A triste doença da significação em Crazy Whitefella Thinking.

Quando eu era criança eu morria de medo do apocalipse. Me lembro que uma vez um daqueles evangélicos que batem na sua porta venderam para a minha mãe uma revista que ilustrava algumas passagens do “livro do fim do mundo”. Aquilo me chocou muito, porque levava as palavras da Bíblia ao pé da letra demais, com desenhos de bestas, trombetas e céu abrindo com anjos e demônios em luta. Era apavorante e com o tempo foi fazendo muito sentido que o ser humano tivesse tanto pavor dessa danação. Quase como num impulso de sobrevivência básico, seguir as “regras de Deus” se tornou uma pressão diária, porque eu não queria ser uma daquelas pessoas em agonia nas ilustrações do fogo do inferno.

O fato é que o mundo precisa da fé. Ela não é uma questão só de essência, mas de necessidade para manter a ordem natural das coisas. O medo da punição sobrenatural sempre foi mais eficiente do que o da punição terrena. O sentimento de culpa quando você faz algo de errado vem não só do medo de ser pego pelo homem, mas de ser pego por Deus também. Diante da dor, do medo, do risco, todos acabamos recorrendo a essa força superior que rege o mundo além da nossa vontade. Essa força que molda o destino de acordo com o andamento das nossas escolhas e que está sempre apta a punir enquanto ao mesmo tempo, perdoa. Todos a amamos e a tememos. E essa é uma dinâmica necessária para controlar os impulsos humanos mais primitivos.

The Leftovers está fazendo uma temporada que desafia a fé o tempo todo. Mas, não do ponto de vista da contestação, mas da contemplação filosófica. Pode parecer numa primeira olhada que a série quer destruir a instituição da fé, mas, de fato, o que ela está fazendo é um mapeamento emocional do que acontece com o ser humano quando ele está movido por essa força. Aprendemos até mesmo em outro trabalho de Lindelof, que há homens movidos pela ciência e outros movidos pela fé, e esses homens movidos pelo invisível são donos de uma infinita capacidade de acreditar e mesmo enquanto circunstâncias vão colocando no caminho desses homens provas de que às vezes não é uma questão sobrenatural, eles continuam sua busca desesperada por significação. 

The Leftovers 3x03: Crazy Whitefella Thinking
The Leftovers 3×03: Crazy Whitefella Thinking

Crazy Whitefella Thinking foi um episódio já esperado. Sabíamos que precisaríamos seguir o pai de Kevin até a Austrália e saber o que a série queria com isso. Essa rede de implicações que a série constrói são fascinantes, porque o episódio lindamente dirigido por Mimi Leader está apoiado na mesma premissa sugerida desde a sequência inicial da premiere do ano 2: eventos aparentemente significativos podem não significar nada e você pode estar pautando sua vida num engano de interpretação. Porém, pense no ser humano, sempre desesperado para cavar provas do sobrenatural em tudo que é natural, sendo confrontado com algo tão antinatural como a Partida Repentina. Homens de ciência se tornaram homens de fé e homens de fé se tornaram canalizadores messiânicos. É como se “Deus” provocasse com uma resposta, mas depois deixasse os anos passarem debochadamente, como se dissesse: a partida não tem significado. 

Papai Kevin refuta essa possibilidade e como ele, muitos espalhados por aquele mundo também se recusam a aceitar o vazio daquele grande evento. Vocês sabem como evito ao MÁXIMO citar Lost nas reviews, mas é inevitável não pensar em Papai Kevin como uma versão reajustada de Locke. Esse senhor com uma vida completamente ordinária que enfia na cabeça que é uma espécie de escolhido e que busca afoito por pistas das próprias profecias. Foi especialmente interessante perceber que o roteiro foi cuidadoso em injetar falta de noção em Papai Kevin, tudo para que as informações prévias sobre ele fossem imediatamente desacreditadas. Lembrem-se que The Leftovers é sobre desacreditar. Então, as vozes, a National Geographic, o chamado para a Australia, tudo é desacreditado por um único momento: o momento em que ficamos sabendo que para Papai Kevin ele é o escolhido e não seu filho. É outra forma da série nos dizer que tudo é uma questão de perspectiva. 

Nesse intuito de se provar importante, Papai Kevin vai se forçando por um caminho em que parece que a cada esquina ele descobrirá uma parte da própria santidade; quando, na verdade, em cada esquina ele vai sendo forçado a lidar com a própria mediocridade. A cada momento em que se depara com uma razão para desacreditar, ele transforma uma pequena coisa em outro “sinal” divino. E o ciclo nunca se encerra… Para o coração e a mente do “homem de fé”, erros não são apenas erros, dores não são apenas dores. Tudo é uma forma de comunicação com Deus. Tudo é PROVAÇÃO. Vimos a mesma coisa acontecer no depoimento de Grace. 

The Leftovers 3x03: Crazy Whitefella Thinking
The Leftovers 3×03: Crazy Whitefella Thinking

Eu disse na semana passada que me assustava que Lindelof estivesse nos dizendo por dois anos que o mistério não importa, para depois nos provocar com um que foi fragmentado e exibido aos pedaços no final de cada dia. The Leftovers nunca foi uma série de cliffhangers, nunca teve essa proposta, nunca provocou desse jeito. Parecia uma espécie de contradição direta e isso me preocupou imensamente. Não fazia sentido para mim acalmar sua audiência sedenta por mistérios e chegar no Series Finale com um público que passou oito semanas especulando respostas. Porém, parte da minha preocupação se dissipou ao terminar esse terceiro episódio. 

Lindelof disse no podcast The Watch que era mesmo Nora na última cena da premiere e que aquele era um “tipo de futuro”. A cena final do segundo episódio estava ligada à do primeiro de alguma forma, mas não da forma mais óbvia. Foi reconfortante notar que Grace e suas “Cavaleiras” estavam atrás de outro embuste, de outro erro, de outro engano de interpretação. Grace era mais uma… Outra Locke, outra Papai Kevin, outra daquelas mulheres que sobem no telhado a espera de um apocalipse que não vem. A vida ficou dando para ela provas da aleatoriedade do destino e ela continuava cavando significações que reconfortassem seu coração e seu ego, incapaz de reconhecer a irrelevância de sua própria existência. Assim, no último momento, Grace quase assume que tudo é circunstancial, até que Papai Kevin vê nas palavras dela uma possibilidade de se manter como porta-voz do divino (ainda que como coadjuvante) e manipula aquela mulher descaradamente, fazendo-a acreditar que as palavras daquela página arrancada significam alguma coisa, quando ele mesmo não acredita nelas. 

Isso é triste, senhores… Presenciar esse desespero humano por representações da fé é muito triste, porque na maioria das vezes essas representações são ególatras; maneiras polidas – e até rústicas – de elevar-se perante outros seres humanos; mostrar-se superior a eles pelo simples exercício da crença. Ainda assim, a vida em sociedade seria possível sem a fé no invisível? Sem o medo do inferno? Sem a esperança do “paraíso”? EXATAMENTE por isso a dramaturgia de The Leftovers é tão forte, porque ela informa aos homens que há algo acima deles, mas que esse algo não está nem aí para o que eles têm a dizer. É uma verdade que os personagens se recusam a aceitar, principalmente porque todos os exemplos de “homens de fé” ilustrados pelo enredo pensam sempre em larga escala, são megalomaníacos, donos de planos para a conversão da humanidade…

Algo me diz que seria o caso de avaliar que a fé que importa talvez seja aquela que sufoca um pedido, que se expressa com lágrimas, que habita silenciosa na pura relação entre as forças e a existência. 

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As Sobras:  Cobras continuam aparecendo na série como agentes transformadores de jornadas. Foi assim com a mulher pré-histórica, com a mulher com a tatuagem de cobra que rouba Lily de Nora na cena da ponte da segunda temporada e agora com Papai Kevin. 

As Sobras 2: A música da abertura tinha frases que meio que centralizavam a ideia de Crazy Whitefella Thinking: Alcance e toque a fé, seu próprio Jesus pessoal. Alguém para ouvir suas preces. Alguém que se importe. 

As Sobras 3: Só estavam construindo uma arca porque Grace leu para eles as palavras das páginas arrancadas do livro. 

As Sobras 4: Damon Lindelof disse umas coisas interessantes na sua participação no podcast que citei acima. Vou listar algumas aqui. 

  • Por algum tempo ele teve a sensação de que consideravam não deixá-lo fazer uma temporada final por medo de que a controvérsia do final de Lost se repetisse. E que ele realmente ponderou encerrar no ano 2 depois de tantos elogios.
  • Assim que resolveu que haveria uma última temporada, a cena final foi pensada antes de qualquer coisa. O que diriam, quem estava nela e onde se passaria. Toda a temporada foi construída em torno disso.
  • Ele assistiu a filmagem da última cena e disse que suas expectativas foram superadas.
  • Damon também assumiu ter consciência de que na manhã seguinte à finale só haverá dois tipos de matéria nos jornais: Damon se redimiu ou Damon fez de novo.
  • Dessa vez, contudo, ele está muito mais seguro e garantiu não ter interesse em se calar a respeito.
  • E sim, inserir a cena final do primeiro episódio dessa temporada foi uma forma de informar aos fãs que não há a menor chance de um final feliz para Kevin e Nora.
REVISÃO GERAL
Nota:
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