Você ainda pode assistir The Leftovers, umas das melhores séries já produzidas na TV antes que ela acabe.

Num 14 de outubro de anos atrás, o mundo testemunhou a evidência de uma grande força até antes apenas especulada. 2% da população mundial desapareceu sem deixar rastros, naquele que ficou conhecido como O Dia Da Partida. Durante algum tempo, a estupefata sociedade considerou a possibilidade de estarmos vivendo a realidade do “arrebatamento” – evento descrito em textos religiosos como a retirada dos bons e dos justos da Terra – antes do inevitável apocalipse. Porém, não só a escolha dos que partiam tinha sido aleatória, como após alguma espera, nenhum outro evento sobrenatural seguiu-se ao primeiro, condenando o mundo a um estado de dormência e inércia. Aconteceu, passou e a vida precisa voltar ao normal. Mas, é possível voltar ao normal diante de algo dessa magnitude?

Leftovers
Por que O Dia Da Partida não afetou Jarden em The Leftovers?

A ordem religiosa do mundo se afetou inevitavelmente. 2% das pessoas desaparece, compreende-se imediatamente que Deus tem algo a ver com isso. Sendo ou não um arrebatamento como o descrito em escrituras, o fato é que pessoas foram “levadas” e a conclusão de que o perfil delas não era de natureza exímia joga os paradigmas religiosos por terra. O caos é o próximo passo, já que o ser humano precisa acreditar que está obedecendo as regras impostas por uma força superior, que está trilhando seu caminho para longe da danação eterna, ou a moral vira uma anarquia perigosa e todos os códigos de conduta que garantem a sobrevivência são fragilizados.

O sofrimento, contudo, se torna o protagonista da nova ordem do mundo. Pessoas foram levadas sem explicação, ninguém sabe para onde, anos se passaram e nenhum sinal. Esse exercício da morte-sem-morte joga as pessoas que “sobram” num estado de luto ininterrupto, no qual a incompreensão acerca de razões para o que ocorreu ou mesmo a simples existência de um corpo que possa ser velado, impede a superação de forma mais dura. Um desses “agentes do caos” proporcionados pela Grande Partida é justamente a interrupção brutal de relações sociais.

Inevitavelmente, as mentes intelectuais desse mundo estabelecido pela perda começam a pensar em como a sociedade poderia se manter saudável caso algo dessa magnitude voltasse a acontecer. E sim, ninguém poderia garantir que não aconteceria de novo. Proteger-se dos efeitos doloridos da perda incluiriam um estado de torpor que impediria reações emocionais que acabam por desestruturar completamente o curso da vida. Em palavras resumidas: Será que um mundo sem laços afetivos não seria um mundo onde a Grande Partida não teria efeito algum?

Os Remanescentes Culpados foram a principal organização surgida após o 14 de outubro que se dedicou inteiramente a matar as ligações emocionais entre as pessoas, transformando todos numa página em branco, silenciosa. Enquanto o mundo tentava voltar a funcionar, os membros dessa organização se prostravam estrategicamente para impedir o esquecimento, para impedir a reorganização das engrenagens da forma como elas eram antes. Para eles algo como a Partida não poderia ser superada jamais porque era um chamado definitivo para uma reorganização da convivência humana. Cada um por si, sem laços, sem família, sem amor, prontos para não se importarem com qualquer novo evento semelhante, simplesmente porque nenhuma falta seria sentida.

Leftovers
Remanescentes Culpados em The Leftovers

Então, partidas de quem não se foi começam a acontecer. A sensação de vazio cresce quanto mais se busca normalidade. Famílias que não perderam ninguém no dia da Partida, passam a perder membros que se juntam aos Remanescentes. Quem se vai não quer sofrer por perder e entrega os que abandona a esse mesmo sofrimento. E tudo se perde assim… Metade do que restou daquilo que foi uma sociedade luta para tentar esquecer e a outra metade se dedica a obrigá-los a lembrar. Fugas desesperadas por toda parte, em busca de milagreiros, de empresas que oferecem réplicas dos entes queridos perdidos, de cidades onde supostamente ninguém foi levado… Tudo se torna nebuloso e qualquer mínima demonstração de superação é julgada e condenada por aquela sombra constante da culpa por ter ficado, do rancor de não ter ido… A vida ficou impossível do jeito que era e não parece ser possível do jeito que está.

Assim, The Leftovers estreou na HBO em junho de 2014 e desde então mostra através das impecáveis escolhas de Damon Lindelof que uma história como essa, apoiada numa grande metáfora de perda, pode ser contada com referências literárias, cinematográficas, mitológicas, com uma trilha incisiva, melancólica, provocativa…. Que essa história pode ser contada de uma forma que faz com que todas as incompreensões e desconfortos dessa atmosfera estabelecida pela tragédia, sejam descritas com a dimensão de angústia e ressentimento que passam a ser parte de cada um daqueles personagens.

Abril de 2017, o Mês dos Série Maníacos!

A terceira e última temporada encerrará essa jornada. Como admirador incondicional, me vi editando imagens das duas temporadas passadas num vídeo adornado pela canção Gethsemane, da banda Dry The River, daquele jeito meio hipnotizado de quem dedica tanto e esforço a alguma coisa que existirá apenas para meu próprio deleite. Estou dividindo com vocês o produto da minha loucura, entretanto.

O vídeo abaixo contém spoilers das temporadas anteriores de The Leftovers:

A última chamada para a partida definitiva começa hoje, dia 16, na HBO. Encontro vocês nas reviews e vamos celebrar juntos a temporada derradeira dessa verdadeira obra de arte.

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