Halloween em pleno fevereiro. Não podia dar coisa boa, mesmo.

Vou direto ao assunto: Looking for Gordon Freeman me decepcionou, e decepcionou muito. Então, fiquei um tempo pensando antes de escrever esta review para entender a raiz de tudo isso. Por que, afinal, tivemos um episódio tão desconfortável e desagradável de assistir? As respostas são óbvias: porque foi assim que nossos caríssimos Lannan & Haigh quiseram. Porque Patrick está no fundo do poço, e esse episódio coroou o buraco que ele próprio cavou (e segue cavando) para si. E, acima de tudo, porque os showrunners e a direção decidiram que precisávamos sentir na pele tudo isso, enxergando toda a perspectiva da festa apenas pelo ponto de vista de Paddy. E esse, meus caros, foi o grande erro do episódio.

A festa de Halloween de Paddy, que não tinha razão nenhuma de existir e foi criada só pra juntar o elenco todo da série e fazer com que o protagonista passasse por um momento de humilhação pública (arrastando quase todos os outros personagens importantes para o buraco junto com ele). Até que, aqui no Brasil, não sentimos tanto essa inadequação, porque está mais do que claro pelo estilo da festa que aquilo poderia ser facilmente um baile de carnaval.

Agustín de fadinha, Dom de He-Man, e o próprio Paddy como o herói de Half-Life que ninguém conhece (embora, nós, gamers, achemos esse desconhecimento um sacrilégio ABSURDO, nenhum de nós se vestiria de Gordon Freeman se quisesse que as pessoas reconhecessem a porcaria da fantasia! Somos melhores que isso, ok, gente?), mostram que temas assustadores não são levados tão a sério pelos americanos quanto nossas aulinhas de inglês dizem. Para muitos, é só um feriado para usar alguma fantasia ridícula e encher a cara. Parece com alguma coisa que temos aqui, não? Fun fact: enquanto Paddy elogiava a realmente ótima fantasia de Malévola, eu estava achando um máximo o Freddie Krueger arrasando ao fundo. Detalhes de cinematografia que nos divertem.

O curioso é que, se o timing do episódio de Halloween foi inadequado, isso só combina com a enorme inadequação de toda essa ideia de Paddy de dar uma festa só para ser um “gay divertido”. Como o episódio nos mostrou claramente (e Richie deliciosamente fez questão de dizer na cara do próprio quando este tentou competir com Brady), diversão está muito longe de ser o ponto forte do nosso protagonista. Até Agustín, o gay menos divertido que Dom conhece (alfinetadas <3), está dando um banho em Paddy depois de ter passado por sua rehab dramatúrgica. E é por isso que o episódio foi tão incômodo e deprimente. Não faltaram coisas boas acontecendo durante a festa, mas nós passamos o tempo todo presos à chatíssima perspectiva de Paddy.

O clímax dessa perspectiva é o momento em que nosso protagonista decide pegar o microfone e DESTRUIR tudo e todos à sua volta, para tirar de dentro dele (e espalhar para todos os outros) o sofrimento e a infelicidade que o estavam consumindo. Entre chamar Dom de fracassado, Agustín de drogado e caloteiro, Richie de santo (com muita ironia envolvida), Brady de metido a doutor e Kevin de… – bom, eu diria “melhor foda da minha vida” se tivesse que chutar do que ele chamaria Kevin -, não entendo, de maneira alguma, por que ninguém tirou Paddy daquela cadeira antes. Sério, quando ele começou a falar de Dom e passar o boné (01 sonho: que ele tivesse arrancado o balde da cabeça da Carrie para passar em vez do boné), alguém imaginou que pudesse vir coisa boa depois? Looking nunca foi tão inverossímil e sem ritmo antes!

Se eu, do outro lado da tela, estava quase puxando a fantasia do moleque e derrubando-o à força na metade do discurso, por que ninguém ali faria algo??? E, já que ele quis falar mal de todo mundo, por que não incluir Doris e chamá-la de fag hag que finalmente desencalhou (“estou feliz por você!”) ou algo do gênero? E, se ninguém queria cantar no karaokê, por que Paddy não começou ele mesmo a cantar, e a puxar a galera? ISSO é o que um gay divertido faria. Mas Paddy não é um gay divertido. É só um gay irritante.

A verdade é que o roteiro tentou, com isso, construir um clímax negativo para o episódio, algo como um fundo do poço. Falhou. Foram os minutos mais agonizantes e incômodos da série, que culminaram em um final extremamente óbvio.

Por que, em vez de ficarmos presos ao Paddy, o episódio não nos deixou passear pelo desenrolar do novo casal Agustín e Eddie? Eu quero saber como tudo terminou, eu anseio para ver Looking abordando a sexualidade de Eddie e a maneira como Agustín vai lidar com isso. O preconceito em relação ao HIV é monstruoso, e seria interessantíssimo mostrar ao público da série que é possível levar uma relação com alguém soropositivo. Mas isso nunca vai poder acontecer se o sexo não for um assunto central dessa discussão, e a série prefere o chato do Paddy.

Brady é outro que está cada vez mais legal. Adorei vê-lo chamando a amiga com fantasia de Carrie de “OB raivoso” e, ao contrário do recalcado do Paddy, considero uma realização muito real ver seu artigo viralizando, principalmente com um tema tão importante quanto a PrEP, que eu só conhecia por alto e que, graças à série, pude fazer uma pesquisa e me informar bastante sobre o assunto.

ATENÇÃO: os próximos três parágrafos tratam de informações sobre a PrEP que encontrei na internet e achei que seria bacana compartilhar. Se você quer manter o foco em Looking, pule-os.

Segundo o CDC (Centro de Controle de Doenças, órgão americano), a PrEP (sigla em inglês que significa profilaxia pré-exposição), se ingerida todos os dias, reduz em até 92% o risco de contágio do HIV (e só do HIV). E quem pensa que isso é menor do que a camisinha está bastante enganado, porque esta, por diversos motivos, “só” reduz em 80% esse risco. Os dois combinados? 99,2% de redução.

Antes que alguém fique alarmado com esses números e pense “OMG é o apocalipse da Aids!”, vale dizer que, ainda segundo o CDC, a chance de uma relação desprotegida com alguém infectado transmitir HIV é 1 em 72 para o passivo e 1 em 909 para o ativo. Isso, claro, são estatísticas, que não contam com fatores agravantes como a presença de outras DSTs ou fases de alta carga viral no hospedeiro. Por isso deixo claro que, ainda sem esses agravantes, a roleta-russa não é nada recomendável.

Só pra se ter uma ideia do que essas porcentagens de redução significam, o passivo passa a ter 1 chance em 362 de contrair o vírus se usar camisinha e 1 em 906 com a PrEP (que, ao contrário da camisinha, ainda deixa o organismo suscetível a todas as outras DSTs). Com ambos em conjunto, a estatística pula para 1 chance em 9.058. Vale dizer que a PrEP não foi implementada no Brasil, e seu uso ainda é bastante restrito mesmo nos EUA. É possível saber mais sobre a PrEP e suas pesquisas no Brasil e no mundo aqui.

Conclusão: a discussão sobre a PrEP é sensacional, e é louvável ver a série tomando essa atitude. Mais louvável ainda é ver Paddy completamente bêbado, esbanjando falta de informação, sendo publicamente destruído por Brady por querer dar pitaco em um artigo que nem leu. Não ousemos culpar o jornalista por ter posto Paddy no lugar dele. Brady só fez isso depois de ter seu trabalho criticado e desacreditado por puro e simples ciuminho de um ex-namorado imaturo. Felizmente, temos Eddie e a suas conclusões sempre memoráveis. Sim, Eddie, sabemos que o maior sinal de que uma festa está incrível é quando todo mundo começa a falar sobre Aids.

O protagonista tem um bom ponto, porém, que poderia ser mais bem explorado se ele fosse mais articulado e tivesse lido alguma coisa: muita gente só usa camisinha por medo do HIV, então essa ideia de liberação, de transformar a PrEP na versão gay do anti-concepcional, contrasta bastante com a recomendação de tomar a pílula em conjunto com outros métodos de prevenção. A PrEP, se vingar e não for muito bem administrada, provavelmente dará uma falsa sensação de segurança que derrubará a camisinha (o que terá como consequência o aumento da taxa de incidência de outras DSTs).

Voltando à festa e ao desespero e infelicidade absolutos de Paddy, é interessante ver como o nosso protagonista atirou para absolutamente todos os lados. A insegurança e a imaturidade berram durante todo o percurso do rapaz pelos corredores da própria casa. Foi ele quem rejeitou Richie. Foi ele quem rejeitou Kevin. Foi ele quem rejeitou James, o Legolas que ele confundiu com Link, de The Legend of Zelda. Mas, em nenhum dos três casos, Paddy é capaz de lidar com uma rejeição recíproca. Incomoda que James tenha vocalizado o canalha que Paddy foi ao partir pra cima dele por “falta de opção” – adoro gente que se valoriza nesse sentido! Incomoda que Richie esteja mais feliz com Brady (será que está mesmo? a troca de olhares no final do episódio, seguida do desprezo quase prazeroso ao virar as costas para dançar com Brady, pode ter o significado oposto). E incomoda que Kevin queira ir embora com Jon para esquecê-lo (fikadika: Seattle não vai salvar esse casamento).

Jon, aliás, tornou-se um personagem mais simpático do que eu esperava depois que deixou de servir apenas como peça de decoração. Dá até pena. Kevin considera sua relação com Jon extremamente entediante e infeliz, mas este parece estar curtindo de verdade e ainda apaixonado pelo namorido. À primeira vista, ele parece sem noção nenhuma do affair (a fantasia de bobo da corte não estava ali por acaso, estava?). Mas, à medida que a festa vai passando (e, olha, precisa realmente ser EXTREMAMENTE cafajeste para levar seu namorado à festa do seu amante), os sinais vão ficando cada vez mais óbvios, até culminarem na pergunta “What does that mean?” quando Paddy dá o “boa sorte em Seattle” mais amargurado que Kevin poderia ouvir. Precisaria ser muito ingênuo para não entender o que aconteceu entre os dois, e, se esse namoro não terminar agora, Kevin realmente é muito bom de lábia e um sacana de primeiríssima categoria. Mas nada disso importa agora. Porque a série prefere que acompanhemos o chato do Paddy.

Seria muito mais interessante e crível lidar com os dramas de Dom: quarentão, sem namorado, sem carreira, sem melhor amiga e igualmente sozinho na festa. Dom está numa situação muito pior do que a de Paddy, e por isso Dom era o ombro disponível para o protagonista no fim de sua festa. Ele só não reage a isso de maneira tão patética, muito pelo contrário. Extremamente estável, Dom faz por Doris o que ela havia feito por ele no fim da temporada passada em relação a Lynn: encoraja o namorado e a própria amiga (Cher & Sonny, a melhor fantasia da festa, sim ou claro?) a embarcar nessa relação e não deixar o medo tomar conta. Muito bacana e altruísta da parte dele. Apesar de tudo o que o cara está sofrendo, ele ainda tem tempo e cabeça para agir em prol de quem ama. Podem me chamar de piegas, mas é esse tipo de história e de comportamento que mexe comigo. Não o do chato do Paddy.

Looking for Gordon Freeman está muito longe de ser um episódio em que nada se aproveita. Aliás, boa parte dos assuntos que comentei aqui são bastante aproveitáveis, seja dramaturgicamente, seja por se tratarem de temas interessantes para gerar discussão para o público LGBT. Seu problema não é ausência de boas tramas. É o subaproveitamento delas e a overdose absoluta do chato do Paddy. Ok, Looking, eu já entendi que a vida do nosso protagonista está miserável e que sua infelicidade o transforma num mala. Por favor, vamos sair dessa logo, porque deixar o público irritado e desconfortável não deveria ser objetivo de ninguém. Que depois da tempestade venha logo a bonança, porque esses desagradáveis e decepcionantes 27 minutos… eu só quero esquecer.

P.S. – Fico pensando por que foi tomada a decisão de deixar Richie e Kevin (e apenas eles) sem fantasia, e tenho duas explicações possíveis em mente: pura preguiça ou necessidade descabida de poupá-los de um possível ridículo para que eles ainda sejam vistos como desejáveis. Sinceramente, não sei qual das possibilidades é pior.

P.P.S. – Apesar de tudo, Jonathan Groff merece uma salva de palmas por sua atuação no episódio. Quase sempre, as expressões faciais de Paddy comunicavam-se conosco de maneira muito mais eficiente que todos os diálogos combinados.

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.