A nova animação da HBO, Animals, dá muito espaço para discussão. Muito mesmo. Só vi os primeiros dois episódios e já tenho um montão de coisas pra escrever. O que você precisa entender é que você não vai saber o que acha de Animals mesmo depois de ver a série. Você só vai entender os seus sentimentos sobre a novata da grade da HBO quando falar sobre ela com alguém.
Observação: só para ser mais prático e menos confuso, vou tirar o ponto final do título da série. Só avisando.
Ok, vamos lá.
Animals é uma comédia animada criada por Phil Matarese e Mike Luciano – que também escrevem e atuam na série, daí os nomes dos personagens centrais sempre serem Phil e Mike – que foca nas aventuras inusitadas dos animais da cidade de Nova Iorque. Até aí, tudo bem. Nada de muito brilhante. Só que Animals retrata os bichos como pervertidos degenerados e cheios de personalidade humana, enquanto despreza a existência dos próprios humanos. Nós estamos lá, representados pela trama de um prefeito que mata uma prostituta durante o sexo, mas não temos voz. Animals não está nem um pouco interessado em humanos.
Uma coisa curiosa? A equipe só escreve os pontos-chave do roteiro e todos os diálogos são improvisados.
No primeiro episódio, um rato tenta perder a sua virgindade quando é convidado para uma festa. No segundo, um pombo acredita ser uma fêmea porque confundiu uma bolinha de golfe no seu ninho com um ovo. Animals não tem receio de tocar em assuntos com nervos sensíveis – razão pela qual está sendo amplamente criticada por órgãos como a Variety – e para mim isso é apenas um ponto positivo. Mesmo que algum tópico tenha toda a minha empatia, espero que Animals tire o sarro dele sem qualquer misericórdia, porque é o que eu acho que o humor deveria fazer. Long story short, se você é transsexual, Animals vai te ridicularizar no segundo episódio, então pense bem antes de investir seu tempo na série.
Dois ratos e uma prostituta morta
Phil e Mike, os dois ratos que protagonizam o primeiro episódio, assistem uma montanha repulsiva de gordura ter relações com uma mulher minúscula. Já dá pra entender a série no primeiro minuto: a animação é estilisticamente limitada e os diálogos, totalmente improvisados, são orgânicos e divertidos. A série também arranja formas criativas de te dar informação, como quando um dos roedores diz que a mulher parece estar trabalhando (modo de Animals te dizer que é uma prostituta). Mais tarde a gente descobre que o cara é o prefeito e uma trama bastante caricata e bacana surge daí. A magia de Animals está nas pequenas gagzinhas que você tem de desviar o olho pra ver, como a carta de chantagem que literalmente diz ‘você está sendo chantageado’.
Dois cavalos com inveja
A conversa desses dois cavalos serve pra dar um avanço no sub-plot do prefeito e apesar de surgir no meio da festa dos ratinhos, não faz o episódio perder o ritmo. Aqui a gente vê aquela típica conversa esnobe de duas pessoas (ou nesse caso, animais) que fingem não estar com inveja de uma terceira pela sua última conquista. Mas acho que Animals funciona melhor com animais menores, viu.
Dois ratos entram numa festa
A maior parte do episódio se desenrola durante a festa a que Phil e Mike vão. As piadas são tão pequenas (perdoem o trocadilho) e breves que se você não tiver o timing para pegá-las, você fica para trás, como quando o Phil nega querer um tutorial de como fazer bebês já escondendo um bloco de notas já preparado para fazer anotações. E olha que piadas de um único frame nem deveriam ser tão impressionantes por causa do estilo da animação, mas é tudo tão… surreal. Desde o DJ Lab Rat (que tem uma orelha nas costas, numa referência a uma das experiências científicas mais controversas dos últimos tempos) tocando Avril Lavigne à filha que Mike faz no banheiro e que passa por toda a sua infância e puberdade antes que a festa acabe. Todas as vozes são tão perfeitas que você vai passar a achar estranho não ouvir ratos conversando. O ponto-chave nessa storyline é Phil e a sua vergonha por nunca ter feito bebês, mas como tudo é bem costurado, a trama de Mike entra em sincronia com a do amigo no final, quando Phil se apaixona por uma Rebecca já crescida sem saber quem ela é e eles decidem fazer bebês. É claro que Mike se revolta com a situação, mas acaba aceitando quando todos descobrem que um dos comprimidos que Phil tomou era veneno de rato. E é assim que um dos nossos personagens centrais encerra o episódio: morrendo enquanto uma fêmea senta na sua cara (como ele viu a prostituta fazer com o prefeito lá no começo).
Dois piolhos na virilha do prefeito
Uma das minhas viagens preferidas do episódio. Um par de piolhos queima um monte de tópicos de conversa enquanto relaxam no saco do prefeito, tudo pra u deles acabar confessando que só colocou um brinco para se sentir jovem e continuar lutando contra o vazio que o seu divórcio deixou nele. Os dois depois desfrutam um pouco do sangue com Hepatite B do humano, que eles dizem ser delicioso. A forma como essa cena corre é perfeita e eu recomendo que qualquer pessoa que esteja em dúvida sobre assistir ou não Animals dê uma olhada nela.
Ótimo primeiro capítulo, saltemos pro segundo pra ver se a coisa se mantém.
Homem branco, bola branca
Continua a saga do prefeito assassino. Ele agora está procurando pelos responsáveis pela chantagem e vai eliminando nomes de uma lista. Mal sabe ele que um dos seus capangas é um detetive infiltrado – e a revelação disso é uma das cenas mais ridiculamente orquestradas da série até o momento –. Essa história é propositalmente cheesy e dá o pontapé inicial pra todas as nossas aventuras principais. A bolinha de golfe do jogo do prefeito que dá início à história de…
Phil, o pombo que é uma pomba
Lembra quando eu disse que se você fosse transsexual deveria se preparar para ser ridicularizado por Animals? Então. Quando a bolinha de golfe vai parar no ninho do pombo Phil, ele assume que é uma mãe e começa uma transição de macho para a fêmea que vai dar o tom para todo o episódio. Só para deixar claro, gostei bem mais desse segundo episódio do primeiro, simplesmente por ele ser mais… maluco. E impiedoso. Todas as cenas que são baseadas em Phil aprendendo a ser uma pomba são divertidíssimas e te deixam super desconfortável porque você sabe exatamente a reação que algumas pessoas vão ter a isso tudo.
Duas lagartas, cantadas de pedreiro
Vamos falar sobre a outra historinha do episódio, a de Alan e Brian, as duas lagartas que passam o tempo assediando fêmeas que passam por eles. Brian é péssimo nessa ‘arte’, então Alan resolve se tornar o seu tutor. Só que Brian acaba se transformando numa borboleta e as posições se revertem: Alan agora é o pequeno da relação. Esse pequeno twist foi bem imprevisível, sinceramente, e leva o episódio pra mais lugares absurdos e falas que são tão imbecis que não têm como não te fazer rir (‘It just came on my face!’). Alan é um desastre tão grande que é impossível não se divertir com ele. Seja ele pensando em se matar ou ele fazendo a terrível dança da minhoca no final, o personagem acrescentou bastante ao episódio, pra mim. E sei lá, ter pequenas histórias dentro das histórias centrais só torna o mundo de Animals mais vivo e intrigante pra mim.
A corrida até a senhora verde com o sorvete na mão
Temos outro Mike aqui. Mike o pombo. Mike acha um absurdo Phil achar que é uma pomba, mas também tem umas ideias bem estúpidas. Ele decide, para preservar a sua honra, apostar uma corrida com Jerry, o babaca, até a Estátua da Liberdade. É claro que a gente só tem a agradecer pela estupidez de Mike, porque é aqui que o episódio ganha vida. Tudo a partir desse ponto é uma série de piadas, uma mais ridícula do que a outra. Phil decide seduzir Jerry para fazê-lo perder a corrida, mas acaba se apaixonando por ele, enquanto Mike decide tomar esteroides para vencer a corrida. Os detalhes mais insignificantes também só enriquecem essas piadas, como Phil sequer se importando em inventar um nome feminino e o ‘Dove’ tatuado no pescoço do pombo vendedor de esteroides. No fim dá tudo certo e todo mundo vira amigo, de um jeito tão bizarro que acaba sendo totalmente inesperado mesmo para quem já estava de mente aberta para o estranho.
Beleza, agora a gente precisa de uma conclusão pro texto, mas é meio difícil achar o que escrever porque eu não tenho tanto pra falar sobre Animals quanto pensava. É uma comédia bem simples e deve dividir bastante a audiência. Eu estou na metade dos que estão adorando, mas se você estiver do outro lado, acho que consigo entender porquê. Animals não é nada do que eu esperava quando me voluntariei para escrever sobre ela aqui e duvido muito que alguém esperasse por algo tão… específico.
E por favor, me deem um episódio sobre furões. Furões são legais pra cacete.













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