Uau! Que noite! Numa das cerimônias mais surpreendentes de seus longos 89 anos, quem sai mais triste do Oscar 2017 são os apostadores de bolões. Muitas das categorias anunciadas na noite de ontem eram praticamente impossíveis de serem previstas. Junte isso ao fato da premiação ter sido realizada num momento de efervescência política poucas vezes visto na história moderna e finalizada com uma gafe que chegou ao cúmulo do absurdo, e temos a certeza de que presenciamos um momento histórico no que se refere a premiações televisionadas. Certamente em 2018, muita coisa será diferente nos bastidores do Dolby Theatre.
A cerimônia começou com um número musical simpático de Justin Timberlake cantando ‘‘Can’t Stop the Feeling!’’ – aquela musica que ninguém agüenta mais ouvir, e que estava concorrendo a Melhor Canção Original pelo filme Trolls – a apresentação agradou principalmente pela interação da platéia, apesar de ser bem menos grandiosa do que os números espetaculosos que o Oscar está acostumado a entregar (Seria uma previsão de que grandes espetáculos não seriam contemplados nessa noite?).
A apresentação do comediante Jimmy Kimmel foi eficiente, apesar de visivelmente calculada. Houve poucos momentos fora do roteiro. A maioria das piadas eram centradas em Donald Trump (com direito ao envio de tweets provocativos ao presidente), nas polemicas raciais de outras edições (como já era esperado) e em particularidades dos filmes indicados (como acontece todos os anos). Apesar dele não ter aproveitado a possibilidade do improviso como faziam Billy Cristal e Bob Hope, estava visivelmente mais a vontade que os apresentadores recentes Ellen DeGeneres e Neil Patrick Harris, e mais agradável de assistir do que Chris Rock, que estava agressivo a um nível exagerado na cerimônia do ano passado, chegando a incomodar ao invés de provocar graça.
Sem duvidas, seu momento mais inspirado foi quando trouxe diversos anônimos para dentro da premiação. Um deles até tirou uma selfie segurando o Oscar de Mahershala Ali – vencedor da estatueta de Melhor Ator Coadjuvante por Moonlight.

Os discursos também chamaram a atenção e potencializaram o tom político, que já vinha se mostrando presente nos anos anteriores. Destaque para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro, onde o diretor do vencedor O Apartamento, Asghar Farhadi, não compareceu a cerimônia em protesto ao decreto de Donald Trump que restringe a entrada de muçulmanos no país. Ele enviou uma carta falando sobre discriminação, que foi lida por uma representante e arrancou calorosos aplausos da platéia. Com um tom menos político, porém não menos emocionado, o discurso de Viola Davis também emocionou a platéia e a vitória da atriz foi uma das mais comentadas pelas redes sociais.

Chegamos à parte que ninguém entendeu. Os prêmios. Quem acompanha o Oscar há algum tempo, conseguiu perceber desde o inicio da premiação que algo não estava normal. O primeiro sinal foi a vitória de Esquadrão Suicida como Melhor Maquiagem, já que a Academia tradicional não costuma premiar filmes massacrados pela crítica, mesmo que seus aspectos técnicos sejam louváveis. Depois, a derrota de La La Land em categorias que nas quais ele era dado como imbatível (figurino, mixagem de som e – principalmente – montagem) indicavam que, no mínimo, o filme não havia agradado tanto quanto se imaginava. E para finalizar, a derrota do musical para Moonlight, que veio acompanhada da maior gafe da história da premiação: Os apresentadores, Warren Beatty e Faye Dunaway, anunciaram La La Land como vencedor, e somente depois que toda a equipe do filme havia subido ao palco e dois produtores já haviam finalizado seus discursos soube-se que houve um erro, e o vencedor havia sido seu maior concorrente. Agora, passado o susto, vamos tentar entender como isso aconteceu:
Primeiramente, precisamos separar as coisas. Houve duas surpresas diferentes: o nome do vencedor e a maneira como foi anunciado. O anuncio foi, simplesmente, obra de um engano infeliz. Algum estagiário trapalhão – que certamente já foi demitido a esta altura – entregou para os apresentadores o envelope reserva da categoria que fora anunciada no bloco anterior (Melhor Atriz, cujo prêmio foi vencido por Emma Stone, de La La Land). Ao ver o nome do filme, a dupla de septuagenários se confundiu e anunciou-o como o vencedor. A produção do show, que tem cópias dos envelopes para conferir a veracidade dos resultados, percebeu o engano e tratou de corrigi-lo, mas não foram rápidos o suficiente para evitar o momento mais desagradável e embaraçoso desses 89 anos. Uma lástima, sem dúvidas.
Mas e o vencedor ? Mesmo se não houvesse esse engano, o favoritíssimo La La Land ainda teria perdido num ano em que ele era praticamente inderrotável. Como explicar isso? A única explicação possível – e quase inacreditável: A Academia está mudando. O principal motivo pelo qual o filme de Damien Chazelle era dado como favorito, era a identificação que os membros da Academia teriam com aquela história feita pela indústria para a indústria. Mas, após a polemica do #OscarSoWhite, a Academia promoveu uma grande reforma no seu quadro de membros, com a retirada de velhos figurões inativos e a inclusão de novos membros representantes da comunidade negra e latina – inclusive brasileiros, como Anna Muylaert. O que podemos concluir com esse resultado é que essas mudanças foram mais profundas e eficientes do que imaginávamos e, por mais que pareça inacreditável, finalmente algo parece estar mudando em Hollywood.
> Logan é o Melhor Filme do Universo Marvel?
Se as mudanças persistirão quando a poeira das polemicas e da crise política passar, só o tempo dirá. Mas, por hora, nos resta comemorar a diversidade que chega como algo positivo. E eu acredito que nem o fã mais ardoroso de La La Land vai conseguir ficar triste ao ver um belo filme como Moonlight tornar-se o primeiro longa com um protagonista negro e homossexual a levar o principal prêmio da indústria cinematográfica. De certa forma, domingo terminou uma noite iniciada há 11 anos. E os fãs de Brokeback Mountain finalmente podem dormir em paz.
https://www.youtube.com/watch?v=8KeOxeuiZjs
Confira a lista completa de vencedores:
Melhor Filme: Moonlight – Sob a Luz do Luar
Melhor Direção: Damien Chazelle por La La Land – Cantando Estações
Melhor Ator: Casey Affleck por Manchester a Beira Mar
Melhor Atriz: Emma Stone por La La Land – Cantando Estações
Melhor Ator Coadjuvante: Mahershala Ali por Moonlight – Sob a Luz do Luar
Melhor Atriz Coadjuvante: Viola Davis por Fences
Melhor Roteiro Original: Manchester a Beira Mar
Melhor Roteiro Adaptado: Moonlight – Sob a Luz do Luar
Melhor Filme Estrangeiro: O Apartamento
Melhor Filme de Animação: Zootopia
Melhor Documentário: O.J. – Made in America
Melhor Figurino: Animais Fantásticos e Onde Habitam
Melhor Maquiagem: Esquadrão Suicida
Melhor Direção de Arte: La La Land – Cantando Estações
Melhor Fotografia: La La Land – Cantando Estações
Melhor Montagem: Até o Último Homem
Melhores Efeitos Visuais: Mogli, O Menino Lobo
Melhor Mixagem de Som: Até o Último Homem
Melhor Edição de Som: A Chegada
Melhor Trilha Sonora: La La Land – Cantando Estações
Melhor Canção Original: ‘‘City of Stars’’ de La La Land – Cantando Estações
Melhor Curta Metragem: Sing
Melhor Curta de Animação: Piper
Melhor Curta em Documentário: The White Helmets






















