Seu legado é mais do que um nome.
Num revival extremamente bem sucedido, Creed: Nascido para Lutar, traz de volta às telas a emoção da franquia Rocky, estrelada por Sylvester Stallone. A utilização da palavra revival parece ser mais exata para descrever o resultado, por causa, principalmente, da sensação que deixa no espectador. Quem assiste ao longa e tem na bagagem os antigos filmes com o eterno Italian Stallion, fica com a impressão (positiva, registre-se) de estar diante de uma grande homenagem, com intuito claro de reviver uma história inesquecível, trazendo-a para uma linguagem mais atual.
O diretor e roteirista Ryan Coogler, é extremamente feliz na releitura de seu filme de 1976 e nos apresenta em Creed uma jornada que remete à Rocky, mas tem diferenças sutis entre seus personagens principais.
No filme, Adonis Johnson (Michael B. Jordan) é o filho ilegítimo de Apollo Creed, considerado o maior lutador dos pesos pesados de todos os tempos. Apollo, que além de rival nos ringues torna-se um precioso amigo para Rocky Balboa, morre durante uma luta, antes mesmo de Adonis ter nascido. O garoto cresce sem pai, perde a mãe e passa a infância entre orfanatos e reformatórios, onde não foge das brigas e mostra que tem DNA de lutador, até ser regatado por Mary Anne Creed (Phylicia Rashad), que o acolhe como filho e dá à Donnie um mundo de oportunidades.
Donnie, no entanto, tem algo a provar. Diferente de Balboa, que carregava o peso do coletivo, de mostrar-se valoroso para a família e comunidade italiana da Philadelphia, Donnie está numa jornada pessoal. O personagem não quer estar à sombra do pai e, na verdade, evita o quanto pode ser associado a Apollo, mas em nenhum momento deixa de aproveitar os trunfos que esse legado pode trazer.
É nessa hora em que Rocky Balboa (Sylvester Stallone) – que recentemente rendeu a Stallone um Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel – entra em ação. O “tio”, afastado do universo do boxe há anos, reluta em aceitar ser o treinador de Adonis, mas esse “doce”, dura pouco, é claro, e logo vemos a dupla em ação, seja nas cenas de treino intenso, de conversas motivacionais, ou nos incontáveis momentos de puro humor que permeiam o filme e o tornam leve e divertido.
É preciso ressaltar essa qualidade do roteiro de Creed sem poupar elogios, pois o timing de comédia e a relação construída entre Rocky e Adonis são os alicerces principais do longa, que conquista a audiência com simplicidade. A luta, para ambos, rapidamente torna-se maior que a dos ringues, com Rocky e Adonis lado a lado, um significando para o outro o amor familiar e a motivação para vencer.
Outro ponto alto é a filosofia do filme. Cada diálogo carrega significados importantes sobre superação, mas não apenas no ambiente esportivo. A mensagem, que vem também embutida nas vivências da personagem Bianca (Tessa Thompson) mostra que um dos temas aqui também é a paixão e a oportunidade de se fazer o que se gosta, mesmo quando nem tudo está a seu favor.
Além de tudo isso, outros destaques são a trilha sonora por Ludwig Göransson e o apuro na construção das cenas de luta. Cada soco parece real e doloroso. Confesso que desviei diversas vezes dos golpes (uma mistura de movimentos de Apollo e Rocky, criando um super Creed), já que a movimentação de câmera trazia essa impressão de proximidade e realidade.
Além da caça às galinhas, que se mostra uma técnica de treinamento bastante moderna, impressiona ainda a sequencia em que Adonis deixa de ser apenas o “Hollywood”, por ter vindo de Los Angeles para tentar se tornar um lutador profissional, e se insere na comunidade negra de Phili, numa corrida intensa, acompanhada por diversas motocicletas. Essa cena é quase que um paralelo com a cena clássica da escadaria, onde Rocky sobe correndo os 72 degraus que dão acesso ao Museu de Arte da Philadelphia, conhecida, após o filme, como “Rocky Steps”.
O espaço não é esquecido e é integrado ao filme de forma delicada e significativa. O mesmo pode-se dizer das diversas referências aos filmes que tornaram Creed possível. Toda a história de Rocky Balboa está ali, permeando a história e dando-lhe significado, mas em nenhum momento é ela quem domina o cenário. Fica a sensação de que Creed pode se tornar um recomeço, embora não saibamos ainda se haverá continuação. Mas se mais filmes como esse vierem, a receptividade tem tudo para ser das mais positivas.






















