Um som. Um cheiro. Um sabor. Um local. Nossa mente se arma de gatilhos diversos para acessar as memórias em nossa cabeça. Através dela revivemos os melhores momentos de nossa vida e também os piores. Numa ironia cruel da vida, as memórias que mais machucam são as que vem mais rápido a superfície. É praticamente impossível esquecer um erro cometido, principalmente quando esse erro é um divisor de águas em sua vida.
Lee Chandler (Casey Affleck) é um exemplo vivo disso. Vivendo uma vida enfadonha como zelador e faz tudo de um conjunto de apartamentos em Boston, ele apenas “funciona”, afogando sua existência na bebida e na insensibilidade. Quando seu irmão morre, deixando um sobrinho (Lucas Hedges) e bens na cidade litorânea de Manchester, ele precisa retornar a um lugar que está diretamente ligado ao seu passado, colocando um conflito interno suprimido novamente em ebulição.
Kenneth Lonergan constrói um “drama de perda” em torno de Lee, deixando para seus atores espaço para trabalharem os personagens de maneira orgânica, construindo figuras de fácil identificação, mesmo que a situação vivida por eles não seja tão comum. Não busca a pena através de lágrimas gratuitas, mas da empatia e compaixão genuínas. É um filme que registra os momentos, se privando da intromissão da câmera na ação, agindo mais como um observador, junto com o espectador. Esse clima contemplativo fica ainda mais evidente no modo em que Affleck e Hedges atuam. Mesmo que haja um roteiro competente, muito das emoções não são expressas em palavras, mas sim na troca de olhares, nas pausas comedidas, naquilo que não é dito e sim sugerido. O uso de música clássica para os momentos mais dramáticos corrobora ainda mais esse clima de catarse sem a apelação excessiva do exagero cênico.

Affleck acaba aqui repetindo o desempenho de “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”, de um sujeito soturno, lacônico, mas que por dentro é um turbilhão de emoções. Curiosamente “O Assassinato…” foi o que rendeu a única indicação até agora de Affleck para o Oscar, mas se depender da cena na delegacia ao som de “Adagio per Archi e Organo” de Albinoni, ele já tem a “Oscar tape” perfeita para abocanhar o prêmio no dia 26 de fevereiro. Hedges surge como uma nova promessa, mesmo que aqui ele talvez não tenha mostrado todo seu potencial, provavelmente devido à companhia magnética do irmão Affleck mais novo, mas nas cenas de maior peso dramático ele consegue acompanhar sem problemas, dando vida a um adolescente que vê sua vida virada do avesso e tenta manter a aparente camada de atitude blasé típica da idade. Michelle Williams aparece pouco, mas quando aparece transborda emoção.
Manchester À Beira-Mar (Manchester by the Sea, 2016) acaba sendo uma obra sobre tentar superar as perdas do passado ao mesmo tempo em que se tenta encontrar um rumo para o futuro. Superar as memórias ruins, mesmo com todas as adversidades, e encontrar um ponto de clareza e felicidade que parece impossível. O que vale é a tentativa e não o resultado. Afinal, as memórias mais vívidas também são as mais dolorosas.
* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Sony Pictures Brasil
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