Semana de Vale Tudo consagrou Fátima como a nova dona do riso brasileiro e virou a chave definitiva que faz de Marco Aurélio o novo querido da TV.
Quando a Rede Globo fez seu aniversário de 30 anos, em 1995, decidiu comemorar do mesmo jeito que está comemorando agora, com um remake. A escolhida foi a épica Irmãos Coragem, de Janete Clair, que se marcou na história da teledramaturgia como um dos maiores sucessos da TV. O remake ficou nas mãos de Dias Gomes, e inicialmente a direção coube a Luiz Fernando Carvalho, conhecido por sua linguagem imagética possessiva e alheia ao gênero televisivo. Castigado com o horário das 18 (numa novela que nasceu para o horário das 21), o remake resultou numa sucessão de equívocos que o condenaram ao esquecimento.
Além dos problemas com a direção de Luiz Fernando (que desagradou o autor terrivelmente), a novela precisou passar por uma condensação inacreditável, indo de impressionantes 328 capítulos para 155. Essa condensação, é claro, mudou a forma como alguns personagens foram desenvolvidos. Junto disso, veio a também necessária mudança de linguagem, para o horário das 18, o que alterou mais uma vez perfis e resultados. Dessa maneira, o que o público viu foi um erro de cálculo da própria emissora, que acreditou ter estabelecido o “filão do remake nos horários leves” e saiu refazendo obras sem respeitar critérios óbvios.
Agora, 30 anos depois, no aniversário de 60 anos, uma estranha inversão de polaridades parecer assombrar a nova aposta do canal. Vale Tudo não está passando no horário das 18 e nem das 19, mas a cada nova semana, a sensação é de que salvando-se pouquíssimas exceções, o esvaziamento dos aspectos densos da novela a empurram para uma linguagem cada vez menos apropriada para o horário em que se encontra. Nessa última semana que assistimos, as decisões da autora Manuela Dias continuaram seguindo por uma estranha trilha de amortecimento.
Estrela das redes sociais e principalmente do público jovem, Maria de Fátima deu passos largos na direção do casamento com Afonso Roitman. O “mocinho” que só treina e prepara o próximo monólogo vazio sobre sustentabilidade, caiu nas garras da “influencer” depois dela ter agido como sua grande fã por apenas 5 minutos. O processo começou com a constrangedora sequência em que ela tenta convencê-lo de que foi abusada na infância, para escapar da mentira de que era filha de uma fazendeira.
Bella Campos é uma atriz inexperiente. Sua parte nessa controvérsia toda em torno da personagem tem apenas esse detalhe como sua verdadeira “responsabilidade”. Bella não estava pronta para uma personagem com as nuances da Fátima; mas a direção e a autora parecem não estar interessados em nuances e criaram uma Fátima mais chapada, superficial, que precisava do mínimo de “colorido” para funcionar em meio a seus rompantes de vilã de desenho animado e sua sinuosidade erótica constante. A Fátima de Bella está encaixada em um tipo de cena que flerta com um pouco daquele humor de situação típico dos programas de esquete. Que loucurinha a nossa Faty vai aprontar hoje?”. Como não rir das sequências hilárias onde ela e César trocam o nome do Afonso por “Dinheiro”?
Fátima, que era odiada em 88, agora virou “ícone”. A falha colossal na construção de Afonso (um riquinho hipócrita sem características redentoras) e na construção de Solange (que representa o politicamente correto que as redes exercem mas dizem que odeiam) pioraram esse processo. Não há como torcer para que Fátima se dê mal, porque Manuela Dias investe todo seu esforço em produzir momentos que possam passar os “mocinhos” pela lente da chatice; e em produzir momentos que fazem os vilões encontrarem brechas para expor carisma.
Sofrendo dessa obrigação da humanização, a autora está presa na década passada, quando o cinema convenceu o mundo de que era “legal” ficar contando a origem de vilões para mostrar como eles foram crianças sofridas ou adultos desgraçados. Durante essa semana, Odete teve uma cena com Consuelo em que elogiava sua competência e havia tanto potencial na sequência que me peguei torcendo para que as duas fossem amigas. Isso sem falar da bronca da CEO na irmã Celina, onde ela estava coberta de razão. De novo.
Esse “afrouxamento” no DNA dos vilões fez sua vítima mais severa no meio da semana, quando Marco Aurélio conheceu a menina que Cecília e Laís adotaram. Em 88, Marco Aurélio era um homem charmoso com as mulheres e carinhoso com o filho. Com o resto do mundo ele era terrível. Até pelo primo tinha um certo desprezo velado. Alexandre Nero – detentor de quilos de carisma – consegue fazer o público torcer pelo personagem em duas piscadelas. Essa é uma certeza que se estabeleceu quando o vimos com a cara pintada pela sobrinha. Nesse pé, a “banana” no final da novela será substituída por um coraçãozinho e um “gratiluz” escrito na tela.
Marco Aurélio não maltrata mais ninguém, não persegue mais o filho, ama a sobrinha e brinca com ela pela casa; além de livrar Leila daquele namorado picolé-de-chuchu que ela tem. Odete não demite ninguém, não é antipática, diz coisas sensatas, tem peguetes bonitões e coloca aquela família ridícula no lugar dela o tempo todo. Fátima é trambiqueira, mas está ferrando com uma amiga condescendente roubando dela um playboy com falsa consciência de classe.
Isso sem falar na quantidade de enredos superficiais, que estão há semanas esquecidos e que quando são lembrados nos fazem querer esquecê-los. Nada tem profundidade, nada tem substância e a esterilização é tamanha, que as maldades e ousadias dos horários “leves” parecem pesadíssimos em comparação. Entre a “comédia” involuntária de alguns núcleos e a muleta da “humanização” em outros, Vale Tudo se assemelha cada vez mais a um “siricutico” das 19, facilmente acalmado por um pouco da “água com açúcar” das 18.
Quem tem medo de Odete Roitman? Ninguém.

Apesar de achar toda a mudança do Marco Aurélio um surto criativo, a menina Luara Telles, que faz Sarita, tem muito potencial.

Torço para que Caco Ciocler continue desfilando sua beleza e charme na novela. Quem sabe dão alguma espécie de enredo para Celina.

A semana foi um desastre de negligências… A própria protagonista sumiu, mas Tiago e André, amigos constantes na primeira versão, não se veem há milênios. Gilda teve uma cena sendo acusada de roubo que se resolveu em 45 segundos… e sumiu de novo. Cecília apareceu na mata caçando criminosos sem nunca nem termos entendido direito como ela se tornou uma agente de segurança… Depois, o tiro que tomou foi elipsado, para logo depois continuar sendo perseguida sem NENHUM estabelecimento de contexto e terminar acidentada depois de semanas de um relacionamento frio como gelo ao lado de Laís. É impossível torcer pelo casal simplesmente porque ele não parece um.






















