Abraçar a vida ou reverenciar a morte?

Os seres humanos são criaturas bastante estranhas… Ao mesmo tempo em que somos equipados com os impulsos naturais da preservação da vida, também somos capazes de renunciar a isso em nome de estranhas manias de reafirmação intelectual. Será mesmo que os cultos ao escuro, à morte e à danação não são estúpidas renúncias ao privilégio de estar vivo? De uma perspectiva fria, são. Se a vida se oferece pra você, seja nos termos que forem, o mínimo que você pode fazer pra ser considerado uma pessoa inteligente é aceitar e usufruir. Se a vida, então, se oferece pra você DUAS vezes, porque diabos você vai cultuar seus aspectos pútridos ao invés dos aspectos reconstruídos?

A segunda temporada de In The Flesh mudou seu tom quase completamente e veio para explorar a ambiguidade dessas questões existenciais: Viver de novo para cultuar a morte é realmente o propósito da ascensão? Esqueçamos a metáfora desmantelada dos mortos-vivos, o que fica, em perspectiva, é a noção de que reviver é uma chance de tentar de novo. E não há, de forma alguma, nenhuma boa razão para que não sejam acessadas as novas tentativas. E se tudo isso é verdade, porquê voltar-se exatamente para os detalhes que tornam seu recomeço o fruto de alguma espécie de “morte”?

Estamos diante de tudo isso, obviamente. Quando a cena antes da abertura de In the Flesh terminou, eu me perguntei se estava realmente diante da mesma série que vi um ano atrás. E não me entendam mal… De fato, o que os produtores estão buscando são formas eficazes de garantir ao show uma sobrevida que vá além da discussão filosófica. Tivemos muito disso nos episódios da primeira temporada e agora, se quisermos ir adiante, precisamos adicionar ao tempero algumas doses de mitologia. Assim nasceu, então, uma maneira competente de ampliar as discussões propostas pela série: A Sindrome do Falecimento Parcial é uma chance de tentar de novo, mesmo aos pedaços, e porque raios então vamos nos entorpecer daquilo que nos tornava monstros? E se isso pareceu familiar pra você, não é mera coincidência.

Voltamos nossas atenções para como foi decidida a estrutura dessa temporada. De um lado, reabilitados que buscam uma reinserção na sociedade e entendem o próprio retorno como uma forma de reajustar o que ficou no passado. Do outro, os reabilitados que acham que a ressurreição compõe um quadro racial, e exatamente por isso, se confundem no processo. Para esses, o mundo precisa aceitar essa nova “espécie”, que é óbvio, como todos os seres humanos vivos (veja a ironia) começa a achar imediatamente que existem afetações sobrenaturais envolvidas.

Parece haver uma subdivisão nessa questão toda. Vimos Amy retornar com seu mesmo jeito louquinho, só que acompanhada do “Profeta Simon”, que embora não cometa os mesmos erros que os hidrófobos, compartilha com eles um senso de superioridade. Esse é o quadro da premiere: Kieren querendo voltar a viver e o mundo à volta dele fazendo questão de não usar nem lentes e nem maquiagem. Pode ser que eu esteja errado, mas a dificuldade que Kieren tem de se olhar no espelho não é só uma questão de não lidar com o que se tornou, mas de não saber lidar com quem ele era. Ele quer um recomeço… E ele está certo. Mas ali está o mundo todo o obrigando a ficar. E sejamos francos… Se é pra ficar, que seja pra lidar com o que está com você.

Assim, muito espertamente, os roteiristas providenciam outras storylines e uma delas é a de Jem, irmã do protagonista. Jem fazia parte de uma espécie de “exército de extermínio dos mortos-vivos” e ao deparar-se com o irmão, suas perspectivas foram sacudidas bruscamente. Então, é claro, sua história vai assombrá-la na escola, onde fica dividida entre aproveitar o status conquistado e ser honesta consigo mesma. Tudo em In The Flesh é sobre querer recomeçar e não conseguir. E porquê?  Simplesmente porque nada pode começar de novo se não acabou completamente. Por isso, Jem é colocada diante de seus próprios demônios e – vejam só – não aprende. A antiga Jem matou sem pensar nas consequências e ao ser confrontada com isso, preferiu cometer os mesmos erros, voltando a apertar o gatilho não pelo mundo, mas por si mesma. Ótima sequência final, cheia de desdobramentos.

A série continua afiada, precisamos admitir… Eles fizeram as atenções em Jem serem completamente justificadas pelo que foi inserido logo no primeiro episódio e reforçaram esse talento quando resolveram dar atenção à Phillip também. O quão fascinante é desvendar outra prova da imensa capacidade do ser humano de se readaptar, quando as aspirações românticas dele não são uma questão de encontrar uma mulher, mas sim de desejar uma das “novas mulheres”. Mal posso esperar pra ver como Amy vai chegar nessa equação.

Mais longevidade foi encomendada pela inserção de uma mitologia central, focada nos planos e segredos de Maxine, membro do parlamento da cidade, que chega para roubar registros e deixar o vigário morrer. Através dela chega a mensagem definitiva da temporada: por causa da “droga do esquecimento” ou não, o governo começa a tentar encontrar alternativas para, veladamente, segregar os reabilitados. Já vimos isso em X-Men, True Blood e muitas outras produções…. Essa distorção racial que globaliza os eventos. Há uma tentativa fingida de reinserir os “diferentes”, que logo são lembrados de que a mentira da igualdade será sempre determinante nas decisões. Esse é um terreno arriscado, mas confio no que os criadores dessa beleza são capazes de fazer.

Apesar desse retorno nervoso, com efeitos especiais agressivos e o perigoso flerte com o lado monstruoso dos portadores de SFP, In the Flesh estava toda ali. Nos olhares estranhos, no desconforto dos corpos, na frieza das relações, no pai de Kieren entendendo o que é querer recomeçar mais do que qualquer outro personagem (se você aprende algo precioso como se abrir, continue se abrindo) e na jornada existencial peculiar do protagonista. Se o mundo lhe tira sua vida (ou até você mesmo), e alguma mágica bizarra traz essa vida de volta… Senhores, usem as lentes e a maquiagem e comecem de novo. O podre não precisa ser festejado, porque ele não é quem você é… Ele é só no que você se transformou.

Brainstorm 1: Parece que os “nascidos em Roartan” são parte dessa nova mitologia. Tenho medo dessa coisa de “os escolhidos”.

 Brainstorm 2: Pedacinhos de cérebro de ovelha não são uma delicia? 

Brainstorm 3: BDFF.

Artigo anteriorElementary 2×23: Art In The Blood
Próximo artigo24 9×03: 1:00 p.m. – 2:00 p.m.