Viado, bicha, biba… Se uma dessas palavras te incomoda você precisa ler esse texto.
Acontece sem que você ao menos perceba, acredite. Você tem cinco ou seis anos (em alguns casos menos que isso) e está se divertindo com os amiguinhos da sua idade. Pode ser numa festa, num encontro do parquinho ou até na escola. Você não nasce com preocupações, mas elas vão sendo incutidas conforme você vai crescendo. Ali, com cinco ou seis anos de idade elas são muito pequenas, podem até mesmo não existir. Porém, enquanto você está ali brincando, algo está acontecendo e você nem sabe. De súbito, alguém te puxa pelo braço e te leva para um canto (no meu caso foi minha irmã do meio), com uma cara bem zangada, fazendo o possível para que ninguém mais ouça o que você está prestes a ouvir. Quase sussurrando, aquele adulto te diz: “Você tá parecendo um mariquinha, se comporte que nem homem”. Pronto, acabaram de lhe premiar com a primeira grande preocupação da sua vida e é uma que vai te seguir para todo o sempre.
Me lembro que quando eu assistia Dawson’s Creek, lá nos anos 90, também achava que Jack estava certo em achar que ser gay “não poderia ser muito óbvio”. Em uma cena da quarta temporada do show ele diz para Jen que não quer ficar com o Tobey porque “quando é óbvio demais corta o tesão”. Lá, naquela época, Jack ainda era (por uma quantidade honrosa de razões) a melhor referência que nós tínhamos da homossexualidade na TV. Contudo, era uma referência bastante calculada. Jack não tinha absolutamente nenhuma característica comportamental clássica do universo gay. Sua busca por aceitação incluía sentir-se o mais “hetero” possível e isso lhe causou grandes problemas. Mas, era legal dizer lá naquela época (e também agora) que retratar gays na TV adequadamente é fazê-lo sem “estereótipos”. Ainda que aquele que esteja dizendo isso seja um imenso exemplo do mesmo.

O Certo é Não Parecer
Demorou um pouco para que a palavra “heteronormatividade” começasse a ganhar a mídia e demorou mais ainda para que o estabelecimento dela enquanto forma válida de ser gay fosse questionado. Me lembro que quando Miguel Falabella interpretou um homossexual afeminado lá na longínqua Mico Preto (1990), eu já ouvia dentro de casa a associação entre afetação e palavras pejorativas como bicha e viado. Naquele momento da nossa história, essas palavras não tinham valor cômico e eram associadas ao mais absoluto e completo ridículo. Ao mesmo tempo, nos setores intelectuais da imprensa, a atuação de Falabella era julgada como estereotipada, caricatural, longe do que deveria ser um homossexual na TV: aquele que não pareça um.
De heteronormatividade o Jack McPhee de Dawson’s Creek entendia muito bem. Ele era o gay menos gay da televisão americana (embora assumisse que não era menos gay por isso). Jogava futebol, não gostava de música pop, não tinha hobbies característicos e se não fosse pelo seu gosto por arte (que só apareceu em uma temporada), ele seria invicto. Ele também já tinha ficado com meninas (acreditem, isso faz diferença na forma como a sociedade monta seu ranking de qual é o modelo mais adequado de homossexualidade). Para a audiência heterossexual que gostava de Jack, era muito fácil lidar com ele, porque em boa parte do tempo, ele refletia o jovem masculino americano regular, salvando-se aquele pequeno detalhe que – por tratar-se de uma série teen dos anos 90 – não tinha tanto tempo de tela assim.
Aqui no Brasil, em novelas como Suave Veneno (1999), a existência dos personagens afetadíssimos de Diogo Vilela e Luiz Carlos Tourinho era uma afronta até para a comunidade gay. Aquele indivíduo erudito, intelectual, que até tem boas intenções quando fala, acaba repetindo um discurso supostamente sensato sem nem saber. Coisas como “um horror essa atuação afetada dos dois” ou “porque em novela só pode ter gay estereotipado?” eram comuns. De fato, parece que lutar contra a estereotipação te tornava imediatamente mais bacana, e ninguém levava um minuto raciocinando se o estereótipo não acaba sendo como o clichê: uma verdade retratada com exagero, mas ainda assim uma verdade. Mesmo recentemente, em Verdades Secretas, a atuação afeminada de Rainer Cadete virou motivo de “posicionamento político” dessa galera que acha que estereótipos de afetação precisam ser combatidos. O que acaba tocando no ponto mais delicado dessa questão: é o próprio direito de ser gay parecendo gay, que vem sendo massacrado histórica e midiaticamente há muitos e muitos anos.

Bicha Bichérrima
Na plateia do Ferdinando Show – talk show comandado pelo ator Marcus Majella no Multishow – mulheres e homens (gays ou não) seguem à risca a cartilha do personagem: em algum momento é pedida uma “salva de pinta” para o convidado e todos gritam em uníssono: viaaaadooo. É evidente que o humor “perdoa” posicionamentos morais e mesmo homofóbicos podem acabar rindo de personagens gays. Porém, o que Majella faz em seu programa (e junto com Paulo Gustavo no Vai Que Cola) é histórico para a televisão brasileira. Vamos esquecer a qualidade dos programas do ponto de vista dramatúrgico ou comercial, o que importa é que no meio de tanta luta pela heteronormatização da homossexualidade, qualquer produção que exalte a expressão afeminada merece o meu respeito. E Majella e Paulo Gustavo fazem isso: uma exaltação a diferença clara, direta, desavergonhada.
Lá fora também houve quem tivesse coragem de dizer que ser gay parecendo gay é OK. Max Mutchnick e David Kohan fizeram de Will & Grace um sitcom dos mais transgressores da programação americana e não tiveram problemas em criar um Jack McFarland que como dizia Grace “era gay até mudo, imóvel, sem respirar”. McFarland era o outro Jack dessa linha de caracterizações. Mesmo em Glee, mais recentemente, os roteiros se orgulhavam da expressão cheia de feminilidades de Kurt e mostravam como ele se ressentia do quanto Blaine ganhava mais espaço simplesmente porque conseguia ser um “gay menos gay”. Encontrar exemplos reais, dentro das nossas relações, é a coisa mais fácil do mundo. Está a nossa volta o tempo todo. Não é uma questão de estereótipo, é uma questão de essência.

É claro que nem toda heteronormatividade é nociva. Também existem os gays que condenam séries como Looking porque elas “não são tão gays”. Isso é uma questão de perspectiva… Numa produção que não é direcionada aos gays (como Modern Family), é importante que os roteiros se posicionem de modo correto e deixem que a expressão afeminada seja vista com naturalidade. Já numa produção voltada para os gays (como Looking), a percepção do que é mais gay ou menos gay se torna desnecessária, sobretudo porque TUDO está envolto em nuances e sutilezas homossexuais. A música, o olhar, o toque, o beijo, a linguagem… Looking é extremamente real na sua ótica justamente porque ela é inteira uma pulsação homoafetiva.
Hoje em dia é correto dizer que a sociedade conservadora está muito menos desejosa da heteronormatividade do que a própria comunidade gay. Na Finale da oitava temporada de RuPaul’s Drag Race, a participante Kim Chi cantou uma música enaltecendo o fato de ser gorda, afeminada e asiática, porque no circuito das salas de bate-papo, dos aplicativos e boates, só aparece uma exigência constante: não sou e não curto afeminado. Junto dela, o lembrete cretino: sou gay com jeito de macho e voz de macho. Muitas vezes nada disso é verdade, mas mascarar-se sob a tutela da heteronormatividade pode ser a única forma possível de continuar tendo vida sexual. Se você trabalhou para ser menos afeminado ao longo da vida, por qualquer razão, o fato é que tudo se torna mais fácil. Quando você pode caminhar e falar sem ter sua orientação sexual imediatamente identificável, o mundo te recebe melhor.
No meu caso, lá atrás ainda, saindo da adolescência, tentar parecer menos gay virou uma questão de segurança. Eu já estava cansado da violência física do bullying escolar e da violência verbal até dentro da minha própria casa. Deveria ser direito universal poder existir segundo a própria essência (como é para os heterossexuais, que também são essência, só que uma essência permitida pelos códigos culturais estabelecidos), mas algumas vezes a mutilação é necessária e você a executa, só para parar de doer tanto. Passa a doer de outro jeito, mas você se acostuma. Quando você é gay a necessidade de sentir-se menos diferente é tão grande, que a heteronormatividade pode ser sedutora. Não há problema algum em parecer menos gay, desde que você não seja aquele que acha que só existe um jeito certo de ser gay. O valor da aceitação precisa ser pleno e não só restrito ao que incomoda menos. No fim de tudo, só há um jeito de ser realmente feliz: sendo louco, histérico, estridente e desesperadamente livre.

















