Chegada de bebês reborn oferecem a metáfora perfeita: de renascida essa novela não tem nada.

Na linguagem das artes dramáticas existe uma expressão em inglês que cai bem para o que se pretende discutir nesta crítica: out of character ou fora do personagem. A expressão descreve um comportamento atípico de uma pessoa dentro da própria vida (real) ou dentro do âmbito da ficção, quando um personagem conhecido por determinados traços de personalidade, faz uma manobra que não condiz com sua construção inicial. 

A vida de todos nós está passível de episódios que pareçam “fora do personagem”. Numa dramaturgia, contudo, o cuidado com essas manobras precisa ser redobrado, já que exatamente porque sabemos que aquelas vidas são inventadas, é que as decisões de quem as cria estão sob um intenso escrutínio. Quando um personagem de dramaturgia faz algo fora do que se espera dele, uma trilha de justificativas precisa ser percorrida; do contrário, o público julga aquela situação como uma situação oportunista. 

Na semana passada, Vale Tudo entregou a sua mais nova péssima semana. Enquanto bons atores lutam para manter a dignidade de seus personagens, o que se conhece deles escorre pelo ralo às nossas vistas. Sim, porque estamos falando de personagens que nós já sabemos quais são, e que por terem sido “revividos” trazem consigo uma parcela da gênese que eles representam. Em um remake é possível mudar completamente a personalidade de um personagem, mas esse é um dado que se apresenta logo no começo, como com Afonso, por exemplo. 

O herdeiro dos Roitman não lembra nada do que foi o Afonso de Cássio Gabus Mendes; mas essa parece ter sido a proposta desde que o remake foi concebido. O ciúme e o machismo que o regiam eram contrastados com muita seriedade profissional e afeto. O Afonso de Humberto Carrão foi recriado com outros vetores. Ele é hipócrita, passivo-agressivo, nada charmoso; e em seu lado esportista e preocupado com questões ambientais, reside uma condescendência social que beira o ridículo. 

Solange, contudo, renasceu com muitas características de sua antecessora. E de todos os personagens desse remake, deve ter sido uma das que mais agradou o público. Assim como na versão de 88, ela veio forte, focada no trabalho, carismática e segura. Os clichês sócio-políticos de Manuela Dias prejudicaram um pouco a personagem, mas também ajudaram a reforçar a sua postura de “resistência”. 

Isso até a semana passada, quando Solange se tornou “só mais uma”. É evidente que pela natureza da personagem, ela não aceitaria que seu salário fosse pago pela sogra que a odeia. Mas, a Solange que fomos levados a crer que havia “renascido” tampouco faria metade das coisas que fez desde que soube da armação de Odete. A começar pela postura submissa e carente diante de Afonso, que não só não combina com ela, como não faz sentido diante da manobra maluca da autora de inventar uma traição que ela teria cometido na Espanha. 

A traição cometida por Solange é totalmente out of character e só veio para aliviar a barra de Afonso. No original, Fátima e César armam situações para convencerem Afonso de que Solange o traíra. Dessa vez, Manuela Dias escolheu punir uma mulher que luta pela própria carreira, com um enredo em que ela é traída e humilhada justamente por isso. E depois de achar que possivelmente o namorado transou com sua amiga, Solange resmunga, implora, se embebeda e se submete. Resistência mesmo… só com Odete. 

O show de personagens perdidos no meio do caos criativo se estende aos apagados metaforicamente (como Solange) e aos apagados efetivamente. Bartolomeu, Fernanda, André, Tiago, Eugênio, Jarbas, Gilda… a lista é longa. Um desses apagamentos, entretanto, foi mais doloroso que o de Solange, o de Aldeíde. 

Manoel Carlos, em seus anos de ouro, ficou conhecido por fazer com que seus personagens comentassem as notícias mais populares do momento. Isso tinha um preço alto (os roteiros eram entregues em cima da hora e por isso Maneco conseguia inserir esses comentários em tempo quase real), mas também ajudava a novela a parecer mais íntima do público. Contudo, eram apenas diálogos. Toda vez que um autor tenta criar um enredo improvisado para cobrir alguma tendência imediata, o resultado é desastroso. 

Semana passada, infelizmente, Karine Teles ficou com a bananosa. Aldeíde – sem nenhuma relevância na trama até agora – foi escolhida para ser aquela que daria conta do plot dos bebês reborn. Ela assistiu parto, pensou em comprar um… surgiu por alguns minutos, de vez em quando, para não contribuir em absolutamente nada. O enxerto dessa história nos capítulos acabou soando puramente como uma exploração desesperada em busca de atenção, porque sabemos que o plot nem vai se aprofundar e nem ao menos ser verdadeiramente engraçado. 

Por fim, o bloco de capítulos também nos apresentou o “Mistério de Odete”. Manuela Dias inseriu na trama uma ida de Odete até um casebre, onde ela mantém alguém que não sabemos quem sob os cuidados de uma senhora. Isso não existia na primeira versão, mas foi inevitável não concluir que se trata de Leonardo, o filho da matriarca, que na primeira versão morreu em um acidente de carro anos antes da história começar a ser contada. Em 88, o alcoolismo de Helena era explicado com o trauma que ela vivia por ter sido a pessoa dirigindo o carro no momento do acidente. Na última semana da novela, Raquel conseguia descobrir que a verdade era bem mais assustadora. 

O ponto é: já que o assassino de Odete terá que mudar, o responsável pode vir daí. Contudo, se Leonardo estiver vivo, isso pode alterar consideravelmente a trama que Odete percorre nos últimos capítulos da novela. Com até o nome do ator que viverá o personagem já supostamente escolhido, resta saber de que maneira isso contribuirá para que a relação de Odete com a família seja melhor explorada. De fato, com os métodos da autora e da direção em vigência, somos levados a crer que essas mudanças podem esvaziar mais e mais um monte de personagens que se agarram a fiapos de consistência para se manterem vivos… de verdade. 

O casamento de Fátima e a passagem de tempo estão chegando logo logo… E acho que essa é que será a grande prova de fogo da novela. 

Celina é uma das personagens mais lineares da novela, até na primeira versão. Qualquer coisa que se crie para ela ameaça pouco seu desenvolvimento, porque com exceção da sociedade com Raquel, ela tinha muito pouco de uma história própria. Dito isso, torço para que Caco Ciocler e ela permaneçam juntos na trama. 

Leila finalmente gozou. Mas, sem isso jamais ter sido discutido nos capítulos anteriores, o impacto da revelação é nenhum. É impressionante o talento de Manuela Dias para desperdiçar absolutamente todas as oportunidades. 

A cena de Heleninha bêbada dançando no ateliê foi lamentável. Paola é uma atriz muito talentosa, mas está vendida, sem uma direção forte que a proteja de situações como essa. Aliás, tanto ela quanto Afonso agonizam e falham em todas as tentativas de ganharem nossa empatia.  

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