“A verdade é que Deus tem 11 anos de idade e ela nasceu no réveillon de 2002, em Manhattan.”

Após um final de 2ª temporada muito criativo e interessante, o retorno de Person of Interest chegou como um pequeno balde de água fria sobre a cabeça dos fãs que certamente esperavam um episódio no mínimo mais agitado.

Contrariando as expectativas, Liberty foi um episódio morno e não contou com as características que se espera de uma season premiere típica. Ao invés de suspense, ação e uma trama diretamente relacionada com os principais plots da série, os roteiristas optaram por utilizar um caso da semana simples, comum e nada diferenciado, deixando em segundo plano os assuntos principais de POI.

No entanto, como estratégia para construção da temporada o procedimento funcionou bem, uma vez que, ao contrário da do final da primeira temporada em que Harold terminou nas garras de Root, a 2ª foi finalizada com os plots bem resolvidos, o que obrigou os roteiristas a fazerem uma premiere mais didática e cuidadosa, mostrando a situação de cada um dos personagens principais da série e preparando o terreno para que o plot de cada um deles seja abordado futuramente na temporada no momento certo e com coerência.

Aliás, esse é um cuidado que sempre pode ser observado em POI e que precisa ser enaltecido, afinal, são poucas as séries que não abusam de plot twists e respeitam o tempo necessário para que um personagem em situação difícil possa superá-la sem que isso se torne inverossímil. Dessa forma, por mais que o público deseje ver Elias de volta às suas armações ou Root aprontando suas loucuras, seria completamente insensato que o mafioso fugisse facilmente de uma prisão americana ou, da mesma forma, a hacker deixasse a clínica psiquiátrica.

Pois então comecemos pelo plot de Root que, para mim, foi de longe o que de melhor houve no episódio. Seguindo a cena final da última temporada, na qual Root recebe um telefonema da agora livre, leve e solta Machine, Liberty mostrou que máquina e hacker agora trabalham lado a lado, planejando sabe-se lá o quê. Claro que as expectativas apontam para algo não lá muito agradável e que, cedo ou tarde, virão a causar problemas para John e Finch, porém pelas dicas dadas no episódio é a Machine (e não Root) quem está no comando.

E quais são essas dicas? Bom, a primeira delas está logo na abertura de POI, na qual a hacker é apontada pela Machine como “interface análoga”. Ora, se Root é uma interface para a Machine, significa que ela é um meio, uma “ferramenta” humana (análoga, ou seja, não digital) a ser utilizada para atingir um (ou mais) objetivo(s).

Uma segunda dica é bem mais óbvia e ocorre no diálogo de Root com seu psiquiatra (Dr. Ronald W. Carmichael), uma vez que ela não só compara a Machine a Deus como também diz estar em meio a uma discussão com esta, na qual ambas estão divergindo sobre matar ou não o pobre doutor. Mais do que isso, Root claramente afirma que ela foi escolhida pela Machine, mas ainda não sabe o porquê, e que, pela primeira vez em sua vida, está (um pouco) amedrontada com o que irá acontecer.

Já a terceira e última dica vem logo em seguida a essa cena, quando vemos a Machine processando as informações após o diálogo da hacker com o Dr. Carmichael. Em primeiro lugar Root aparece selecionada em um quadrado formado por linhas pontilhadas pretas com bordas amarelas (diferente do amarelo cheio que vemos em John, Finch ou Shaw), com a Machine exibindo a informação“Monitoring Asset” (Monitorando Ativo).

Então a Machine passa a gerar as probabilidades de ocorrência de determinadas situações a partir do diálogo por ela observado, sendo algumas delas muito interessantes: Violência: 34,98%;  Morte de ativo (Root): 12,51%; Ativação de ativo: 28,49%; Ativo capturado:  62,91%; Crise evitada: 17,56%; Morte de Carmichael, Ronald W.: 78,06%;  Morte Admin (Finch): 12,66%; Evento com grande número de vítimas: 9,86%. Por último, ela conclui: “Probabilidade de sucesso: Desconhecida”.

Assim, é bastante claro que a Machine está usando Root para atingir um objetivo próprio, sobre o qual não se tem ainda a mais remota ideia do que seria. Estaria ela rebelando-se contra os humanos ou tomando decisões com a finalidade de prevenir alguma situação desastrosa? Seria ela tão inteligente a ponto de decidir o que é bom ou não para a humanidade? Essas são as respostas que claramente deverão ser perseguidas ao longo desta temporada e para as quais deveremos prestar mais atenção.

E um outro ponto de atenção parece ser, para o nosso deleite, Elias. Salvo por Carter e peça principal no objetivo da detetive de derrotar a HR e limpar o nome de Cal Beecher, o mafioso parece estar quietinho aguardando o momento de voltar a ativa. Carter deseja que ele permaneça invisível e Elias segue escondido em um porão, porém o mesmo não se pode dizer de seu braço direito Scarface, que não só já havia sido visto perambulando por “território” da máfia russa (conforme dito por Carter a Elias), mas apareceu no final do episódio aproveitando-se da bagunça criada por John para salvar o POI da semana (o marujo Jack Salazar) para adquirir alguns diamantes. Alguma dúvida de que Elias está lentamente arquitetando sua volta?

Pelo jeito só Carter ainda não se ligou de que é isso que irá acontecer, insistindo em lidar sozinha com a situação sem ao menos contar a Reese e Finch o que está ocorrendo. E isso sinceramente foi algo que me incomodou no episódio, afinal, a detetive costuma ser mais esperta do que isso. Por que diabos ela iria esconder o fato de John e Harold? Medo de que eles tomem a frente e deixem-na sem saber das coisas? Ou simplesmente por não querer envolvê-los em mais uma confusão? Não é necessário ser nenhum gênio para concluir que essa atitude de Carter é um desastre anunciado, certo?

Mas  o que acabou prejudicando o episódio mesmo foi o caso da semana, que terminou sendo muito simples, comum e praticamente igual a muitos outros que já vimos na série. Creio que mesmo com todas as escolhas acima que precisaram ser feitas pelos roteiristas, poderia haver espaço para um caso mais interessante e tenso. Por que não trazer um vilão um pouco mais perigoso, como por exemplo, Alistair Wesley, que apareceu em “Critical” (7º episódio da 2ª segunda temporada) e nunca mais deu as caras?

E com um caso da semana bem simples, as ações de John e Finch acabaram ficando em segundo plano, principalmente no caso de Harold, que mal apareceu no episódio (e o que para mim é uma falta grave). No final quem acabou ganhando mais destaque foi Shaw, mais uma vez por uma clara escolha dos roteiristas em enfatizar a nova situação da personagem e todos os problemas que ela pode gerar para a dupla dinâmica. No entanto, a mim a personagem de Sarah Shahi ainda não cativou, pois não sou lá muito chegado a mulheres com atitudes masculinizadas e não acho que estas são necessárias para uma mulher se tornar uma baita agente. Sydney Bristow (a  personagem de Jennifer Gardner em Alias – se é que ainda existe algum seriemaníaco que não a conheça) é prova disso.

Enfim, Liberty acabou sendo um episódio abaixo daquilo que POI costuma e tem potencial para fazer, porém ainda assim consegue nos deixar ansiosos e curiosos por tudo o que poderá vir a acontecer na série daqui por diante, com a Machine agindo por conta própria e utilizando Root para atingir seus objetivos, Elias tramando sua volta e Carter planejando vingança contra a HR. Contudo, espero que desta vez a série demore um pouco menos para desenvolver alguns plots e que tenhamos uma sequência nesta 3ª temporada mais agitada e semelhante à incrível segunda metade da 1ª temporada. Potencial está claro que POI possui.

Observações

– Como mais um ponto de grande competência e coerência, o episódio sutilmente indicou o rebaixamento de Carter logo no início, apenas mostrando-a no uniforme de policial. Depois até houve o diálogo com Elias, na qual ela o corrige quando ele a chama de “detetive”, porém para o espectador apenas a primeira cena já era bastante esclarecedora.

– Fusco pelo menos apareceu um pouco no episódio e mais uma vez foi o alívio cômico, com aquela ridícula barba à la Abraham Lincoln, passando verdadeiros apuros nas mãos de Shaw e também sendo largado por John para desativar a bomba, porém creio que isso ainda é pouco diante o grande potencial do personagem. Penso que não falo apenas por mim ao desejar que o detetive seja melhor aproveitado nesta terceira temporada em relação ao que foi na segunda.

– Outro ponto digno de aplausos é a rapidez pela qual POI incluiu os acontecimentos reais e atuais de espionagem envolvendo os EUA no contexto da série. Ainda espero que eles venham a ser mencionados com maior profundidade no futuro, mas a sutil inclusão dos fatos no diálogo entre Root e o Dr. Carmichael logo no primeiro episódio da temporada demonstra uma grande capacidade da série em usar a realidade para tornar sua premissa ainda mais verossímil.

– Se POI pretende que Shaw um dia venha a disputar John com Zoe, aquela cena dela traçando um bifão no garfo ao final do episódio definitivamente não a ajudará em nada… #TeamZoe!

– O diálogo entre Root e o Dr. Carmichael foi o ponto alto do episódio, porém nada como as boas e velhas alfinetadas entre John e Finch:

F: “Foi muito bem, Sr. Reese. Estou pensando agora que nunca soube como você se alistou no exército.”

J: “Porque eu nunca te contei, Finch. Sou uma pessoa muito reservada.”

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