A mortalidade é a consequência mais inevitável da vida.

Vocês já repararam que o conceito de vida está sempre cercado de otimismo e palavras solares? Ainda que num momento de crise, a vida é descrita como algo a ser recuperado ou realcançado. Ainda que obscura e atribulada, a vida é invocada como algo a ser revivido. Ter a “vida” é ter a oportunidade de consumi-la e não ser consumido por ela. Por isso, toda e qualquer manifestação artística sobre a existência é tomada de ambiguidades. Existir não é o mesmo que viver, já que o mundo está infestado de coisas que são privadas da consumação da vida.

Obras que lidam com zumbis (palavra evitada nos dois mais importantes produtos do gênero) tendem a nos confrontar com essas filosofias. Pessoas que já tiveram consciência mastigam a carne dos que ainda as têm. Esses, por ventura, começam a agir como animais para garantir as próprias sobrevivências e com isso, a ruptura é feita. Os comedores de gente não estão mais vivendo, e as pessoas que fogem deles, muito menos. A vida vira uma nomenclatura suspensa no ar, sem sentido, sem perceptividade.

In The Flesh já nasceu para ser existencialista, porque pulou a parte do pânico e da mastigação e foi direto pra parte onde nos perguntamos o que é realmente estar vivo. Basicamente, se colocarmos de lado os hábitos que nos caracterizam como “coisas vivas”, o que sobra é a evidência primordial: Viver é o mesmo que morrer um dia. Porém, quando os mortos retornam para nosso convívio, cheios de consciência e exigindo sociabilidade, as coisas se confundem. A série então se dedica a mostrar os “vivos” tentando privar os “mortos” do direito à rotina, enquanto os “mortos” por terem derrotado a mortalidade, começam a agir como os vivos e arrumam um jeito de se sentirem superiores por isso. Enfim… Dá pra In The Flesh ser mais genial que isso? 

Dá sim… O que o season finale dessa ótima segunda temporada fez foi mostrar que o Segundo Renascimento nada mais é que a recuperação da mortalidade. Vivos não podem privar seres conscientes do direito à vida e mortos não podem andar entre nós como representações do que nunca pode ser atingido pela experiência do mundo. Então, de algum jeito, a natureza aproveita a ciência e começa a reconstruir a ordem das coisas. O corpo reanimado que ganhou a chance de repovoar o planeta começa a se transformar num corpo totalmente vivo, num corpo apto à morrer e por isso, num exemplo absolutista da vida. 

Sabiamente, a série resolveu nos dar essa lição de mortalidade colocando-a em prática. Infelizmente, isso teve que acontecer de modo trágico, já que na vida de qualquer um, a morte surge na hora errada, interrompendo um tráfego de felicidades iminentes, não pedindo licença para só ser executada quando terminamos de fazer tudo que viemos fazer aqui. Perder Amy foi terrível, triste e devastador, mas era necessário. Necessário para que a loucura coletiva de Roatar fosse contida através da emoção mais unificadora: a perda. No final das contas, qualquer organismo consciente deveria ter o direito de viver, uma, duas, ou quantas vezes fosse possível. 

Toda a sequência do funeral de Amy foi de cortar o coração. Como sempre, o roteiro foi certeiro em fazer com que Philip fosse a nossa voz, o nosso coração. A morte dela foi mais cortante, sobretudo porque compreendemos como ela afeta o coração apaixonado dele. A morte é assim… Sempre pior pra quem fica. E vê-lo segurando aquele tigre de pelúcia, lamentando a perda de um coração que começara a bater por ele tão delicadamente… Foi triste demais. 

Definitivamente não tivemos todas as nossas perguntas respondidas, mas já sabemos o mais importante. Não existe mais nenhuma chance de mais mortos levando das tumbas. O que está acontecendo é uma renovação física dos Portadores da Síndrome do Falecimento Parcial e essa deve ser a razão pela qual Amy começou a ser exumada na sequência final. Mas, ainda não sabemos quem é o “Profeta” e nem a quem Maxine estava respondendo. Não me parece que as ordens para ela e Simon tenham partido da mesma fonte, mas sem dúvida esse foi um finale cheio de boas tensões e viradas repentinas. 

Apenas no ano que vem (really?) saberemos como será essa nova perspectiva. Kieren resistiu ao Esquecimento Azul provavelmente porque ele mesmo já está começando a ser regenerado. Foi muito bom ver Simon sendo aceito e uma relação entre os dois poderia ser lindamente explorada na série. Ao mesmo tempo, fico inseguro com  a ideia de que podemos começar a ter uma série sobre  mortos-vivos sem mortos-vivos. A não ser que, como é bem natural dos seres humanos, os reabilitados comecem a lutar contra a ação da vida, com medo de perderem o que os torna “especiais”. 

Se esse for o caminho, In the Flesh só vai ter confirmado sua impressionante competência para tratar o tema. Esses poucos seis episódios foram um privilégio de serem assistidos, deram uma aula de como se pode escrever um roteiro emocional e filosófico sem perder a tensão e obscuridade. Vida é ação e reflexão. Nem todos os vivos estão vivendo, porque a existência é mais do que ser, é reagir.

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