G’Day Melbourne declara The Leftovers como a grande intérprete das agonias.

O primeiro quadro do episódio dessa semana de The Leftovers é o da foto dos passaportes de Kevin e Nora, lado a lado. Os dois estão num guichê e Nora pergunta sobre seu privilégio de Global Entry. Kevin não o possui, mas mesmo assim pergunta se pode ir com ela. A atendente lhe diz que não, e ainda que ele tenha demonstrado interesse, Nora ouve a negativa e mantém sua posição. Embora a separação seja de apenas alguns minutos, ela tem peso para Kevin, que não tem condições emocionais seguras para não conectar isso ao próprio histórico de abandonos. Da mesma forma, Nora prefere “abandoná-lo” do que compartilhar algo que poderia tê-los mantido juntos todo o tempo. Ela não pensa nele como opção de parceria. Está feito: apesar de serem quase alegóricos, há vários desses momentos ambíguos no decorrer desse maravilhoso quarto episódio. 

The Leftovers não é o tipo de série que abriga lindas histórias de amor. O que são histórias de amor para quem viveu na pele os efeitos da Partida Repentina? Nora perdeu a família toda. Kevin perdeu a família toda. Cada um de um jeito, mas ambos estavam compartilhando de um mesmo anseio secreto: os dois queriam fugir. Os dois tinham aquele tipo de fantasia doida que todos nós temos, de fugir correndo de nossas próprias vidas, sem precisarmos nos preocupar com nenhuma consequência. Era nisso que Nora pensava quando sua família sumiu. Era nisso que Kevin pensava quando transava com a mulher que também sumiu. E a coisa que eles mais têm em comum é essa: eles não falam sobre o que sentem, eles deixam tudo contrair e latejar até que fique insuportável e exploda de formas ainda mais nocivas. 

The Leftovers 3x04: G'Day Melbourne
The Leftovers 3×04: G’Day Melbourne

Num outro momento do começo do episódio, Kevin pergunta a Nora o que ela dirá quando lhe perguntarem porque ela o levou. Ela “inventa” uma história sobre ele querer se despedir e sobre eles terem percebido que sua relação era doentia demais para continuar. Era pra ser uma “historinha”, mas o tom de voz e o olhar de Nora tem aquela obscuridade ligeira… Logo fica muito claro que aquela é uma percepção verdadeira que já foi adiantada pela canção de abertura, que entre vários versos emblemáticos, diz isso aqui: 

“Enlouquecendo
Nem mesmo sei meu próprio nome na metade das vezes
Como eu fiquei tão cego que eu não poderia ver
O que estava bem na minha frente?
(…) No fundo eu tenho que encarar a verdade
Que você não está indo pra casa
(…) Deus sabe o quanto eu tentei
Eu fiz tudo que pude para te manter satisfeita
Ser meu amor foi apenas uma parte que você jogou
Como se isso fosse um tipo de jogo
Baby, eu sei que eu vou chegar junto
Às vezes você tem que fazê-lo por conta própria
O que me mantém todo amarrado é mais que meu orgulho
Por dentro, menina, é tudo uma mentira
Acho que é tempo de fechar a porta
Eu não quero mais chorar
Não vale a pena lutar por esse amor

Está acabado, esse amor está acabado” 

Acho que muitos de nós sabemos o que é estar numa relação pelos motivos errados. Há cerca de três anos encontrei um amigo num evento e ele e eu sabíamos que nós dois estávamos começando relações novas depois de relações longas por pessoas por quem éramos muito apaixonados. Ele me perguntou, meio tímido, como estava meu relacionamento e eu sorri amareladamente e disse “está tudo bem”. Perguntei de volta e ele deu a mesma resposta. Ficamos em silêncio. Os dois sabiam as verdadeiras razões pelas quais aquelas novas relações tinham começado (esquecer as relações antigas), mas embora assumíssemos um para o outro que não estávamos felizes, as personas que sustentávamos para nossos respectivos pares eram cobertas de um tipo doído de dissimulação: a dissimulação forçada pela negação da esperança. Queríamos tanto que nossos sentimentos fossem de verdade que tentávamos esquecer que eles eram de mentira.

Kevin e Nora nunca se amaram, mas tinham esperança de sintonizarem suas omissões emocionais. Nós aqui, de fora, lutamos por eles, mas qualquer olhada mais atenta revela o óbvio: eles são incapazes de compartilhar qualquer verdade um com o outro e quando o fazem sobre os fatos, acabam escondendo a ideia sobre eles. Nora só revelou a ele sobre o tal mecanismo de “travessia” para o outro lado quando já estavam a caminho da Austrália. No entanto, ela não revelou como se sentia de verdade sobre a possibilidade de participar do experimento. Assim como Kevin afirma que está indo atrás de Nora por causa dela, quando de fato ele só quer continuar tendo meios de escapar de si mesmo. “Fugir” para Miracle foi algo que fizeram juntos, mas a sujeira que juntaram lá tornou possível que a próxima fuga fosse individualizada.

E eles vão cada um para um lado. É curioso notar como as jornadas de todos os personagens acabam sendo sempre solitárias. O mundo da Partida Repentina provocou uma reprodução silenciosa da teoria dos Remanescentes Culpados; e mesmo que se forcem a reconstruir a rotina, secretamente, todos os personagens sentem a necessidade de fazer como o Pilar Man e isolar-se daqueles que amam para tentarem olhar pelas frestas da verdade. Laurie seguiu sozinha até os Remanescentes; Tom seguiu para o abraço de Santo Wayne; Meg também abandonou tudo; Evie fez o mesmo; Erika pretendia escapar; John vivia suas dores totalmente recluso e se Kevin precisou fazer sua “viagem” para livrar-se de Patti, Nora também precisava fazer a sua para livrar-se da esperança. Sim, porque no fundo ela tinha aquilo que vive tentando matar nos outros: esperança. 

Nora tem agido com muito cinismo desde que soube do mecanismo que enviaria pessoas para o outro lado, isso é fato. Mas, não podemos esquecer que ela quis mudar para Jarden porque lá havia uma possibilidade imponderável de que ninguém fosse levado novamente. Teorias sobre a partida sempre a interessaram e exatamente por isso considero que mesmo cínica, ela tinha esperanças de que tudo funcionasse. Quando foi rejeitada, a sustentação desse personagem cínico tornou-se impossível e ela desabou. E daí para frente, Carrie Coon fez o que quis com o nosso coração.

A discussão do casal foi sem dúvida um dos momentos mais poderosos que assistimos até aqui. La Traviata ecoava, cheia de seus significados sobre “a mulher caída”, assumida por um homem que não era capaz de lidar com a bagagem que vinha junto com ela…  Sabemos que Kevin também foge, que ele não está bem, que sua esquizofrenia se manifesta de formas que lhe obrigam a se confrontar com tudo aquilo que ele não suporta sobre si mesmo… Mas, o que ele fez com Nora foi devastador.

A pergunta que ela respondeu aparentemente de modo errado na entrevista com os responsáveis pelo mecanismo de partida, não era só de aspecto moral. Há uma forte possibilidade de que eles estivessem indo na direção oposta dos Remanescentes e testando a capacidade de seus “candidatos” de se importarem com a vida em qualquer esfera. E Nora não é só uma mulher amargurada pela dor de perder os filhos, mas uma mulher amargurada pela dor de ser capaz de ter desejado perdê-los em algum momento, mesmo que ali, no meio de uma manhã infernal em que sua vida medíocre de dona de casa a enojava. Então, quando Kevin lhe diz que ela “devia ir para junto dos filhos” é como se ele a estivesse esmagando com toda força, porque ela havia acabado de tentar fazer isso e fracassara por própria culpa. 

Assim, Take on Me começa a tocar, numa iniciativa musical inesperada diante de uma escolha estética tão dramática. A canção é agitada, serviria para pessoas dançarem numa balada oitentista. Mas, o quadro aqui é outro. Notem que no clipe um homem e uma mulher estão em realidades diferentes e lutam para ficarem juntos. 

https://youtu.be/djV11Xbc914 

O final feliz do videoclipe não se repete no final de G’Day Melbourne, que num dos momentos mais lindos que já tivemos o privilégio de testemunhar, faz a água (esse símbolo tão forte de passagem entre universos) derramar sobre Nora e escorrer de seus olhos como se fosse a engrenagem de uma fonte, que não se esgota porque sua força não é corrente e sim cíclica. As lágrimas não acabam porque ela chora sempre pelas mesmas coisas. E as luzes vão se apagando, a imagem vai sumindo, no exato momento em que a canção diz: 

“Aceite-me
Me leve
Eu estou indo embora
Em um dia ou dois”. 

A devastação emocional dos personagens marcou esse final da primeira metade da temporada derradeira de The Leftovers. Ali, diante da TV, presenciando a forma dolorida com a qual o roteiro validava a evidência do fim entre duas pessoas, eu descobri também que a minha catarse não me deixava esquecer que eu não estou preparado para o fim. Faltam só mais 4 e então o “mundo” vai acabar para eles e para nós. Esse mundo de não-existências concretas, capaz de ser arte e verdade, mesmo que adornado das mais absolutas gêneses da mentira.

The Leftovers 3x04: G'Day Melbourne
The Leftovers 3×04: G’Day Melbourne

As Sobras: Semana que vem acho que vamos descobrir que Kevin cometerá um grande erro em se reaproximar do pai no meio de surto de esquizofrenia. 

As Sobras 2: Evie apareceu no delírio de Kevin segurando um cartaz que dizia Surah 81. Essa é uma passagem do Alcorão que fala sobre juízo final e que entre os versos tem esse aqui: “E quando a garota que foi enterrada viva é questionada por qual pecado ela foi morta”. Não sei, mas o paralelo me parece duplo, representando a própria Evie (“enterrada” por seu envolvimento com os RC) e também Nora, que foi alegoricamente “enterrada” em G’Day Melbourne, de duas maneiras. 

As Sobras 3: Laurie fez um trabalho sensacional com Kevin na sequência onde desmascarou seu surto. 

As Sobras 4: Nora segurando aquele bebê: QUE AGONIA. 

> As 5 Melhores Séries da Netflix!

As Sobras 5: Sei que eles não conseguirão ficar juntos, mas poucas vezes torci tanto pela felicidade de um casal fictício como torci por Kevin e Nora.

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anteriorDerivado Cast #34 – Viagens Internacionais, Hacker Bandido, Mijo na Breja e muito mais
Próximo artigoThe Strain: Revelada a data de estreia para a 4ª e última temporada
leftovers-3x04-gday-melbourneG'Day Melbourne reforça o talento de The Leftovers para representar a angústia e o torpor das maneiras mais bonitas.