Bons personagens, Sean Austin e Guillermo Del Toro em destaque e muito mistério. O que podemos esperar mais de uma série? Um ótimo piloto
Tornou-se recorrente na TV as adaptações literárias. Mais ainda nos últimos anos onde ideias boas para televisão estão em algum lugar que não conhecemos. Se pararmos para pensar, “a crise” também se estabeleceu no cinema já que os remakes, reboots e franquias dominam as produções.
No caso de “The Strain” temos uma ótima surpresa com a direção de Guillermo Del Toro e auxílio luxuoso de Carlton Cuse (LOST) na produção. A série é uma adaptação da “Trilogia da Escuridão”, que conta com o próprio Guillermo Del Toro e o escritor Chuck Hogan como responsáveis.
Piloto redondo: falta de clichês ajuda dinâmica do episódio
Quando você vê o Dr. Ephrain “Eph” Goodweather (Corey Stoll) participando de uma sessão de terapia de casal até pode imaginar: “Ok, mais um herói problemático, que toma aspirina com vodka, vai se revelar um homem sensível e diletante nas aventuras da vida”. Nada disso. Enquanto tenta se revelar melhor, descobre que mesmo sendo suficiente, ser workhalic lhe traz problemas sérios. E fica por aí.
Deste momento em diante, o quase divorciado epidemiologista da CDC está completamente concentrado em tentar descobrir o que aconteceu com um voo específico de Berlim para Nova Iorque. Nele, 206 passageiros (em um total de 210) estão mortos sem aparente sinal de violência ou traumas corpóreos. Óbvio que uma pulga fica atrás da orelha da sua pequena equipe, formada ainda por Jim Kent (Sean Austin) e a Dra. Nora Martinez (Mía Maestro). Como isso poderia acontecer em pleno voo, sem que ocorresse nenhum acidente aéreo (já que toda a tripulação é atingida), especialmente na aterrisagem? Vai juntando…
Quando o avião é vasculhado um certo temor toma conta da gente no sofá. A forma como Del Toro conduz as cenas, numa perspectiva vertical, deixa-nos com a sensação de ineditismo e de exploração de Eph e Nora a bordo na nave. É quando você vê que não precisa da trilha alta ou mesmo de olhares esbugalhados para denunciarem um terror que precisa ser crescente e não descarado. Ponto para os diretores.
Mais do que sangue, tem até amor em The Strain
Aos arredores do JFK, aeroporto que fica a poucos quilômetros da ilha de Manhattan, em Nova Iorque, a polícia cerca o espaço e impede que imprensa e curiosos possam fazer estardalhaço com o mais novo mistério. Acontece que o pessoal do desembarque começa a ficar intrigado quando uma caixa gigantesca, com formato talhado e artesanalmente trabalhado, se encontra entre as coisas trazidas pelos germânicos e/ou americanos para o Tio Sam. Passaria batido se esta caixa não revelasse um ser soturno e sem rosto, que fará uma ‘cirurgia’ plástica na cara de Bishop, um dos funcionários do aeroporto (Andrew Divoff), o primeiro a ficar curioso com aquele “pacote” que chegou ao setor alfandegário.
Pensa que acabou? E o que dizer do armênio (eu não esqueci, viu?) Abraham Setrakian (David Bradley), um colecionador de relíquias, que certamente já participou desta, até aqui,“epidemia” ? Experiente, vai ao encontro dos responsáveis pela investigação para contribuir com suas histórias e quem sabe, com sua ‘bengala-espada’, ajudar a erradicar o mal? Bem, em “Night Zero”, a única coisa que Setrakian consegue é ser companheiro de cela de um curioso resmungão.
Uma das qualidades do episódio piloto de “The Strain” é que apesar de falar de uma espécie mutante de vampiro e, logo ao final do episódio, deixar muito claro que um apocalipse zumbi pode se consolidar, tudo é feito do jeito “Guillermo Del Todo de ser”, ou seja: as informações estão ali, você pode absorvê-las, mas, mesmo sendo óbvias, ele não denomina e deixa tudo para que o enredo evolua junto com a visão do espectador; uma ótima maneira de fazer entretenimento sem ser pueril e ainda criar expectativa para que o público “cresça” junto com os personagens.
Um bom exemplo disso: não fica claro quais são as intenções, por exemplo, da dupla que comanda o grupo Stoneheart (sutil, não?), mas só o fato de ambos serem responsáveis pela “encomenda” que vem da Alemanha, já deixa muita gente curiosa (inclusive eu) de como foi possível fazer com que aquele box pudesse não estar relacionado entre as bagagens/cacarecos do voo. Bom observar que as tomadas externas lembram muito o jeito de Christopher Nolan filmar Gotham City na “Trilogia Cavaleiro das Trevas”, o que não deixa de ser uma baita referência.
E você deve estar se perguntando… “Mas por que diabos se fala tanto em amor neste episódio?”
Porque segundo o narrador, quem a gente ama e que vai embora sem se despedir, acaba voltando de alguma forma e este retorno, no caso das vítimas do “parasita”, acaba sendo apavorante para o público e cego para quem o recebe; a dicotomia absurda de que aquela pessoa ali não é a “mesma” que foi, mas a dor da perda é tão grande que a recepção não cabe perguntas. Pelo menos é isso que acontece ao final do excelente piloto.
“Night Zero” é episódio para se assistir mais de uma vez e concorre certamente a uma das melhores estreias do ano.














