Epílogo de Mar do Sertão assume o horário das seis, devastado pelo pior fracasso da história da faixa.

Elas por Elas acabou no último dia 12 de Abril… e saiu de cena como uma imensa contradição: amargou o pior fracasso do horário das 18, mas também foi o maior sucesso comercial da empresa. Com uma trama contemporânea e muitas aberturas para contratos de propaganda, não foi um prejuízo comparável a seu desempenho com o público.

A coisa toda é complexa… Muitos anunciantes para pouca audiência; mas sempre considerando que a “pouca audiência” da Globo na maioria das vezes é maior que a de todos os outros canais juntos. Elas por Elas passou amargando uma reputação igualmente ruim, mas que, encaixada nesse modelo passível de vitrines comerciais, deixou a direção da emissora perdida com o que fazer desse futuro.

A última novela contemporânea da faixa foi em 2019: Órfãos da Terra. Desde então, veio uma sucessão de títulos de época ou de títulos regionais: Éramos Seis, Nos Tempos do Imperador (até então detentora do posto de pior fracasso), Além da Ilusão, Mar do Sertão e Amor Perfeito. A novela que seguiria Elas por Elas seria outra trama contemporânea, de Lícia Manzo, mas que foi defenestrada sem piedade, abrindo espaço para que a faixa voltasse ao regionalismo seguro, dessa vez apressado, que colocou Mário Teixeira diante da oportunidade de trazer de volta o universo de Mar do Sertão.

A frouxidão das decisões que cercam as seis horas, contudo, ainda parece em vigência. No Rancho Fundo começou sob a sombra de uma foto de divulgação “vazada”, que mostrava o núcleo sertanejo da novela com uma caracterização suja, bisonha, que não conversava de modo educado com o Nordeste. A web reagiu mal, com razão. Era um retrato superficial e grosseiro. Mario Teixeira, o autor, se apressou em dizer que tudo não passava de um engano e que aquele era só um “teste de paleta”.

Estive no lançamento de No Rancho Fundo dentro dos Estúdios Globo, onde vários núcleos tiveram partes de seus cenários montados; onde havia um clima de otimismo em grande parte dos envolvidos, mas onde a sensação de que as decisões ainda não tinham plena coesão se mantinha viva – se não pela falta de clareza sobre a volta dos personagens de Mar do Sertão, ao menos pela evidente insatisfação de Andrea Beltrão em cumprir essa obrigação contratual.

A história da novela emula A Família Buscapé e mostra a matriarca Zefa Leonel (Andrea Beltrão) encontrando uma pedra preciosa que vai fazer com que toda a cidade queira tirar proveito dessa nova fonte de riqueza. Em volta disso está o que a sinopse considera como a trama protagonista da novela:

“A história é conduzida pelos sonhos e amores de Quinota (Larissa Bocchino), a filha

de Zefa Leonel (Andrea Beltrão), que, com sua pureza e ingenuidade, não se dá conta

dos riscos que corre ao se aproximar de Marcelo Gouveia (José Loreto), o engenheiro

galanteador que mora na cidade. O que a moça pensa ser amor, na verdade, logo vai

se revelar desilusão. E nem a fúria da família Leonel, que acredita que Marcelo

desonrou a jovem, fará com que ele se case com Quinota – ainda mais depois de

abandonar a cidade. Mas os ventos do sertão vão soprar e colocar uma nova paixão

nos caminhos de Quinota: Artur Ariosto (Túlio Starling), o melhor amigo de Marcelo.

Um romance que terá que lidar com desafios ainda maiores após a descoberta da

pedra preciosa que, para além do dinheiro, vai trazer de volta à vida de Quinota o

mau-caráter Marcelo.”

Os personagens de Mar do Sertão estão concentrados apenas no núcleo de Debora Bloch e não exercem uma função “continuativa”. Eles existem como existiam na novela original, mas suas motivações têm a ver apenas com a trama vigente. Para os fãs de Mar do Sertão será um privilégio rever os personagens e buscar referências em seus diálogos; e para quem não viu a primeira, esse pode ser um convite.

A iniciativa é intrigante… Mar do Sertão foi uma novela bem-sucedida, mas não seria a primeira opção de quase todo mundo na hora de promover uma revisitação. De fato, todo o contexto do horário das seis – como bem vimos – parece desgovernado (Elas por Elas já soou uma decisão para remake bastante esquisita). Contudo, de todas as decisões que parecem emergenciais, essa talvez seja a que pode trazer de volta certa dignidade vespertina ao canal.

Deixo vocês com um vídeo que mostra um pouco de como foi o evento de lançamento; com direito a recadinhos de Clara Moneke, Thardelly Lima e José Loreto. No Rancho Fundo estreia amanhã, dia 15; e tem direção artística de Allan Fiterman. A obra é escrita com a colaboração de Marcos Lazarini, Dino Cantelli, Angélica Lopes e Renata Sofia. A direção geral é de Pedro Brenelli e a direção é de Bernardo Sá, Carla Bohler e Larissa Fernandes. A produção é de Silvana Feu e a direção de gênero de José Luiz Villamarim.

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