Bem-vinda de volta, Community!
Nos três primeiros episódios desta quinta temporada de Community, tenho dito o quanto a série evoluiu após o pavoroso quarto ano, principalmente pelo retorno de Dan Harmon ao comando do show. No entanto, ainda que tenhamos visto as típicas paródias funcionando novamente, e os personagens sendo melhor cuidados por roteiros mais lapidados e coerentes, faltava uma coisa para que pudéssemos ter a certeza de que uma das comédias mais criativas dos últimos tempos está realmente de volta: aquele episódio genial que faça as pessoas tirarem suas meias (essa expressão fica realmente horrível em português). E Cooperative Poligraphy é exatamente esse momento digno de aplausos que Community precisava.
Se passando logo após um bizarro funeral para Pierce, que hoje tem o vapor de sua alma circulando em uma cápsula “azuleta”, o episódio narra a investigação sobre a morte do personagem, conduzida pelo Mr. Stone (Walton Goggins, inspiradíssimo). Nela, todos os integrantes do grupo de estudos precisam responder a perguntas excessivamente reveladoras, a princípio para que sejam inocentados, mas depois para que possam ganhar as heranças que Pierce deixara para eles. Tudo isso leva a uma série de desentendimentos, acusações, mentiras e discursos motivacionais de Jeff.
Não é à toa que Cooperative Poligraphy tenha um título tão semelhante ao de Cooperative Caligraphy, excepcional episódio da segunda temporada. Ambos são bottle episodes, e tratam da relação do grupo como um todo através de brigas por motivos bestas e da incrível falta de confiança que há entre eles. É curioso como, depois de mais de três anos desde a discussão sobre o roubo da caneta de Annie, todos os personagens ainda guardam segredos dos mais sérios aos mais desnecessários uns dos outros, demonstrando assim a falta de evolução que Jeff insinua em seu discurso que admite que todos os seis são tão monstros como o finado Pierce.
Isso é uma das coisas que torna Community uma série tão única. Sua capacidade de unir suas estruturas diferenciadas ao que seus personagens realmente significam, explorando ao máximo suas relações, como no já citado Cooperative Caligraphy ou em outras ocasiões (Remedial Chaos Theory me vem à cabeça). Por mais bizarras que sejam as situações escondidas por cada um deles, nenhuma delas soa incoerente com o que conhecemos de cada um, tornando perfeitamente aceitável o fato de Annie ter drogado todos os amigos para conseguir um A, ou que Abed tenha instalado rastreadores em cada um deles.
Tudo isso para dar a Pierce a despedida que a série fora incapaz de dar em sua temporada anterior (desculpem, mas é muito difícil não comparar as duas). E o discurso carinhoso dado por ele através da voz do Mr. Stone, seguido por uma série de presentes inúteis e nojentos, é um final mais do que apropriado. E, de maneira muitíssimo inteligente, Community aproveita para criar a deixa para a despedida de Troy, que agora navegará pelo Childish Gambino Tycoon para finalmente ser o que sempre desejou: um milionário. Resta saber como a série lidará com a ausência de metade da carismática dupla formada por ele e Abed, o que certamente definirá boa parte da qualidade do restante da temporada.
Além disso, Cooperative Poligraphy segue uma tendência deste quinto ano de Community, em que a série procura se auto-referenciar, algo possível pelo fato de já termos 89 episódios. Assim, podemos ver que os presentes dados por Pierce são memórias do que já acontecera anteriormente. Afinal, se vocês se lembrarem de The Art of Discourse, lá na primeira temporada, se lembrarão que Britta é descrita como uma orgulhosa dona de um iPod nano em 2014, além da mais óbvia lembrança da tiara para Annie, e de que Pierce e Troy tiveram aulas de navegação marítima juntos.
Mas tudo isso não seria o bastante se Cooperative Poligraphy não fosse engraçado. E esse episódio é, facilmente, o mais hilário da temporada. Contando com um ritmo alucinante de piadas, disparadas em sequência, podemos ver que o roteiro consegue conciliar todas as tentativas de criar humor com o seguimento da história, sempre se aproveitando das características dos personagens para isso. Assim, por mais que a densidade seja altíssima, nunca nos cansamos de rir das situações criadas, porque a série consegue variar suas piadas de forma sublime, criando momentos excepcionais como a descoberta da real origem do toque secreto de Troy e Abed ou a inesgotável química entre Jeff e Britta, que achava que sua calcinha havia sido roubada por um falcão.
Todas essas características fazem com que Cooperative Poligraphy seja, em todos os aspectos, o melhor episódio que Community fora capaz de produzir em muito tempo, reunindo todas as qualidades que a série já havia mostrado anteriormente, que permitem dizer que essa quinta temporada será, de fato, muito boa.















