Dissecando a filosofia da autora de Harry Potter.

The Casual Vacancy foi um livro turbulento. Após o fim daquela que pode ser considerada a mais importante saga infanto-juvenil de todos os tempos J. K. Rowling tinha que, em algum momento, continuar a escrever. Uma amiga minha, dona de uma locadora de livros, resumiu bem a situação: qualquer coisa que ela colocasse no mercado depois de HP ia virar best-seller. O nome da autora tinha um poder que hoje só pode ser comparado ao de George R. R. Martin. O que ela fez foi extrair toda a magia juvenil de sua principal saga e agregar as questões sociais que são abordadas de forma sutil e didática nos corredores de Hogwarts em um único romance. Rowling é claramente de esquerda, e o modo como ela aborda esse pensamento é extremamente diferente nessas duas obras.

Harry Potter possui um charme incomparável nesse quesito. Através da simplicidade juvenil o leitor dos livros é lentamente educado sobre algumas das maiores atrocidades já cometidas na face da Terra. Somos acariciados com lições sobre companheirismo, altruísmo e preconceito. Somos ensinados a não julgar de forma intolerante e a estender a mão para os que mais precisam. O que The Casual Vacancy faz é juntar todos esses argumentos e atirá-los com força em nossa cara, sem nenhuma misericórdia. O livro para mim é, figurativamente, um mamute gigantesco e fedorento exposto a todos sem que ninguém queira sua presença. Não há aqui espaço para lições basilares sobre trouxas, sangues-ruins e sangues-puros. Eles são substituídos pela população pobre de Fields e pela quase aristocrática comunidade de Pagford.

As duas formas me encantam, até porque tenho o mesmo pensamento da autora. Embora a recepção do romance tenha sido morna, o modo com que ela consegue discutir política e ao mesmo tempo desenvolver inúmeras tramas envolvendo paternidade, vício e aceitação social é fenomenal. O livro tem um desconfortável e genial método de dissecar os pensamentos mais sujos de cada personagem e transformá-los em texto. Seria espetacular ver esse artifício reproduzido na série, mas ao ver esse piloto fica claro que algumas decisões complicadas tiveram que ser feitas para acomodar a trama do romance em três episódios de uma hora.

Alguns personagens são eliminados, outros recebem um tratamento diverso (uma delas até muda de etnia, sabe-se lá se é para preencher a cota racial ou outro motivo obscuro). Algumas decisões realmente me agradaram: o personagem de Barry Fairbrother, importantíssimo para o desenrolar da trama, morre já no prólogo do romance e estende seu fantasma pelo resto do livro. Na série seria difícil conjurar um sentimento parecido de forma que a criadora Sarah Phelps tratou de nos apresentá-lo de forma impactante antes de sua inevitável morte. Barry é um ponto vital da história. Sua insistência interminável em ajudar o povo de Fields e evitar um “apartheid” catalisado pelos Mollison é o que sempre trouxe equilíbrio para a pequena comunidade. Sua morte inesperada abre uma vaga no conselho de Pagford e desestabiliza todas as relações da trama, de forma até mais importante no livro. É como se o nosso Congresso Nacional perdesse todos os deputados e senadores de esquerda ou de direita de uma vez só: sem uma balança minimamente calibrada nós nos aproximamos dos piores extremos que a humanidade já enfrentou, seja este um governo de extrema direita ou extrema esquerda.

Outro ponto que me agradou muito foi o elenco. Michael Gambon é estupendo sem fazer esforço algum, não canso de me surpreender com a capacidade artística desse ator. Dessa vez sua tarefa é interpretar um personagem genuinamente odioso e mesquinho. Sem problemas: o ator pula de mentor afável em Harry Potter para burguês egoísta nessa série sem qualquer dificuldade. Julia McKenzie, interpretando sua esposa, também me agradou muito. De outro lado temos um elenco adolescente que é vital para o desenrolar da trama, e Abigail Lawry como a rebelde Krystal Weedon promete muito.

Na verdade o piloto de The Casual Vacancy oferece muitas promessas sem realmente concretizá-las. São muitos personagens para introduzir e o material mais interessante provavelmente está nos dois últimos capítulos. Alguns elementos, entretanto, desde já não me agradaram. Já na primeira cena da temos um diálogo bizarramente expositivo, resumindo toda a história da série em poucas frases. O resultado é tão ridículo e alarmante que fiquei com medo de que o restante do episódio fosse arruinado pela mesma falta de sutileza, mas felizmente não foi o que ocorreu.

Por outro lado o final do piloto também me deixou preocupado pelo seu potencial de destruir aquela que considero a melhor trama do livro. Os comentários do fantasma de Barry Fairbrother são catalisadores essenciais para o desenrolar do enredo, peças de sátira deixadas no site oficial do conselho de Pagford que dissecam os segredos obscuros de cada candidato ao posto do falecido. O esqueleto que Barry vê por alguns segundos no armário e a sequência final quase dão a entender que estamos diante de uma série sobrenatural. Não sei o que pensar sobre o assunto se essa for realmente a decisão tomada pela showrunner, mas invariavelmente fico decepcionado pela destruição do enredo original (falarei mais sobre ele na próxima review para evitar possíveis spoilers).

The Casual Vacancy demonstra potencial mas não traz para a tela da televisão os elementos mais marcantes (pelo menos para mim) do livro. Resta saber se suas outras qualidades compensarão essa desvantagem, algo que não ficou claro nesse piloto.

Bullet Points 

– Preparem-se para alguns personagens realmente enfurecedores. Fats, o amigo de Andrew Price que só consegue pensar em sexo, Howard e Shirley Mollison, controladores do conselho de Pagford, e Simon Price, o pai e marido violento, são os espécimes mais repugnantes.

– Não faço a mínima ideia se a série atraiu quem não leu o livro porquê… Bem, porque eu li o livro e isso muda totalmente sua visão sobre uma obra adaptada. Estou muito curioso pelo feedback de vocês sobre a trama. Acharam interessante?

– A cena em que Howard e Shirley são educadamente despejados da casa de seus “amigos” é genial. O modo com que Gambon e McKenzie atuam deixa claro que eles percebem que não são bem-vindos mas fingem não perceber. As expressões de fingida ignorância sobre o significado de ser removido da casa pela porta do lixo são fenomenais. Entretanto, acho que para os não-leitores a cena ficou confusa já que nenhuma explicação é dada sobre os dois personagens desconhecidos (explicação essa que ocupa um capítulo inteiro do livro e percorre quase um século de história fictícia sobre Pagford).

– Curiosidade: o ator que interpreta o irmão mais novo de Andrew Price se chama Sonny Serkis. Seu pai é Andy Serkis, conhecido por uns papéis aleatórios aí como o Smeagol de Senhor dos Anéis e Cesar da nova trilogia do Planeta dos Macacos.

– Outro momento inspiradíssimo de Michael Gambon (sério, eu amo esse cara): sua “amigável” conversa com o filho na qual ele o pede para se candidatar ao posto que Barry deixou vago com sua morte e, depois de sua recusa, ameaça-o sutilmente com o dinheiro que ele gasta na educação de suas netas.

– Sukhvinder, a menina com o headphone, é uma das personagens mais interessantes do livro e eu realmente espero que ela não seja apenas uma desculpa para os produtores enfiarem música na série.

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