“O correr da vida embrulha tudo,  a vida é assim: esquenta e esfria,  aperta e daí afrouxa,  sossega e depois desinquieta.  O que ela quer da gente é coragem […].  O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando.  Afinam ou desafinam. Verdade maior. Viver é muito perigoso; e não é não. Nem sei explicar estas coisas. Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor”

 (Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, trecho lido de Esther para Luís)

A proposta da novela Sete Vidas, desde quando ouvi os primeiros comentários sobre a sinopse da novela, sempre foi muito sedutora para mim. Uma história em que, aos poucos, veríamos, de modo não trivial, as vidas de sete irmãos e irmãs se cruzarem, colocando em confronto os tipos de criação de cada um, suas visões de mundo, etc. O mote inicial, partindo da descoberta de Júlia (Isabelle Drummond) que não era filha biológica do pai que até então achava que era seu genitor, fez com que a personagem descobrisse o doador 251, número que representou o elo que uniu todos os meios-irmãos. Nesse contexto, irei propor uma leitura de cada uma dessas personagens, que foram condutoras do fio narrativo da história.

Filha de uma pessoa amarga, possessiva e manipuladora, Júlia apresentou logo nos capítulos inicias um dilema bem presente na vida dos jovens: “qual carreira devo seguir?”. No começo da novela, a personagem era estudante de Medicina e, depois, encontra-se no mundo da restauração de quadros e igrejas. Lícia Manzo retratou bem essa situação, assunto bastante complicado, pois cada vez mais somos pressionados a escolher precocemente um caminho profissional que irá nos acompanhar por toda a vida, ou maior parte dela. E que ironia Júlia ser logo uma restauradora! Justamente ela que passou por muitos obstáculos para conseguir restaurar os cacos do seu interior.

Apesar da dor em saber que o homem que lhe criou não era seu pai biológico, Júlia fica contente ao imaginar que pode ter irmãos e/ou irmãs, um consolo para uma pessoa que sempre foi filha única. Guiada por esse sentimento, ela encontra Pedro (Jayme Matarazzo), a segunda vida que aparece na história. Os dois são magnetizados ao se olharem, num momento em que ainda não sabiam que eram irmãos. Durante os primeiros capítulos da novela, os dois viveram martirizados pelo amor (que foi além do amor entre irmãos) que sentiam um pelo outro. Assim, as primeiras páginas da história da personagem são direcionadas para esse conflito interior: amar o próprio irmão. Outra característica marcante de sua personagem é a vontade de ajudar o outro que, às vezes, tornou-se um desejo tão grande que terminou mais atrapalhando determinadas situações do que ajudando. Um exemplo disso é a relação de Júlia com Bernardo (Ghilherme Lobo), que foi abalada em alguns momentos pelo seu comportamento apaziguador e protetor, quando o que se precisava mais era de uma repreensão cautelosa dirigida ao garoto.

Por mais inteligente e sensível que Júlia fosse para compreender as necessidades e angústias das pessoas que amava, isso não a isentava de falhar quando o assunto era entender e assumir o que se passava em seu coração. O casamento com Edgar (Fernando Belo) e a viagem de estudos para a Itália foram as tentativas de fuga da personagem para sufocar o amor por Pedro. Ficou a cargo de Elisa (Letícia Colin), prima e melhor amiga, mostrar esses caminhos equivocados, porém, Júlia não admitia nem ao mesmo diante do espelho que esse amor nunca se apagou. A personagem até mudou seu vestuário quando se casou: saiu de um look casual, leve, indie, para roupas fechadas, como se estivesse se trancando e se protegendo de si mesma.

Não há como olhar Pedro, a segunda vida, sem passar por Vicente (Ângelo Antônio), pai que é referência para o filho em muitos aspectos, fato que, mais a frente, transformou-se em algo negativo. Notei que muitos telespectadores rejeitaram a personagem em alguns momentos da trama. Vejo isso com bons olhos, pois mostra que a personagem imprimiu, positivamente ou não, a sua marca. Pedro, tal como Júlia, procurou um refúgio para esse amor proibido. No caso dele, em Fernando de Noronha, onde conheceu Taís (Maria Flor). O relacionamento dos dois começou com a omissão dessa história de amor que, a meu ver, foi mais uma atitude de alguém que não queria assumir que se apaixonou pela própria irmã do que por falta de honestidade. A questão é que esse fato alimentou fraquezas embrionárias em Pedro, como, por exemplo, quando descobriu a verdade sobre seu falso parentesco com Júlia e manteve um caso amoroso com ela, deixando a esposa grávida sozinha em Pernambuco.

A partir de então, Pedro segue uma série de caminhos equivocados. Em sua visão, a paternidade deveria, obrigatoriamente, ser acompanhada pela sua presença física. No seu interior, havia dois modelos de pai: o pai presente e amoroso, Vicente, e o pai distante e egoísta, Miguel (Domingos Montagner). Esse conflito desnorteou muito Pedro, que abdicou de sua vida pessoal, profissional, do seu próprio bem estar, para estar num casamento em ruínas, apenas para cumprir a referência de paternidade que o fez feliz. Porém, aparentemente, ele esqueceu que, antes de ser pai, ele era um homem, um pesquisador, faces do seu eu que foram ocultadas em função de estar perto do filho Rodrigo. Pedro foi uma representação dolorosa de que não podemos amar o outro se não nos amarmos primeiro. Ele perdeu o amor por tudo aquilo que compunha a sua felicidade. Devido a isso, tornou-se, da metade da novela até o final, um indivíduo amargurado, rancoroso, covarde, inseguro e cheio de vazios. Talvez seja essa rejeição do público da personagem. Pedro figurou uma forma de ser que nós repetimos muito em nossas vidas: seguir uma rota por conveniência ou por obrigação, esquecendo-nos de nós mesmos, formando um poço fundo que nos leva para dentro de um abandono e solidão quase sem fim.

Num caminho semelhante, temos Luís (Thiago Rodrigues), advogado que se vê preso num casamento com uma mulher intolerante e preconceituosa, Branca (Maria Manoella). Aos poucos, com a chegada da personagem Esther (Regina Duarte), Lícia Manzo soltou traços da personalidade de Luís, que foram apagados com o passar do tempo. O jovem advogado largou uma das atividades que mais gostava de fazer: a pintura, um exercício lúdico que, talvez, se situe no polo contrário da profissão da personagem. Assim, vemos que Luís, mesmo sendo um homem de negócios, possuía um tipo de sensibilidade que, às vezes, é um tanto rara em contextos profissionais que exigem muita clareza e objetividade, como o Direito.

Ao contrário de Pedro, Luís, quando se deu conta de que não havia salvação para o seu casamento, saiu quase imediatamente de casa. Mesmo tendo que conviver com um comportamento dos filhos influenciado pela maior presença da figura materna, o advogado manteve o seu posicionamento, compreendendo que, mesmo distante, estava sendo um pai melhor, pois estava bem consigo mesmo. Ele foi sempre muito taxado como “certinho”, “bom moço”, alguém incapaz de tomar uma decisão fora de um padrão esperado. Mas, a partir do momento que a vida dos filhos estava tão infeliz quanto a sua, Luís percebeu que valeria a pena arriscar. Uma personagem muito bem desenhada, que se apresentou como o principal ponto de equilíbrio dos sete irmãos. De longe, Luís, entre as “sete vidas”, era o que possuía o olhar mais maduro para resolver os problemas que surgiram entre eles.

Quando o elenco da novela acrescentou Luís, ganhamos também uma das personagens mais bem construídas (quiçá, a melhor!) da narrativa de Lícia Manzo: Laila, vivida excepcionalmente por Maria Eduarda de Carvalho. A personagem, inicialmente, tinha uma grande responsabilidade: ser a principal fonte de comicidade de “Sete Vidas” (em quase todos os momentos da novela). Todavia, a sua função foi mais além do “alívio cômico”. Toda acidez, ironia e até mesmo maldade, a meu ver, eram instrumentos utilizados para camuflar todas as suas fragilidades e medos. Laila vivia meio que às sombras do sucesso do irmão, sendo quase uma versão oposta dele em alguns aspectos: ela não tinha profissão nem residência e emprego fixos.

A maioria das situações embaraçosas em família foi protagonizada pela falta de filtro de Laila em falar o que pensava, sem refletir nas possíveis mágoas que as suas palavras, muitas vezes verdadeiras (e por isso, tão duras em ser ouvidas), poderiam produzir. Ela conseguiu ter uma desavença com todos os irmãos, até com Luís, que já estava acostumado com o seu jeito explosivo. A personagem também concentrava uma forte carga de sensualidade, apropriada por Maria Eduarda através do mexido nos cachos louros, roupas chamativas e olhar fulminante. Laila nos apresentou que, dentro de um núcleo familiar, em especial, espaço em que muitas coisas não se dizem em prol do bem estar de todos, é preciso alguém que tenha a franqueza de falar o que deve ser dito. Porém, sinceridade em demasia pode se transformar numa arma perigosa, destrutiva. Prova disso são os inúmeros momentos desconfortáveis que Laila participou. Contudo, confesso que, mesmo com aquele jeito inconsequente e “maluquete”, apaixonei-me pela sua forma de viver o presente como um risco, a vida como um risco, algo tão caro num momento em que temos que podar nossas asas cada vez mais cedo para garantir sucesso e status que, talvez, nem sequer precisaremos (ou queremos).

Bernardo (Ghilherme Lobo), a princípio, indicava que faria o papel típico de adolescente problemático. Porém, o crescimento da personagem mostrou que ele era bem mais maduro do que a sua família pensava. Infelizmente, a sua idade era vista como um signo de inexperiência, fato que minou a possibilidade de relacionamento com Elisa. E, afinal de contas, foi ele que resgatou a autoestima da modelo e a ajudou a abandonar os remédios para emagrecimento. Bernardo também assumiu uma função importante na vida de sua mãe e Pedro, personagens que saíram de ruas sem saída por sua causa.

Uma das cenas mais marcantes de Bernardo foi quando a sua paixão por Elisa virou pauta familiar, magoando-o por ser tratado sob uma ótica que beirava a infantilidade. Os seus irmãos e irmãs, por serem mais velhos, aparentemente, sentiam-se permitidos a discutir essa situação, pois já tinham as suas vidas amorosas “resolvidas”, tendo já passado por “paixões efêmeras” da adolescência (o que não era o caso de Bernardo). Entretanto, nenhum dos irmãos possuía “bons antecedentes” no campo do amor. Todos apontavam Bernardo como imaturo, quando, olhando mais de perto, ele era o mais sensato no modo de tratar os seus sentimentos.

Felipe (Michel Noher) foi a última vida que chegou à novela, tendo uma função bastante importante: reinserir Miguel na história. Felipe foi apresentado como um espírito livre, sempre disposto a ajudar o próximo. Sua chegada à novela também serviu para incrementar os conflitos entre Pedro e Júlia. Por mais que torcêssemos pela história entre Felipe e a restauradora, ele tinha uma destemia e um nomadismo que não eram compatíveis ao que Júlia desejava. Pedro entrou em embate várias vezes com o irmão, acusando-o de ser uma espécie de playboy filantrópico. Porém, sabemos que o motivo desse olhar advinha do relacionamento do irmão com a sua ex-namorada. Ele era rico, não precisava trabalhar e decidiu direcionar a sua herança para projetos solidários. Felipe parece ser uma dessas pessoas que amamos conhecer, ter por perto, mas que temos que aproveitar muito a sua presença, pois estão sempre de passagem, trocando de estradas. O seu bom humor, mesmo num estado clínico de alta complexidade, pode ser visto como um suspiro de esperança àqueles que se rendem a uma doença a ponto de deixar de ver o que ainda há de bom em viver.

Por fim, temos Joaquim, que era a personagem que não sabia ao certo o que estava acontecendo a sua volta, dado a sua idade, porém, mesmo assim, era beneficiado por todo amor das outras seis vidas. Ele foi o elo entre Lígia (Débora Bloch) com os outros irmãos e irmãs, tendo em vista que a vontade de documentar o encontro das “sete vidas” partiu do desejo da jornalista de escrever a história da família do seu filho.

Cada uma dessas “sete vidas”, em algum momento da história, errou, acertou, amou, chorou, entristeceu-se, arriscou-se, recuou quando não deveria… Foi isso que fez com que nós, telespectadores, nos conectássemos com essas vidas. Quando os irmãos e as irmãs começaram a se conhecer, traços de suas personalidades, paulatinamente, foram mostrados. Dessa maneira, nas relações estabelecidas entre eles, houve espelhamentos de personalidade, complementaridades e dissonâncias. Nesse caminho, vimos o quanto a nossa vida pode mudar quando é tocada por outras vidas. A citação que iniciei o texto, vinda da própria novela, diz muito sobre todas as personagens da narrativa: vivemos na inconstância das variadas temperaturas da vida, nos embrulhamos com um aumento de uma velocidade inesperada. E que bom que não “estamos terminados”, pois assim podemos nos transformar no contato com o outro, bem como as “sete vidas”.

Take 1: Engraçado como alguns filhos de Miguel possuíam características bem marcantes do pai biológico: Pedro (o amor pela natureza e pela biologia); Felipe (a necessidade constante em mudar de lugar e não se prender a ninguém) e Bernardo (o jeito silencioso, tímido e um tanto introspectivo).

Take 2: A cena final e o desfecho da história de Pedro e Júlia foram incríveis: eles nem acabaram “juntos” nem “separados”, tal como Amora (Sophie Charlotte) e Bento (Marco Pigossi) em “Sangue Bom” (2013).

Take 3: Quando Lígia entrevista Laila, vemos os razões da cumplicidade entre ela e Luís: enquanto o irmão baixava a cabeça ao ser vítima de preconceito na sua infância por ter duas mães, a irmã o defendia.

Take 4: no próximo e último texto sobre Sete Vidas, iremos lembrar a trilha sonora e como ela foi importante para a história de Lícia Manzo.

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Diogo Souza
Graduado em Letras-Português, Mestre em Literatura e Ensino, Doutorando em Estudos Literários, pesquisador das relações interartes entre a literatura e o cinema, cinéfilo, leitor de poesia, e às vezes cronista.