Pagford e seus segredos.
Pagford é composta de segredos. Daqueles bem enterrados com zelo, nos mais profundos recônditos da idílica cidadezinha inglesa. E com a repentina partida de Barry Fairbrother e o surgimento de seu “espirito” vingador, nenhum segredo está a salvo. E assim vamos desvelando as camadas da ilusoriamente simpática e harmoniosa convivência de seus moradores e expondo as mais vis atitudes e pensamentos dos mesmos.
E os efeitos da visão ácida do fantasma sobre os principais concorrentes ao cargo vacante foi o passo que faltava para que as máscaras começassem a cair.
– Simon Price. E nada do que aconteça com ele é pouco. Irascível, sacana, detentor do “jeitinho” de se dar bem à custa dos outros, mereceu a difamação que lhe foi imposta. Somente pelo fato de se aproveitar da morte do meio irmão para alavancar as chances de eleição (colocando os flyers nos cânticos funerários), o tornaria passível de ser rechaçado, além dos bens adquiridos de modo escuso.
– Miles Mollinson. Não há nenhuma palavra que o defina melhor que capacho. Sempre à sombra de alguém, sejam os pais ou a mulher, como alguém que não tem um pingo de iniciativa seria digno de ocupar o cargo do batalhador finado? Cedendo a pressão e descontando na comida, nem o impulso (sexual) da mulher o faz tomar alguma atitude. Além de seguir a risca todas as vontades do pai e da mãe. Um boneco nas mãos de outrem.
– Colin Wall. Uma bomba prestes a explodir. Instável, hipocondríaco, levado a crises e ataques debilitantes. Mesmo se considerando herdeiro do legado de Barry, sua instabilidade emocional e o filho não ajudam a manter essa imagem o fazendo passar por alguém frágil e não passível de sobreviver ao “jogo sujo” do conselho de Pagford.
Interessante notar que é o conflito de gerações e os abusos (e o desejo de vingança) dos jovens da cidade que leva ao surgimento do “Fanstasma”. Andrew Price, como modo de se vingar do abuso físico e mental que a família sofre na mão do pai, e de certo modo para ajudar Colin a conseguir o lugar do tio age primeiro denegrindo a imagem de Simon e Miles. Stuart age de plena vontade para se vingar do pai, mais para ver circo pegar fogo, com aquele comportamento cínico e lascivo.
Comportamento esse que irá colocar Krystal num caminho sem volta. “O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe” essa citação cai com uma luva em Krystal Weedon. Atrás de toda aquela marra e maquiagem há uma garota normal, que tem sonhos sobre o futuro e a ilusão de uma final feliz. O momento catártico em que ela cai aos prantos mais retém o choro, depois de a mãe dar indícios de melhora do vício é um exemplo desse delicado equilíbrio emocional que elas mantem. E Stuart chega para desmanchar tudo isso.
Mas o momento mais catártico do episódio foi sem duvida o jantar na casa de Miles Mollinson. Ali a tensão era palpável e o momento em que a (perdão pela palavra) merda atingiria o ventilador era aguardado e definitivo. Cortesia de Samantha Mollinson e do vinho. Tudo o que estava preso na garganta de alguns foi colocado para fora sem filtro. As verdades jogadas na cara do de Howard e Shirley Mollinson pela Drª Jawanda não somente foram sentidas como lavou a alma de muita gente do conselho e que por razões de aparências não foram ditas antes. Foi paulada atrás de paulada, e mesmo que os “donos” da cidade tenham saído por cima da situação, a visão imponente dos outros perante a eles nunca será a mesma.
E com segredos descobertos e livres, o caldeirão cheio de preconceito, abuso e vício que é a pequenina Pagford chegou ao ponto de ebulição. E quando o mesmo transbordar, toda a cidade será atingida em cheio pelos efeitos das atitudes dos conflitos gerados em prol do bem da “comunidade”. Mas não seria Pagford um espelho das grandes cidades e os moradores, visões dos mais deturpados pensamentos de nós mesmos? Daquilo que guardamos a sete chaves e que mantemos em segredo? Segredo, essa é a palavra chave.
Bullet Points
– Estarei assumindo a review deste e do último episodio da minissérie no lugar do Aaron.
– Michael Gambon continua dando um show de atuação no papel de Howard Mollinson. Cenas tão dispares, como das alfinetadas na Drª e a do banheiro, comprovam a versatilidade do ator;
– Falando em Howard, aquelas visões de morte (assim como as de Barry) inseriram um elemento um tanto sobrenatural que não está presente no livro;
– A trilha sonora continua uma sacada genial;
– Sobre a cena da biblioteca entre Stuart e Krystal: Kierkegaard. Este diálogo é de um cinismo incrível;
– Agradeço a Drª Jawanda pelo panorama visual dos Mollinson e Sweetloves;
– A cena da igreja, com celulares tocando, entradas inesperadas, critica a vestimenta e tudo o mais, só comprova que poucas pessoas gostavam de Barry na cidade. Não há show de aparências mais visível do que aquele.












