Não é uma tarefa tão simples quanto se possa imaginar transpor uma obra literária para as telas. É diferente, por exemplo, de uma série como Castle Rock, que encerrou sua temporada há poucas semanas. Embora fosse ambientada no universo criado por Stephen King, a série seguiu uma história própria e não teve amarras de nenhum tipo neste sentido. Mr. Mercedes, por outro lado, não apenas segue uma história pré-existente, como ela não é inspirada por um único livro, já que deriva de uma trilogia.

Nesse sentido, um dos principais méritos de Mr. Mercedes é conseguir se manter fiel à essência da obra do escritor, ainda que caminhe com suas próprias pernas, sem se prender demais à obra original. Se a primeira temporada manteve a cartilha das boas adaptações, principalmente ao trazer os principais personagens e acontecimentos, a atual é muito mais livre, pegando muito mais o conceito de O Último Turno e tomando uma série de decisões criativas próprias que não encontram respaldo na contraparte original. Isso é bom porque mantém a surpresa dos acontecimentos mesmo para os leitores do original, mas também porque mostra que os roteiristas entenderam a essência dos personagens e conseguem criar histórias e tramas novas, o que pode nos dar margem para novas temporadas, mesmo quando a história que compõe os livros tiver oficialmente acabada.

A série acerta em cheio também em aprofundar o background dos personagens secundários, mesmo aqueles que são mais descartáveis e cumpre apenas um papel narrativo específico, como é o caso de Al. Mesmo aparecendo poucas vezes, a roteiro consegue nos fazer ter empatia pelo personagem, entender seu drama e ter um panorama geral sobre a marionete de Brady, mesmo que seja apenas uma pincelada. Fell On Black Days trabalha principalmente na humanização de alguém que, ironicamente, Brady vê apenas como uma ferramenta. Cabe aqui também elogiar a boa performance de Mike Starr, que compõe um bom personagem, diferenciando bem as nuances de qual é Al e quando é Brady no controle.

O episódio acerta também ao conseguir estabelecer ótimos momentos de tensão, sendo talvez, um dos mais apreensivos da temporada. Muito disso se deve à ótima edição, conseguindo deixar as cenas dinâmicas, principalmente na reta final, quando não sabíamos onde Al atacaria, se a Holly na Achados e Perdidos ou Bill em sua casa. O ritmo foi crescente e realmente o roteiro conseguiu nos fazer temer pelos personagens. Só, talvez, sendo bem crica, tenha havido um pequeno problema ao colocar Donna chegando em casa bem no meio da tensão. Não sei se o roteiro queria nos fazer temer por ela também, mas sabíamos que a ela nada aconteceria, pois Al/Brady não tinha como saber sobre ela e Bill ou onde mora. Brady pode ter toda uma gama de novos poderes agora, mas premonição não é um deles.

Outro ponto interessante a se destacar é a boa direção, que volta para as mãos de Jack Bender. Sem apresentar seus tradicionais problemas de ritmo, a história segue de maneira fluída, com bons enquadramentos e cortes, além de conseguir distribuir bem o tempo de tela entre os núcleos paralelos. Todos no episódio têm seu momento de importância e nenhuma cena é avulsa ou mal utilizada. Até mesmo uma briga boba entre Bill e Holly sobre a cafeteira ligada se tornaria importante no clímax do capítulo. Às vezes o que falta para a série deslanchar de vez é apenas isso, ter uma melhor amarração entre seus núcleos, para que eles se interliguem de forma mais orgânica.

Apresentando um bom episódio, que prepara bem o terreno para essa reta final, Mr. Mercedes apresenta um bom ritmo narrativo, cenas de tensão bem construídas e bom desenvolvimento de personagens-chave para a trama.

Achados 1: Gosto de algumas escolhas criativas que a série bem fazendo, principalmente no que se refere aos poderes de Brady. Tentando dar um ar mais realista a algo fantasioso, a série deixa de lado algumas “breguices” que o livro apresenta. Al, por exemplo, embora tenha uma participação mais curta, é muito mais importante. No livro, quando “possuído” por Brady, era chamado de Z-Boy. É tão brega que até a narrativa da história brinca com isso. Só uma pequena autoindulgência do nosso escritor de terror favorito.

Achados 2: Prevejo um clímax muito tenso envolvendo Bill e Donna. Digo “prevejo” pois este arco foi desenvolvido exclusivamente para a série, não consta no original.

Perdidos 1: Jerome não apareceu, mas honestamente, não fez falta.

Perdidos 2: Também não encaixaram Holly muito bem na trama. O que é uma pena. Time Hodges bastante sub-aproveitado na temporada.

REVISÃO GERAL
Nota:
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mr-mercedes-2x07-fell-on-black-daysO episódio acerta na construção de tensão e aposta em um explosivo clímax, nos deixando ansiosos pelo que está por vir.