Somos definidos pelas decisões que tomamos
Talvez um dos maiores temores do ser humano seja vivenciar um dilema. No meio de uma situação difícil, em que as duas opções a serem corroboradas podem significar terríveis consequências, as escolhas são capazes de alterar drasticamente a continuidade dos fatos. De um contexto simples a um mais complexo, qualquer pessoa já esteve diante de um cenário de escolhas. Em alguns casos, tomar uma decisão é seguir um caminho sem volta, perspectiva esta que retoma o famigerado “e se”. Partindo desses pressupostos, Intelligence conseguiu construir um episódio que, apesar de apresentar ligeiros problemas, supera o piloto em termos de qualidade, trazendo excelentes momentos.
Primeiramente, não esperava que Intelligence continuasse as tramas paralelas da série imediatamente após o piloto, pois os diálogos anunciavam que seria mantido um padrão mais procedural nesses primeiros instantes. E isso parecia ainda mais claro até a primeira metade, visto que tudo parecia uma rotineira investigação a respeito de terroristas no Oriente Médio. Felizmente, os roteiristas souberam muito bem inserir o desaparecimento de Amelia naquele caso já interessante por si só. Embora a audiência tenha despencado, ponto que será comentado posteriormente, a alternativa encontrada para manter um ritmo mais acelerado foi muito eficaz.
Como uma série sci-fi, Intelligence tem a liberdade de criar tramas bastante pertinentes sem que haja um verdadeiro compromisso com a realidade (ou pelo menos até onde sabemos). Fato que comprova essa assertiva seria a trama envolvendo a bomba pouco tóxica e comestível, que desafia os limites da ciência. Entretanto, há alguns detalhes que são questionáveis. Em Gabriel, foi inserido um microchip com toda a tecnologia presente nos computadores da inteligência norte-americana. Logo, como somente ele seria capaz de descriptografar o arquivo, enquanto o analista não tinha esse poder? Teria alguma relação com a associação entre o ser humano e o computador? Lamentavelmente, esse detalhe foi esquecido com o fluxo narrativo.
A história principal foi muito interessante em todos os sentidos. Não se pode negar que terroristas em território norte-americano em posse de bombas com o intuito de promover atentados estão longe de originais, mas o desencadeamento dos arcos foi bem particular, principalmente por conta da bomba bastante especifica. Tudo bem que, novamente, algumas cenas foram bastante didáticas, como quando o cientista revelou os efeitos da concentração dos componentes da bomba pela segunda vez consecutiva. Entretanto, Intelligence tem a oportunidade de entreter o telespectador com teorias conspiratórias sem soarem artificiais. E se espera que isso ocorra com bastante frequência.
Apesar de uma trama bem trabalhada e instigante, outros fatos também apresentaram pequenas falhas em aspectos particulares, mas que poderiam ser facilmente evitados se existisse um cuidado um pouco maior. A cena de ação no elevador, por exemplo, foi muito longa e muito curta simultaneamente. Ela se prolongou muito numa conversa que não trouxe muitas informações e, ao mesmo tempo, foi encerrada de maneira abrupta com o deslocamento do elevador. Além disso, as ações de Riley foram até certo ponto inconstantes, mesmo após a reunião com Lilian, já que ela, em diversos instantes, separou-se ou manteve-se ao lado de Gabriel, contrariando as instruções. Ela foi enganada por ele no fim, mas antes esses equívocos já haviam acontecido.
Todas as quatro personagens principais em Red X – incluindo a agente da CIA –estiveram diante de escolhas irreparáveis. Como Lilian muito bem disse, uma pessoa define-se pelas decisões feitas quando tudo pode correr mal. A chefe do departamento ordenou que, caso a esposa de Gabriel estivesse envolvida com os terroristas, Riley deveria dar um fim a essa situação. Apesar de hesitar bastante em todos os momentos, esta tomou a decisão de afastar Gabriel de Amelia no apartamento, visto que a bomba estava supostamente em sua posse. O agente, por sua vez, precisou combater a emoção de todas as formas para encontrar a pessoa que mais amava, ao passo que ela se dirigiu a uma missão ainda desconhecida há cinco anos. Todas essas escolhas, inegavelmente complicadas, mudaram completamente a vida dessas quatro pessoas e muito provavelmente seus efeitos serão vistos daqui a alguns episódios.
Justificável foi a personalidade de Gabriel com os acontecimentos – e nesse ponto muito bem interpretado por Holloway. Inconstante, irracional e autodestrutivo como uma bomba, uma inteligentíssima analogia feita em Red X. A geografia sem dúvidas contribuiu para o despertar desses sentimentos, já que ela não era tão simples como aparentava ser. A tragédia ao final, contudo, abriu caminho para algo bastante recorrente no mundo das séries: o envolvimento dos protagonistas. Apesar de toda a relação de proteção evidenciada por Riley, está claro que pode acontecer algo mais do que uma amizade no trabalho, principalmente pela preocupação genuína que ela sente por ele. Isso não é de todo modo ruim. Parece que eles possuem alguma química. Parece. Ainda falta muito para chegar a uma conclusão definitiva.
As atuações de Meghan Ory e Marg Helgenberger merecem seus respectivos destaques. A primeira, sempre em sintonia com Josh Holloway, mostra-se determinada e disposta a enfrentar seus desafios. A segunda, por sua vez, enquanto parece fazer sua própria investigação particular para descobrir os mistérios por trás de Amelia, sempre se caracteriza muitíssimo bem como uma pessoa perspicaz e sensata. Num episódio cheio de dramas e informações sigilosas como Red X, atuações tão boas como as delas – sem excluir o Holloway, que passou a imagem de uma pessoa angustiada por sofrimento – são, sobretudo, necessárias para confirmar a qualidade já elogiada.
O arco da esposa de Gabriel está muito longe de um final. Em primeiro lugar, não se sabe se ela de fato morreu e não há certeza dos acontecimentos por trás da sua missão no exterior ou a forma que ela acabou julgada como terrorista. Eu estava pronto para tecer reclamações sobre o quão conveniente foi o garoto pegar o papel do terrorista, mas felizmente tudo tinha um propósito. Muito provavelmente, Amelia esteve infiltrada na Índia, ou seja, ela não seria a grande vilã da história. Isso também pode ser afirmado ao ver que toda a conversa sobre odiar Gabriel era somente um pretexto para impedir outra perda. Sabemos o início e o fim (ou, mais uma vez, pelo menos achamos que sabemos), agora só nos resta aguardar a sucessão de acontecimentos que levou a este destino. Repito novamente, há infinitas possibilidades de desenvolvimento de arcos. Espero que Amelia esteja mesmo morta para evitar algum salvamento misterioso e sensacional, embora acredite que a probabilidade de isto acontecer seja grande.
Com um episódio bem melhor que o primeiro em termos de continuidade, envolvimento e interesse – com a grande vantagem de ser autoexplicativo – Intelligence tem grandes chances de apresentar uma boa (e talvez única) temporada. A audiência do segundo episódio, infelizmente, teve uma queda gigante, atingindo 1.2 na demo 18-49 anos. Para a CBS, isso é um cancelamento anunciado. Apesar de haver uma grande diminuída nos programas em geral do canal nesse ano, esses números são inadmissíveis, mesmo para a faixa das 22h. Sei que ainda é cedo para assegurar uma afirmação dessas, mas o melhor a fazer é não ficar otimista e torcer por uma ótima temporada.
Observações inteligentes:
– Um dos maiores problemas ocasionados pelo implante do microchip estaria justamente nas máquinas, visto que existe a tendência de elas se tornarem obsoletas. Entretanto, foi excelente a cena que o jovem cientista e Gabriel batalharam para ver quem conseguiria acessar os arquivos primeiros.
– O humor, mesmo tímido, foi muito bom em Red X. Realmente, saber as localizações de todos os táxis pode ser bem mais rápido que ligar para uma companhia ou erguer o braço para fazer sinal.
– Ótima também foi a dinâmica de pai e filho quando procuravam por resíduos no estômago do terrorista. Quando alguém faz uma expressão de problema numa circunstância daquelas, sempre haverá problema. Ainda mais quando existe alguém cheio de medo.
– A analogia com a bússola feita ao final também foi excelente. Enquanto Gabriel segue o seu caminho, Riley parece guiá-lo.
– Quais são os limites entre segurança e obsessão? Tenho certeza que a sociedade normal tem uma concepção bem diferente da que Gabriel e Riley possuem…
– Intelligence já tem milhares de semelhanças com Chuck e ainda colocam uma cena que lembra muito o nerd da Buy More e Casey caindo do prédio lá na primeira temporada. Tudo bem que não teve os requintes de comédia e teve um drama bem mais acentuado, mas ninguém pode negar o quão são parecidas.
– Apesar de a abertura se extremamente didática, ela foi excelente. Repleta de efeitos especiais e bastante interessante: a próxima evolução da inteligência.















