Pare o mundo que eu quero descer! Parem as máquinas! Les revenants está de volta (trocadilho inevitável). Depois de uma espera de quase três anos desde o fim da primeira temporada, a série retorna dentro do mesmo ritmo que o episódio La horde foi construído: lançando mais dúvidas e interrogações ao telespectador, mas também trazendo algumas pequenas respostas.

Nesse primeiro episódio da nova temporada, temos um título que remete diretamente a uma das principais intrigas elaboradas na season finale: o bebê de Adèle. Para mim, ainda estava um pouco incerta a paternidade da criança, mesmo com os fortes indícios de que o pai seria Simon, tendo em vista que Lucy reclamou a presença de Adèle no grupo dos revenants. Contudo, o prólogo do episódio, que foi muito bem elaborado como um sonho dentro de outro sonho, mostrou que a futura mãe tinha em seu ventre um ser um tanto incomum, tendo em vista a forma como este se movia em seu corpo. Esse modo de contar o drama da Adèle através de ilusões se encaixa bem na atmosfera geral da série: será que tudo isso é “real” mesmo?  Aliás, o fato de termos avançado seis meses desde a inundação só aumentou o clima de suspense, pois soubemos pouco, no decorrer do episódio, o que realmente aconteceu nesse período.

Voltando a essa criança inusitada que estava para nascer, o que poderia explicar Adèle ter engravidado de uma pessoa “morta”? O que esse bebê pode representar para aquela realidade da pequena cidade no contexto fantástico dos mortos que “retornaram à vida”? Adèle aparentou estar muito tensa e preocupada com essa questão, sendo ríspida, mais de uma vez, com a sua própria filha. O fato de ter não ter feito o pré-natal mostra que ela possui medo e, talvez, não queira saber o que está carregando no ventre. Além disso, ela mesma admitiu as tentativas de aborto. Porém, esse bebê, que foi formado numa espécie de encontro da morte com a vida, resistiu e, pelo contrário, ganhou mais força, visto que os seus batimentos cardíacos são equivalentes aos de um adulto e o seu tamanho é fora do padrão.

Seguindo o estilo da temporada anterior, os roteiristas criaram um plot que dá título ao episódio, desenvolvendo-o paralelamente a outras tramas. Não imaginava que Adèle iria ser o centro da trama da season premiere, mas penso que isso pode ter sido um recurso para alavancar o suspense em relação a outras personagens que temos (pelo menos eu) mais curiosidade em saber o que foi que lhes aconteceu nesse interim de alguns meses.

Vimos que a comunidade voltou para uma situação já vivida há décadas atrás: a destruição de quase tudo por conta da inundação. O lugar está quase desabitado, uma espécie de cidade-fantasma. Muitas pessoas morreram, tal como no passado. Os moradores da área inundada se mudaram, habitando agora um local que parece estar bem distante ao exílio dos revenants. Temos mais subsídios para imaginar uma possível relação entre a inundação e o retorno dos mortos. Uma possível leitura é pensar na água como o símbolo da destruição da terra, momento em que, biblicamente, os mortos retornam para ocupar novamente os seus lugares.

As outras personagens da história apareceram rapidamente. Lèna, que mora agora com o pai, demonstrou estar preocupada em descobrir o paradeiro da mãe e da irmã. Já Toni assumiu um novo papel na série: ele está dos lados revenants. Essa situação nos traz novas interrogações: a maioria dos revenants que vimos até então tinham morrido num escala de tempo de anos atrás, e não recentemente. Assim, podemos entender que esse fenômeno é algo extenso, “válido” para qualquer pessoa, independente do tempo de sua morte.

Outro momento que eu estava à espera desde a temporada passada era o retorno de mais algum adolescente do ônibus que vitimou Camille. E olha quem volta? Audrey, filha do casal que se mostrou muito inconformado em não reaver a sua filha, aceitando, consequentemente, muito mal a presença de Camille. Como será a reação dos pais dessa nova personagem? Será que, mesmo com vontade em ter sua filha de volta, eles estão livres do estranhamento em torno dessa situação? E qual será a reação de Audrey? Ela pode ter uma adaptação mais complexa do que Camille, já que esta retornou direto para o colo da família e para uma comunidade em que o pequeno caos ainda não estava instalado. Nessa cena, vemos que há fenda no grupo dos revenants: há o lado dos líderes e há o lado dos prisioneiros. O momento em que a mãe de Camille pede silêncio a Audrey reforça essa ideia, quando vemos que outros se aproximam num tom intimidador. A propósito, gostei muito do movimento da câmera saindo do foco dessas três personagens e indo lentamente à janela, mostrando, de início, somente sombras. É através desses detalhes que a série firma o seu estilo sutil de impressão de suspense, quiçá terror.

Quando estávamos próximos do final do episódio, minha sanidade já estava se despedindo de mim porque Victor ainda não tinha aparecido. Os roteiristas acertaram novamente, se pensarmos que a personagem entra em cena ao lado de seus desenhos, elementos utilizados para potencializar o mistério que paira sobre Victor. A cumplicidade entre ele e Julie aumentou bastante: a enfermeira pode ter se tornado mais do que uma “fada” para ele. O momento do reencontro de Victor com a mãe, a meu ver, foi o mais emocionante desse episódio. Das histórias de morte dos revenants da primeira temporada, Victor foi o mais jovem e aquele que perdeu a vida de maneira mais cruel. A ausência da mãe foi marca da personagem, fato que baseou a sua relação com Julie. Ao abraçar a mãe, Victor lança aquele olhar incógnito (que já estamos acostumados) para Julie, e ficamos sem saber se ele estava feliz, triste, ou as duas coisas. Possivelmente, ele deve ter ficado numa zona confusa de sentimentos, pois supomos que ele vagou muito tempo sem a mãe, posto que o seu retorno à vida data da época que Camille ainda não tinha morrido. Um tanto estranho aquele desenho de um bebê no ventre, não? Ele aparentava estar um tanto deformado.

Para refrescar a nossa memória, a estrutura desse primeiro episódio é semelhante (e efetiva) ao episódio de estreia da série. Várias personagens foram apresentadas, propositadamente, de modo lacunar, mas o plot que se desenvolveu e guiou a história foi o de Camille. Nessa season 2, o encargo ficou para Adèle et l’enfant. Por hora, temos três novas personagens do lado dos revenants: Toni, que já conhecemos; Audrey; a mãe de Victor (será que vamos voltar para aquela triste noite do assalto em casa?) e o bebê revenant, que deverá ganhar mais espaço futuramente.

Fiquei satisfeito com o retorno da série. Os roteiristas e produtores têm em mãos uma grande missão: entregar uma temporada para uma legião de fãs que ficou, não sei como (Ah sei sim, revendo o filme e a season 1 mais de uma vez), num hiato de anos. O elenco continua impecável, a trilha sonora sempre é introduzida em momentos apropriados, realçando a atmosfera melancólica da narrativa e o ritmo da série continua o mesmo: pausado, sem muita pressa, mas nunca monótono. Não sei se vocês perceberam, mas a abertura (générique, como os franceses chamam) mudou. Agora vemos uma pessoa de costas, dentro da represa, fazendo uma alusão a esse novo espaço dos revenants. Surge atrás de Serge, quando ele entra no túnel, uma espécie de correnteza caindo do céu, ao invés da luz que se apaga: estamos cada vez mais submersos… Há um trecho também que mostra os revenants juntos, reunidos na floresta, enquanto na season 1 eles só apareceriam individualmente. Eles estão se unindo, somando forças. Mas, para quê?

I see dead poeple 1: curti a voz feminina narrando o précédemment.

I see dead people 2: vocês perceberam que foram acrescentadas novas músicas na trilha instrumental?

I see dead people 3: O Swann Nambotin (pesquei o nome no IMDB), ator que interpreta o Victor, cresceu bastante, mas continua com uma feição infantil (e assustadora). Detalhe: em poucos segundos em cena nesse episódio, ele já falou tanto quanto toda a temporada anterior, rsrs.

I see dead people 4: o fenômeno do retorno dos mortos continua localizado, sendo algo compartilhado só entre os membros dessa comunidade, o que torna esse acontecimento ainda mais estranho.

I see dead people 5: O investigador já está mais encaminhado a saber o que se passa na cidade, uma vez que cruzou o caminho de Toni.

I see dead people 6: Há um cervo que aparece mais de uma vez vagando pela cidade e depois aparece morto. Segundo o Dicionário de Símbolos de Chevalier & Gherbrant, “esse animal é muito comparado à arvore da vida por causa de sua alta galhada que se renova periodicamente. Simboliza a fecundidade, os ritmos de crescimento, os renascimentos. O cervo é uma imagem arcaica da renovação cíclica”.  Uma metáfora que nos inquieta ainda mais quando pensamos que o cervo aparece morto justamente em frente ao local em que Adèle está.

I see dead people 7: Sei que foi lançado episódio duplo na season premiere, mas ainda não consegui as legendas para o episódio 2. Então, logo mais, teremos uma review só para o segundo episódio.

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Diogo Souza
Graduado em Letras-Português, Mestre em Literatura e Ensino, Doutorando em Estudos Literários, pesquisador das relações interartes entre a literatura e o cinema, cinéfilo, leitor de poesia, e às vezes cronista.