Com um dinossauro e um funeral, Runaways entrega mais um excelente episódio com Destiny.

Fugitivos não é a sua série adolescente tradicional. Apesar de manter em seu núcleo dramas característicos do processo de crescimento, a série consegue se distanciar bem do gênero proposto. Contudo, não estou me referindo ao uso de magia, dinossauros e superpoderes, apenas, mas sim a construção narrativa e também ao modelo de relacionamento adotado pela produção para conduzir seu elenco, tanto o adolescente, quanto o adulto.

A própria escolha de colocar estes pais como assassinos, líderes de um culto misterioso e volátil já demonstra que estamos bem separados de qualquer drama adolescente comum. Certamente The O.C. e Gossip Girl, produto dos criadores de Fugitivos para a televisão, já lidaram com problemas similares com seus adultos, mas a sensação é de que nenhuma destas produções realmente usou como trama principal as consequências das ações dos pais. Pelo menos não como estamos vendo em Runaways, desde o piloto.

O maior destaque em Destiny fica com Molly, o que também me surpreendeu muito. Usualmente séries com membros muitos novos no elenco optam por nunca direcionar um capítulo inteiro para estes, especialmente o primeiro isolado, mas Fugitivos foi até a data da morte dos Hernandez para sair totalmente do esperado e fazer da pequena garotinha e do evento trágico, o norte do episódio. E a construção do funeral, das crianças jogando UNO, dos Yorkes com Molly, tudo ajudou muito na compreensão do senso de família, unidade e amizade – algo que Alex sentiu muita falta e hoje celebra com tanta felicidade. São detalhes que apenas impulsionam a qualidade narrativa da série.

Com uma montagem do funeral dos Hernandez, além de incluir a pequena Molly e sua história trágica no contexto, também conseguimos um aprofundamento maior no relacionamento daqueles adultos, desde o passado. Existe uma tentativa bem grande de inserir a desconfiança e a volatilidade dentro do Orgulho, inclusive com o potencial de uma traição feita pela mão queimada de Tina Minoru. Essa tensão é essencial para ambientar o Orgulho como um típico reduto de vilões, mas também é usada para impor um lado mais brando, menos agressivo e mais cuidadoso e aqui estou me referindo aos Yorkes. O casal é bem caloroso e melhor aproveitado na série do que jamais foram nos quadrinhos, a não ser por algumas breves cenas da fase conduzida por Joss Whedon.

A trama do passado garante, também, que Molly receba justificativas para se mostrar tão interessada em saber mais a respeito de seus pais, assim como o mistério ao redor de sua força incomum. E usando um movimento bem interessante para a composição de personagem, o roteiro usou a conexão entre Molly e Catherine para valorizar a relação entre mulheres, mãe e filha. Catherine, como mencionei na crítica passada, é uma das mais implacáveis dentro da série e aparece sempre envolta em uma aura de dominação, mas assim como Leslie Dean, ela também se compadece quando confrontada por situações complexas como a maternidade e, especialmente, a culpa.

Runaways 1x03: Destiny
Runaways 1×03: Destiny

Também preciso dedicar um momento para falar da personagem que mais me intriga e figura como uma favorita, pelo menos em quesito vestuário – em uma produção cheia de personagens ricos, visualmente falando. O elo entre Nico e Molly é bem fácil de ser traçado. Ambas perderam no passado. Molly os pais e Nico a irmã. Só que a jovem Minoru perdeu muito mais no processo. O próprio relacionamento entre ela e os pais não é ao menos próximo do ideal. Existe ali uma tentativa muito grande de impor um ritmo menos agressivo e humanizar os Minoru adultos, mas o roteiro é inteligente ao afastá-los, trabalhando cada um individualmente, enquanto Nico explora a magia. E explorar a magia é uma ótima alegoria para as transformações da adolescência, mas Fugitivos o faz literalmente, colocando Nico para fazer nevar dentro do escritório da mãe.

Quando volta a trabalhar seus adolescentes, Fugitivos mostra que é sim uma série bem forte e que sabe conduzir arcos individuais, mantendo interessante pareamentos inusitados. Desde o piloto já estávamos antecipando um encontro entre Gert e Chase, aqui colocado através de uma ótica menos complicada e bem mais amena. Enquanto os dois vasculham o escritório do pai de Chase, o lado cômico da dupla emerge, assim como a química que ambos os atores tem. É claro que Fugitivos, por ser direcionada a um público mais novo, irá trabalhar conceitos como relacionamentos amorosos, descoberta etc. Por isso, ver uma aproximação entre estes dois é previsível, mas também muito bom.

Cada um destes adolescentes precisa lidar com questões muito particulares a idade, mas com um elemento nada esperado, o fantástico. Magia, poderes, dinossauros, pais assassinos e cultos misteriosos entram dentro da série para alavancar dramas e pressionar personagens para situações nada usuais. Logo, ver como cada um deles reage a ambientes estranhos é onde mora o brilho da série. Karolina procura respostas, Molly compreensão do próprio corpo e de seus pais, como várias crianças adotadas, Gert usa seu humor para se esconder e Chase seu status para fugir da genialidade pressionada por seu pai. E mesmo que Alex ainda não tenha conseguido algo melhor desenvolvido, por enquanto, seu momento com Nico já cria possibilidades.

Runaways também se distancia das outras produções da Marvel não apenas por lidar com adolescentes e seus dramas, mas por conseguir impor características visuais e sonoras tão particulares. O trabalho de Alexandra Patsavas na escolha das músicas é maravilhoso, assim como a identidade visual que a série mantém. Em um mundo genérico criado pela Casa das Ideias na televisão e também no cinema, com cores escuras, paletas acinzentadas e quase nenhum tom marcante, além das aberturas das séries da Netflix, ver tanta cor e sonoridade particular enriqueceram minha experiência com a série, que está cada vez melhor e mais satisfatória. Ainda temos um bom caminho para percorrer até o final da primeira temporada, mas já posso afirmar que esta figura como a melhor estreia da Marvel em 2017.

Easter eggs e outras informações em Destiny:

– A cena entre os Minoru é saída direto de 50 Tons de Cinza. Medo? Eu também.

– Enquanto Molly está tentando fugir do banheiro, a música escolhida para compor a cena é Fuerza, de Tonny Quattro. E o superpoder de Molly é a força.

– Nos quadrinhos o ‘Staff of One’ que a mãe de Nico empunha e que a filha depois passa a usar, só pode ser ativado quando sangue é derramado e com uma palavra específica. O cajado também não gosta de repetições e palavras repetidas criam momentos imprevisíveis. Na nona arte, por exemplo, a Nico só pode falar cura uma vez, tendo que procurar uma similar quando precisar curar alguém novamente, como ‘pontos’, ou ‘desfibrilador’.

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– Alfazema, nome do dinossauro, tem um link empático com Gert. O que a adolescente sente, o dinossauro também.

REVISÃO GERAL
Nota:
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