Invasão Britânica.

Spoilers Abaixo:

“I’ll buy you a drink if you wipe the blood off your mouth.” – Roger Sterling

A verdade, até onde existe uma, é que Lane Pryce salvou a todos e ninguém conseguiu salvar Lane Pryce de si mesmo. Essa acaba sendo a única resposta que eu acho apropriada após episódios como “Commissions and Fees” e a pergunta mais óbvia que eles evocam: por quê? Por que o personagem faria isso? Por que a série nos privaria dele, afinal, se com um suicídio Mad Men torna Lane o único verdadeiramente responsável pelo próprio, triste fim?

No próprio escritório, de todos os lugares.

Bem… O porquê aqui é óbvio, e ela não faz muito pretexto de não ser. Ele estava desesperado. Ele estava com medo de perder tudo que tinha construído. Ele era orgulhoso demais para voltar ao país que deixou com nada para contar história.

Ao contrário de um Kutner da vida, Matthew Weiner nos guia por cada um dos estágios óbvios (e não menos terríveis) que levam Lane a se enforcar, e é o tipo de trama que já vimos várias vezes, e que poderia muito fácil soar como uma daquelas platitudes, mas não: Jared Harris carrega a coisa toda e você nem percebe. É de longe a melhor atuação de qualquer ator ou atriz do elenco de Mad Men nessa temporada, do jeito como a sua boca abre quando Don o demite ao jeito como ele a fecha e os dentes se cerram ao conversar com Joan. Os pequenos tremores nas mãos e então o seu velho, calculado autocontrole levemente deslizando para fora de si, cada conversa com a Sra. Pryce descascando o personagem cada vez mais… Até o ponto em que não havia mais ponto em nada daquela maldita confusão toda.

Mas o que realmente faz “Commissions And Fees” funcionar é como a sua história não é sobre Lane. Quando uma série mata um personagem assim, ela geralmente passa a maior parte do seu tempo remoendo sobre como ele foi importante, ou simplesmente deixando a audiência sentir a sua ausência da maneira mais ampla possível, com o maior número de personagens afetados e memórias e estranhas reações de luto.

Sim, Mad Men mostra a reação de Joan e dos outros funcionários importantes, mas o choque geral é uma mera introdução para o que a história realmente quer dizer, e o que ele quer dizer se resume a Don Draper e Don Draper apenas. A câmera se foca nele mais do que em todos os outros após receber a notícia: Cooper não sabe de nada. A sua esposa não sabe de nada. Sally passa o começo do episódio querendo ir de encontro ao pai, mas quando ele finalmente chega a casa esperando encontrá-la, é Glen Bishop que está e é aquele fardo – que ele sabe que não é dele, que ele sabe que fez o que foi certo e que não havia qualquer outra coisa que um homem como ele pudesse ter feito para evitar a coisa terrível – que Don Draper terá de carregar sozinho, resignado, fardo que ele não pode nem mencionar para não correr o risco de manchar a reputação do morto. Mais um segredo, mais um para a caixinha de Dick Whitman.

Don se encontra em um estado curioso a essa altura do campeonato.  Ele está mais feliz do que nunca, e talvez até esteja arrumando motivos aleatórios para sabotar a própria felicidade, procurando falhas na sua vida por não estar acostumado a isso, começando a notar coisas e desvios morais e mudanças no mundo que o antigo Don não notaria – se “The Other Woman” tivesse ocorrido durante os estágios mais complicados do seu casamento com Betty, por exemplo, duvido que ele desse o mesmo tanto de atenção que deu para Joan semana passada ou ficasse tão puto com os sócios quanto ficou. Mas é, de qualquer maneira, uma estabilidade de espírito inédita para o personagem, que sempre ou caía muito rápido ou subia mais do que conseguia manter.

Ao mesmo tempo, ele está tão parado quanto antes. As coisas vão bem com Megan, mas é só isso mesmo: as coisas vão e vão e vão e elas não parecem chegar a lugar algum. Rotina.  Isso solta um Don Draper mais que disposto a quebrá-la, um Don Draper que beira o imprudente. O seu discurso para o sogro de Ken tem uma mensagem bem simples, aliás. Não é um Carrossel da Kodak. Não é um Lucky Strike. É mais instintivo que criativo, assim por dizer, e se antes Don misturava as duas coisas, aqui ele deixa a primeira correr solta. Ele quer aquilo. Ele quer recobrar o que tinha, ele quer não se encontrar da maneira que Roger e Bert estão.  Ele quer o bando todo de coisas que se sente no direito de ter.

E se uns tentam voltar, outros estão apenas começando a chegar. É bem óbvio o que a série faz com Sally nesse episódio, criando o paralelo entre o “nascimento” dela e o desespero absoluto de Lane, duas pessoas em pontas diferentes da mesma corda, duas pessoas nas quais você nunca imaginaria uma conexão. Mas o novo se tornou tão desbotado para Lane. Tão lugar comum. Os Estados Unidos que ele aprendeu a amar explicando porque ele precisava ser ensinado, o desespero dele meio que virando para fora e se tornando puro tédio e deboche pelos seus colegas e seus escritórios e toda aquela coisa aborrecida, o lugar errado na hora mais errada.

Já Sally vê o novo com um medo que chega a ser adorável. Ela está tentando se prender ao velho, ao Glenn que era o seu vizinho em Ossining. O tempo não a espera, e ela, no fim, sabe que ele não pode esperar – e se já não soubesse, tudo que precisaria fazer é olhar para Betty e então ter certeza. E eu talvez esteja errado, mas é isto que sinto como o maior dilema da série sempre que a vejo e sempre que os personagens se conectam: pessoas com medo dos ponteiros, e ponteiros que não dão a mínima para as pessoas que os movem.

Outras observações:

– Ken Cosgrove, melhor pessoa. Talvez seja o mais inteligente dali, também. Ele viu as merdas que o trabalho traz e quer total distância delas. (Aliás: adoro como o seu primeiro ato ao ver o corpo é dar um abraço em Joan).

– Faltando um episódio para o fim da temporada, acho quase certo que só veremos Peggy no ano que vem. Com a sua saída da empresa no episódio passado, ela virou facilmente a minha personagem favorita de qualquer série em exibição (desculpa aí, Jesse Pinkman). Aguardo ansioso o seu retorno, de preferência chutando todas as bundas publicitárias possíveis.

– Estou curioso para saber quais leituras vocês tiveram daquela sequência final com Don e Glen. Não faço muito ideia do que tirar dela além do óbvio de que Don está se sentindo culpado etc.

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