A leitura proposta por Danny Boyle para o controverso e adorado Steve Jobs, baseada na biografia escrita por Walter Isaacson é, em poucas palavras, uma experiência rítmica muito bem conduzida. Evitando reproduzir na tela apenas uma sucessão de fatos, o roteiro cria uma espécie de quebra cabeça, onde os bastidores dos famosos lançamentos protagonizados pelo co-fundador da Apple, são os marcadores que possibilitam os encaixes temporais da narrativa e nos inserem em uma jornada onde temas relevantes como identidade, tecnologia, relações humanas, amor e sucesso são explorados de forma rápida e mesmo assim consistente.
Seria lugar comum tentar fazer paralelos entre as produções do cinema (incluindo a versão com Ashton Kutcher) e literárias que já falaram sobre Jobs e suas conquistas, porém é importante dizer que essa talvez seja a primeira vez em que uma produção sobre ele ficou preocupada em priorizar o tratamento dos cenários motivacionais, focando nas verdadeiras intenções e nas consequências das suas ações. O texto procura desenvolver a personalidade do homem que contribuiu para a solidificação do mundo virtual em que estamos, conscientes ou não, vivendo, sem ter medo de parecer refém das leituras anteriores.
Michael Fassbender no papel de Jobs é pura excelência, uma atuação honesta e bastante convincente, uma leitura que passa longe da cópia (que não precisa de artefatos digitais ou maquiagem excessiva) e consegue construir uma abordagem própria. O filme, dividido em três grandes atos (Macintosh, NeXT Computer e iMac) começa com a tentativa ousada de Jobs, já como CEO da Apple, em 1984, de lançar e defender o famoso sistema fechado, segue para 1988, após a sua saída temporária do grupo e termina dez anos depois, quando ele reassume seu posto.
O pano de fundo, como um palco de uma peça de teatro, são os bastidores desses lançamentos. Claro que uma parte do público achará estranho o fato de que todos os acontecimentos da vida pessoal de Jobs sejam tratados apenas naquele ambiente de tensão e ansiedade. É importante frisar que esse recurso do roteiro, permite de certa maneira, que o biográfico saia do lugar comum; sendo assim bem curioso ver um tratamento que não se preocupa em se manter próximo de uma abordagem esteticamente realista.
Por falar em tratamento, sei que muitos já devem ter lido (o filme foi lançado em outubro do ano passado nos EUA) sobre o uso de câmeras diferentes para cada um desses atos (1984 em 16mm granulado, o segundo ato em 35mm brilhante e o terceiro em formato digital de alta definição); essa mudança na tela fica bem perceptível e bonita. Além dessa maravilha, toda a montagem se apoia em artes gráficas que também simbolizam essa mudança de tempo.
O avanço tecnológico e as diferentes linguagens que ele constrói, são ingredientes importantes para que possamos pensar a respeito dos valores internalizados pela sociedade em que vivemos. A tentativa de criar um espaço onde todos desejem viver e conviver, de certa forma faz com que a noção de realidade seja alterada, nos impulsiona para um território rico, mas que vem provando não ser o suficiente para melhorar os diferentes tipos de relações humanas. Jobs, tido por muitos como um visionário, aqui aparece como uma figura bastante segura, porém nitidamente preparado para lidar especificamente com a vida profissional. Quando precisa mudar o código, revolver questões da sua vida privada, como a relação com a filha, seu sistema se mostra falho e pouco desenvolvido.
Como contraponto, temos Joanna Hoffman, a diretora de marketing que integrava a equipe da Apple, interpretada pela estonteante Kate Winslet (o papel já lhe rendeu o globo de ouro), que diferentemente, demonstra maior equilíbrio emocional, controle e uma dedicação fora do comum pelo que faz. Winslent, dotada de muito carisma, personifica o lado pouco valorizado nesse tipo de ambiente, ou seja, é ela que exige a verdade, cobra resoluções importantes da vida afetiva de Jobs e se mantém fiel ao que acredita.
O ritmo do filme é eletrizante, com diálogos e flashbacks interligados. O roteiro procura didaticamente nos situar nos acordos e nas situações que ocorreram anos atrás, mas que continuam interferindo no presente. Jobs, em várias cenas, compara a sua visão à de um artista, desenhando e estruturando o modelo de vida que poucos anos depois estaria correndo nas veias do mundo.
Se você espera um filme linear e repleto de camuflagens, vai ficar surpreso, o trabalho é de certa forma inventivo e nada cansativo. O elenco por si só é garantia de boa qualidade. Como diz a música do The Maccabees, Grew Up At Midnight, que está na trilha sonora, Steve Jobs é um filme sobre o crescimento, sobre o processo de criação, sobre quem nos abriga quando lutamos por algo e principalmente sobre as nossas imperfeições e ausências. É um retrato curioso (que me perdoem a falta de uma metáfora menos analógica) que vale a pena conferir na telona.






















