A aclamação de Person of Interest. 

Todos morrem sozinhos. Mas se você significa algo para alguém, se você ajuda alguém ou ama alguém, se até mesmo uma única pessoa se lembra de você, então, talvez… Você nunca morra de fato

The Machine

O episódio final talvez seja o mais complicado de uma série. Ela pode coroar todo um trabalho bem feito ao longo de várias temporadas, porém também é capaz de destruir, com apenas um passo em falso, tudo de bom que foi construído. É claro que as decisões tomadas pelos responsáveis nunca irão agradar a todos, porém no fim das contas serão elas que determinarão o que será falado sobre a série para todo o sempre: aclamação ou ódio. E Person of Interest será aclamada.

Return 0 soube trazer um desfecho coerente a uma série que, apesar de ser de ficção, sempre teve como grande virtude os seus personagens, tanto os principais como coadjuvantes. Desde seu episódio piloto, POI investiu suas fichas em John e Harold e foi a partir da relação entre os dois que a série cresceu, sempre agregando mais e mais personagens fortes, às vezes deixando marcas pela perda de alguns queridos, outras nos fazendo vibrar pela morte de vilões que ousaram ameaçar ou tirar a vida de nossos personagens favoritos. Assim, mais importante que mostrar a derrota do Samaritan e seus “ativos”, POI precisava mais do que tudo apresentar um destino satisfatório para Finch, Reese, Shaw e Fusco que fosse condizente com a história de cada personagem desenvolvida ao longo das temporadas.

E por isso a escolha para o final foi a de fazer um episódio emocional. Um episódio que tratou sim de resolver as últimas pendências da série, de mandar o Samaritan literalmente para o espaço, de vingar a morte de Root (porque ninguém mata um dos nossos em POI e sai impune), mas que, principalmente, soube oferecer aos fãs a oportunidade de se despedir de cada um dos personagens, sentir suas últimas aflições, entender suas últimas decisões, sorrir, chorar. Um episódio que nos fará sentir saudades de Person of Interest para sempre.

Os caminhos dos personagens foram tão bem traçados e desenvolvidos ao longo da série que o desfecho dado a cada um deles, especialmente a Reese e Finch, são de uma lógica impossível de se refutar. John foi salvo por Harold, ganhou um propósito em sua vida, se redimiu de uma vida pregressa de ações duvidosas e mortes desnecessárias, protegeu inúmeros irrelevants e, portanto, não havia nada mais obvio e coerente do que ele se sacrificar por Finch, do que salvar a “vida certa” – e ainda de quebra a humanidade como um todo. A despedida de John foi sublime, o diálogo com Harold absolutamente perfeito (mais um de tantos outros que a série nos proporcionou), a música de piano ao fundo incrível. John se foi, mas morreu herói como seu pai, cumprindo com êxito sua última missão, honrando a fama do man in suit. John se foi, mas Harold, Lionel e especialmente nós não iremos nunca nos esquecer dele. Descanse em paz, Big Guy.

Quanto a Harold, seu destino foi aquele que os fãs mais desejavam e também o que traz maior justiça ao personagem e a tudo que ele passou não só após a criação da Machine, mas desde seus tempos de adolescente, com a perda do pai por demência e tendo que viver sob outra identidade após ter invadido a ARPANET. Desde o piloto e ao longo de toda a série, a sombra de um final triste sempre esteve em volta de Finch, porém ao mesmo tempo em que sua morte parecia cada vez mais provável, a cada episódio que se passava a torcida para que isso não ocorresse aumentava cada vez mais, pois simplesmente não era justo que uma pessoa com seu coração, caráter e ainda responsável pelo salvamento de tantas pessoas não pudesse ser feliz em ao menos uma parte de sua vida.

E a maior felicidade que Harold poderia vir a ter caso sobrevivesse sem dúvida seria poder ficar ao lado de Grace.  É verdade que Return 0 não nos mostrou o resultado final do tão esperado encontro entre eles, porém é no flashback que ocorre logo no início do episódio que a resposta sobre o futuro dos personagens é dada, uma vez que Grace diz a Harold que sejam lá quais fossem os segredos dele, ela não se importava, pois o amava de qualquer jeito. A verdade é que os dois personagens foram feitos um para o outro e sinceramente não importa se Harold um dia irá contar ou não a Grace todos os motivos que o fizeram se afastar dela: isso não irá mudar a opinião dela a respeito dele.

Return 0 não só deu um fechamento para os personagens humanos da série, como também foi perfeita ao fazer o mesmo com a Machine. A opção de personificá-la na forma de Root foi arriscada, porém mostrou-se incrivelmente acertada e talvez o toque diferenciado que transformou o sofrimento final de Harold pela perda de John e a própria morte deste em um momento sublime. Além disso, ainda que a morte da Machine não viesse a ser nenhum absurdo, a sua sobrevivência foi também uma decisão correta. A criação de Finch pode ter perdido todas as simulações de batalha prévias contra o Samaritan, porém o importante é que a única que ela venceu era a que estava valendo, sendo que sua sobrevivência – ou porque não dizer ressurreição – deixa aos fãs um quê de continuidade, uma sensação de que, apesar de não mais estarmos acompanhando, ela ainda está lá, zelando por todos e de olho para que nenhuma outra nova IA criada por um gênio menos cuidadoso que Harold possa vir tentar dominar o mundo novamente.

O destino de Shaw era talvez o mais difícil de prever. Após quase morrer na temporada anterior e ter se suicidado mais de 7000 vezes nas simulações do Samaritan, seria muito injusto sacrificar a personagem novamente logo após ela ter se livrado das garras da máquina do mal. Por outro lado, encontrar um rumo para Sameen também não era tarefa simples, visto que depois da perda de Root e da dissolução do Team, nada mais restava à personagem. Return 0 no entanto encontrou a saída perfeita. Por meio do contato direto com a Machine, Shaw pôde ouvir pela voz de Root o que a hacker pensava dela e deixar de se culpar por não sentir da mesma maneira que as demais pessoas. E isso então finalmente a fez sentir… e chorar. No mais, apesar de receber a ligação da Machine no final, o episódio não deixa claro se Sameen continuará a trabalhar para ela ou irá tocar sua vida – ela agora está livre para vivê-la do jeito que quiser e isso é o que realmente importa (mas será que alguém acha que ela vai perder a oportunidade de atirar em alguém de vez em quando?).

Quanto a Lionel, o desfecho do personagem pode ter sido o mais fácil de adivinhar, porém em contrapartida quem poderia dizer que aquele policial corrupto da primeira temporada, que tentou se livrar de John por mais de uma vez, iria chegar onde chegou, da forma que chegou?  Ao longo das cinco temporadas, Fusco cresceu como personagem, completou sua redenção, ajudou a desmantelar a HR, escapou por muito pouco da morte pelo menos três vezes e terminou firme e forte ao lado do Team, tendo como última missão proteger a própria Machine em seus momentos finais. Assim, nada mais justo que, uma vez que Lionel é o único dos membros do Team que possui uma vida real e normal, ele possa vivê-la em sua plenitude, porém agora transformado em uma pessoa muito melhor após sua convivência com John e Harold.

Enfim, foram 5 temporadas incríveis. Durante cinco anos (ou menos para quem maratonou) os fãs de Person of Interest vibraram, torceram, riram e choraram com uma série que em nenhum momento subestimou seu público e que sempre entregou episódios de muita qualidade e bem trabalhados, mesmo em uma temporada final encurtada por imposição da CBS. Assim, só nos resta agradecer a Jonathan Nolan, Greg Plageman e toda a equipe da produção de POI, além é claro de Jim Caviezel, Michael Emerson, Amy Acker, Kevin Chapman, Sarah Shahi, Enrico Colantoni, John Nolan, Taraji P. Henson e demais atores que fizeram parte desse grande show.

Adeus Harold. Adeus John. Adeus Root. Adeus Lionel. Adeus Sameen. Adeus Elias. Adeus Machine… POI pode ter acabado, mas vocês estarão sempre vivos, pois nós nunca nos esqueceremos de vocês.

Observações

– “Se consegue ouvir isso, você está sozinho. A única coisa que resta de mim é o som da minha voz. Eu não sei se algum de nós sobreviveu. Nós vencemos? Nós perdemos? Eu não sei. Mas de qualquer forma, acabou. Então deixe-me contar quem nós éramos. Deixe-me contar quem você é.”

A fala de abertura da temporada foi finalmente revelada e vimos que ela veio de uma ligação feita pela Machine e que foi gravada em um gravador analógico. Mas para quem ela seria? Bom, a minha teoria é de que a gravação era para ela própria… ou melhor, para sua nova versão, uma vez que se ela vencesse a luta contra o Samaritan, apenas o seu código principal sobreviveria. Desta forma, a gravação (ou melhor, a continuação dela), seria uma forma de devolver à Machine parte de sua memória.

– Bear ficou com a Shaw e isso também foi lógico, visto que ela gosta bastante dele. Mas eu fiquei com dó do Lionel, que já tinha se acostumado com a companhia.

– Shaw ainda voltou a ser ela mesma e tratou de dar um fim em Jeff Blackwell, vingando assim a morte de Root e provavelmente resolvendo todas as pendências que tinha em seu íntimo. Desta forma, fica claro que a função de Jeff era realmente não deixar que Root fosse morta por um personagem qualquer e que o personagem só durou até a series finale para que Shaw (e nós) pudesse ter sua vingança.

– A série terminou sem que soubéssemos os sobrenomes reais de John e Harold, sendo que no caso de John ainda nos foi dado uma palhinha das três primeiras letras em sua lápide: “Tal”. Conforme o Pedia of Interest, a última letra do sobrenome de John seria um “s”, o que nos permite supor alguns sobrenomes. As opções mais comuns nos EUA para a combinação: Tal…s seriam: Talamantes; Talamas; Talas; Tallas; Tallis.

– Quanto a Harold, se não foi dada pista alguma sobre seu verdadeiro sobrenome, ao menos o episódio revelou que suas escolhas por sobrenomes de pássaros têm a ver com seu pai, que aprendeu tudo sobre migração de pássaros apenas como desculpa para poder levar Harold para fora de casa e assim acalmar a criança agitada que ele era.

– Dado o tamanho do apocalipse cibernético (como diria Lionel) criado pelo Ice-9, podemos dizer que POI explicou neste episódio porque Harold não havia cogitado usá-lo antes.

– E tendo em vista que Northern Lights levou a culpa pelo míssil lançado pelo Samaritan, acho que a Machine poderá operar tranquila até que uma nova IA apareça novamente, não?

– #ChupaSamaritan 

Agradecimentos

– Obrigado a todos vocês que acompanharam as minhas reviews aqui no Série Maníacos. Vocês foram sempre leitores educados e agradáveis, além de ótimos companheiros de discussão sobre os episódios e teorias futuras. Escrever sobre Person of Interest foi um prazer muito grande devido a grande qualidade da série, porém posso dizer que foi ainda melhor por tê-los lendo e comentando meus textos! Valeu, irrelevants!!!! A gente se fala lá no telegrama, hein?

– E um agradecimento especial também ao Michel Arouca, que permitiu que eu pudesse fazer parte dessa incrível equipe do Serie Maníacos a partir do ep. 1×15 de POI. Obrigado, Boss!!!

Frases

– “Você me criou para predizer pessoas, Harry. Mas para predizê-las, é preciso realmente entendê-las, e isso se provou ser muito difícil. Comecei dividindo as vidas deles em momentos. Tentando encontrar as correlações, o que explicava o motivo de como agiram. E descobri que o momento que costuma mais importar… O momento em que se descobre de verdade quem elas eram… era quase sempre o último.” (Machine para Finch)

“Deus, você também tem a inconveniência dela!” (Shaw para Machine)

“Harold, sejam lá quais forem os seus segredos, eu não me importo. Eu amo você de qualquer jeito.” (Grace para finch)

“Isso é perfeito. Você aprendeu o segredo da vida e esqueceu!” (Finch para Machine)

“Eu sabia que vocês eram loucos… Mas isso é outro nível de loucura!” (Lionel para John e Finch)

“Acho que Finch também não é fã de despedidas melosas.” (Shaw para Lionel)

“Eu gosto desse seu novo lado, Finch. É tenebroso, mas eu gosto.” (John pra Finch)

“Nada mau para um cara que pratica atirando em papelão.” (Shaw para Lionel)

“Eu ajudei a trazer você a este mundo. Agora vou ajudar a deletar você dele.” (Finch para Samaritan)

“Eu te escolhi exatamente por quem você é, mas havia algo que acho que Root gostaria de ter dito a você. Você sempre pensou que havia algo de errado com você, por não sentir as coisas como as outras pessoas sentem. Mas ela sempre sentiu que isso é o que te deixa linda. Ela queria que você soubesse que se você fosse uma forma, você seria uma linha reta, uma flecha.” (Machine para Shaw)

Diálogo 1 (Lionel e John)

L: Sempre soube que você seria meu fim.

J: Desculpe tê-lo envolvido nisso, Lionel.

L: Bem, se não tivesse me envolvido nisso, eu nunca teria me endireitado. Por sua causa, sou um homem melhor. Um homem mudado.

J: Então, o que você fez com o Agente LeRoux?

L: Eu o deixei em um porta-malas. Acho que não mudei tanto assim.

Diálogo 2 (John e Lionel)

J: Tente não morrer.

L: Eu também amo você. 

Diálogo 3 (Lionel e Shaw)

L: Sabe que sou policial, certo?

S: Se fôssemos comer donuts e jogar cartas, você estaria no comando.

Diálogo 4 (Finch e Machine)

F: Você já lutou contra ele nas simulações e nunca ganhou. Você não irá sobreviver.

M: Dessa vez eu não tenho a opção de perder.

Diálogo 5 (Finch e John)

F: Sinto muito, Sr. Reese.

J:  Finch, o que está fazendo?

F: Quando te contratei, suspeitei que seria um ótimo funcionário. O que não pude prever foi que você se tornaria… um amigo tão bom.

J: Você não conseguirá descer do prédio sozinho.

F: Eu não pretendo. Receio que este seja o fim da nossa parceria. Adeus, John.

J: Harold. Finch, espere. Espere! Harold! Espere! Harold!

Diálogo 6 (Finch e Samaritan)

F: As pessoas muitas vezes são felizes vivendo em uma mentira, mas não deixarei que transforme o mundo inteiro em uma.

S: ESSA DECISÃO É SUA?

F: Não. Mas estou tomando-a mesmo assim.

Diálogo 7 (Finch e John)

F: Nenhuma dessas antenas é capaz de transmitir para uma órbita Molniya. Estou no prédio errado.

J: Está no prédio certo, Finch. Para você.

F: John. O que está fazendo?

J: A Machine e eu combinamos algo há um tempo. Um acordo. Eu te disse. “Eu vou te pagar tudo de uma vez.” É assim que gosto. 

Diálogo 8 (Finch e John)

F:  Não era para ser assim.

J:  Claro que era. Isso é o que eu faço, lembra? Quando você veio até mim, você me deu um emprego. Um propósito. No começo…. Estive tentando salvar o mundo por tanto tempo que eu…. Salvar uma vida de cada vez parecia um pouco decepcionante. Mas depois eu percebi, às vezes uma vida… se for a vida certa… é o suficiente. Adeus, Harold.

Diálogo 9 (Shaw e Jeff Blackwell)

S: Na verdade, há alguns anos, eu teria matado você sem pensar duas vezes. Mas eu conheci algumas pessoas. Algumas pessoas boas. E elas me ensinaram o valor da vida.

B: Essas pessoas não iriam querer que você me matasse.

S: Você está certo. Mas elas estão mortas.

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