com Tina Minoru, quanto com Catherine Wilder, é possível ver como estas mulheres se afastam bem do clichê e revelam um lado implacável, mesmo quando direcionado para suas crias e com seus parceiros.

Victor Stein (James Marsters) e sua esposa, Janet (Ever Carradine), expõe uma batida menos complexa, mas totalmente interessante. Victor é abusivo, tem problemas com a pressão de seu trabalho e desconta na esposa, e também no filho, suas frustrações. A saída, apesar de clichê, é a de notar que Janet tem um caso secreto com outro pai, ou mãe, do Orgulho. Este é novamente um tipo de abordagem que entrega muito do potencial da série de se desviar do material de origem e fazer mais, entregando algo totalmente diferente, mas muito satisfatório.

E não só da imagem de vilão e vilã vivem os pais. Os Yorkes aparecem como o casal fofo, totalmente em sincronia e que solta, casualmente, detalhes do seu descontentamento com o que são forçados a fazer. Ainda não sabemos exatamente o que é, mas pelo menos já temos a noção de que existe certa bondade do outro lado. E eles ainda tem um dinossauro de estimação, o que é totalmente legal e com potencial para ser também bem perigoso.

A produção fez um ótimo trabalho de centralizar seu episódio em cima de outra personagem, Destiny. A garota, que abriu o piloto, é uma fugitiva, nome da série e também o que estes adolescentes se transformarão até o fim da primeira temporada – em algum momento eles precisarão assumir a alcunha. É uma ótima maneira de ilustrar o que aqueles pais são capazes de fazer e se terão a coragem de encarar o mundo da mesma maneira após seus filhos e filhas se rebelarem.

Rewind é a prova de que Fugitivos pode ir além do que os quadrinhos e criar muito mais do que apenas uma temporada. O potencial destes adolescentes e também da maneira que se relacionam com seus pais oferece um leque de oportunidades que nunca pensei ser possível para uma produção do tipo. Com muita força a série apresenta uma dupla de capítulos com peso suficiente para me deixar totalmente grudado neste drama adolescente com magia e dinossauros.

Easter eggs e outras informações em Rewind:

– Tivemos menções ao Doutor Brown, de De Volta para o Futuro, a série Fuller House e Weird Al.

– Também conseguimos a primeira conexão, oficial, da conexão de Fugitivos com o restante do MCU. No episódio apareceu o jornal da WHiH World News, que já esteve presente em: The Incredible Hulk, Iron Man 2 e Spider-Man: Homecoming, nos cinemas e Agents of S.H.I.E.L.D., Daredevil, Jessica Jones, Luke Cage, Iron Fist, Inhumans e The Punisher.

– Enquanto Molly está cantando uma canção de ninar para Molly, somos levados até o porão dos Yorkes, onde Alfazema (dinossauro) escuta a música e reage. É uma ótima conexão com o link empático que a garota e a criatura dividem nos quadrinhos.

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– Já falei a respeito da maravilhosa diversidade de Fugitivos? É sempre bom mencionar.

REVISÃO GERAL
Nota:
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